Links

ARQUITETURA E DESIGN




99 dialogues, Berlim, Museu dos Judeus, 1999. fotografia de Bernd Uhlid in www.sashawaltz.de


99 dialogues, Berlim, Museu dos Judeus, 1999. fotografia de Bernd Uhlid in www.sashawaltz.de


Körper, 2000. fotografias de Bernd Uhlid


Körper, 2000. fotografias de Bernd Uhlid


NoBody, 2002. fotografias in www.festival-avignon.com


NoBody, 2002. fotografias in www.festival-avignon.com


Dido & Aeneas – úlltima produção se Sasha Waltz em exibição no CCB, Lisboa fotografia in www.sashawaltz.de

Outros artigos:

2017-09-10


“VINTE E TRÊS”. AUSÊNCIAS E APARIÇÕES NUMA MOSTRA DE JOALHARIA IBEROAMERICANA PELA PIN ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE JOALHARIA CONTEMPORÂNEA


2017-08-01


23 – JOALHARIA CONTEMPORÂNEA NA IBERO-AMÉRICA


2017-06-30


PASSAGENS DE SERRALVES PELO TERMINAL DE CRUZEIROS DO PORTO DE LEIXÕES


2017-05-30


EVERYTHING IN THE GARDEN IS ROSY: AS PERIFERIAS EM IMAGENS


2017-04-18


“ÁRVORE” (2002), UMA OBRA COM A AUTORIA EM SUSPENSO


2017-03-17


ÁLVARO SIZA : VISÕES DA ALHAMBRA


2017-02-14


“NÃO TOCAR”: O NOVO MUSEU DO DESIGN EM LONDRES


2017-01-17


MAXXI ROMA


2016-12-10


NOTAS SOBRE ESPAÇO E MOVIMENTO


2016-11-15


X BIAU EM SÃO PAULO: JOÃO LUÍS CARRILHO DA GRAÇA À CONVERSA COM PAULO MENDES DA ROCHA E EDUARDO SOUTO DE MOURA


2016-10-11


CENAS PARA UM NOVO PATRIMÓNIO


2016-08-31


DREAM OUT LOUD E O DESIGN SOCIAL NO STEDELIJK MUSEUM


2016-06-24


MATÉRIA-PRIMA. UM OLHAR SOBRE O ARQUIVO DE ÁLVARO SIZA


2016-05-28


NA PEGADA DE LE CORBUSIER


2016-04-29


O EFEITO BREUER – PARTE 2


2016-03-24


O EFEITO BREUER - PARTE 1


2016-02-16


GEORGE BEYLERIAN CELEBRA O DESIGN ITALIANO COM LANÇAMENTO DE “DESIGN MEMORABILIA”


2016-01-08


RESOLUÇÕES DE ANO NOVO PARA A ARQUITETURA E DESIGN EM 2016


2015-11-30


BITTE LEBN. POR FAVOR, VIVE.


2015-10-30


A FORMA IDEAL


2015-09-14


DOS FANTASMAS DE SERRALVES AO CLIENTE COMO ARQUITECTO


2015-08-01


“EXTRA ORDINARY” - JOVENS DESIGNERS EXPLORAM MATERIAIS, PRODUTOS E PROCESSOS


2015-06-25


PODE A TIPOGRAFIA AJUDAR-NOS A CRIAR EMPATIA COM OS OUTROS?


2015-05-20


BIJOY JAIN, STUDIO MUMBAI


2015-04-14


O FIM DA ARQUITECTURA


2015-03-12


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE II/II)


2015-02-11


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE I/II)


2015-01-11


ESPECTADOR


2014-12-09


ARQUITECTAS: ENSAIO PARA UM MANUAL REVOLUCIONÁRIO


2014-11-10


A MARCA QUE TEM O MEU NOME


2014-10-04


NEWS FROM VENICE


2014-09-08


A INCONSCIÊNCIA DE ZENO. MÁQUINAS DE SUBJECTIVIDADE NO SUPERSTUDIO*


2014-07-30


ENTREVISTA A JOSÉ ANTÓNIO PINTO


2014-06-17


ÍNDICES, LISTAGENS E DIAGRAMAS: the world is all there is the case


2014-05-15


FILME COMO ARQUITECTURA, ARQUITECTURA COMO AUTOBIOGRAFIA


2014-04-14


O MUNDO NA MÃO


2014-03-13


A CASA DA PORTA DO MAR


2014-02-13


O VERNACULAR CONTEMPORÂNEO


2014-01-07


PÓS-TRIENAL 2013 [RELAÇÕES INSTÁVEIS ENTRE EVENTOS, ARQUITECTURAS E CIDADES]


2013-11-12


UMA SUBTIL INTERFERÊNCIA: A MONTAGEM DA EXPOSIÇÃO “FERNANDO TÁVORA: MODERNIDADE PERMANENTE” EM GUIMARÃES OU UMA EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA NUMA ESCOLA EM PLENO FUNCIONAMENTO


2013-09-24


DESIGN E DELITO


2013-08-12


“NADA MUDAR PARA QUE TUDO SEJA DIFERENTE”: CONVERSA COM BEYOND ENTROPY


2013-08-11


“CHANGING NOTHING SO THAT EVERYTHING IS DIFFERENT”: CONVERSATION WITH BEYOND ENTROPY


2013-07-04


CORTA MATO. Design industrial do ponto de vista do utilizador


2013-05-20


VÍTOR FIGUEIREDO: A MISÉRIA DO SUPÉRFLUO


2013-04-02


O DESIGNER SOCIAL


2013-03-11


DRESS SEXY AT MY FUNERAL: PARA QUE SERVE A BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA?


2013-02-08


O CONSUMIDOR EMANCIPADO


2013-01-08


SOBRE-QUALIFICAÇÃO E REBUSCO


2012-10-29


“REGIONALISM REDIVIVUS”: UM OUTRO OLHAR SOBRE UM TEMA PERSISTENTE


2012-10-08


LEVINA VALENTIM E JOAQUIM PAULO NOGUEIRA


2012-10-07


HOMENAGEM A ROBIN FIOR (1935-2012)


2012-09-08


A PROMESSA DA ARQUITECTURA. CONSIDERAÇÕES SOBRE A GERAÇÃO POR VIR


2012-07-01


ENTREVISTA | ANDRÉ TAVARES


2012-06-10


O DESIGN DA HISTÓRIA DO DESIGN


2012-05-07


O SER URBANO: UMA EXPOSIÇÃO COMO OBRA ABERTA. NO CAMINHO DOS CAMINHOS DE NUNO PORTAS


2012-04-05


UM OBJECTO DE RONAN E ERWAN BOUROULLEC


2012-03-05


DEZ ANOS DE NUDEZ


2012-02-13


ENCONTROS DE DESIGN DE LISBOA ::: DESIGN, CRISE E DEPOIS


2012-01-06


ARCHIZINES – QUAL O TAMANHO DA PEQUENÊS?


2011-12-02


STUDIO ASTOLFI


2011-11-01


TRAMA E EMOÇÃO – TRÊS DISCURSOS


2011-09-07


COMO COMPOR A CONTEMPLAÇÃO? – UMA HISTÓRIA SOBRE O PAVILHÃO TEMPORÁRIO DA SERPENTINE GALLERY E O PROCESSO CRIATIVO DE PETER ZUMTHOR


2011-07-18


EDUARDO SOUTO DE MOURA – PRITZKER 2011. UMA SISTEMATIZAÇÃO A PROPÓSITO DA VISITA DE JUHANI PALLASMAA


2011-06-03


JAHARA STUDIO


2011-05-05


FALEMOS DE 1 MILHÃO DE CASAS. NOTAS SOBRE O CONCURSO E EXPOSIÇÃO “A HOUSE IN LUANDA: PATIO AND PAVILLION”


2011-04-04


A PROPÓSITO DA CONFERÊNCIA “ARQUITECTURA [IN] ]OUT[ POLÍTICA”: UMA LEITURA DISCIPLINAR SOBRE A MEDIAÇÃO E A ESPECIFICIDADE


2011-03-09


HUGO MADUREIRA: O ARTISTA-JOALHEIRO


2011-02-07


O QUE MUDOU, O QUE NÃO MUDOU E O QUE PRECISA MUDAR


2011-01-11


nada


2010-12-02


PEQUENO ELOGIO DO ARCAICO


2010-11-02


CABRACEGA


2010-10-01


12ª BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA — “PEOPLE MEET IN ARCHITECTURE”


2010-08-02


ENTREVISTA | FILIPA GUERREIRO E TIAGO CORREIA


2010-07-09


ATYPYK PRODUCTS ARE NOT MADE IN CHINA


2010-06-03


OS PRÓXIMOS 20 ANOS. NOTAS SOBRE OS “DISCURSOS (RE)VISITADOS”


2010-05-07


OBJECTOS SEM MEDO


2010-04-01


O POTENCIAL TRANSFORMADOR DO EFÉMERO: A PROPÓSITO DO PAVILHÃO SERPENTINE EM LONDRES


2010-03-04


PEDRO + RITA = PEDRITA


2010-02-03


PARA UMA ARQUITECTURA SWISSPORT


2009-12-12


SOU FUJIMOTO


2009-11-10


THE HOME PROJECT


2009-10-01


ESTRATÉGIA PARA HABITAÇÃO EVOLUTIVA – ÍNDIA


2009-09-01


NA MANGA DE LIDIJA KOLOVRAT


2009-07-24


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR (Parte II)


2009-06-16


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR


2009-05-19


O QUE É QUE SE SEGUE?


2009-04-17


À MESA COM SAM BARON


2009-03-24


HISTÓRIAS DE UMA MALA


2009-02-18


NOTAS SOBRE PROJECTOS, ESPAÇOS, VIVÊNCIAS


2009-01-26


OUTONO ESCALDANTE OU LAPSO CRÍTICO? 90 DIAS DE DEBATE DE IDEIAS NA ARQUITECTURA PORTUENSE


2009-01-16


APRENDER COM A PASTELARIA SEMI-INDUSTRIAL PORTUGUESA OU PORQUE É QUE SÓ HÁ UMA RECEITA NO LIVRO FABRICO PRÓPRIO


2008-11-20


ÁLVARO SIZA E O BRASIL


2008-10-21


A FORMA BONITA – PETER ZUMTHOR EM LISBOA


2008-09-18


“DELIRIOUS NEW YORK” EXPLICADO ÀS CRIANÇAS


2008-08-15


A ROOM WITH A VIEW


2008-07-16


DEBATER CRIATIVAMENTE A CIDADE: A EXPERIÊNCIA PORTO REDUX


2008-06-17


FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA, DEFEITO E FEITIO


2008-05-14


A PROPÓSITO DA DEMOLIÇÃO DO ROBIN HOOD GARDENS


2008-04-08


INTERFACES URBANOS: O CASO DE MACAU


2008-03-01


AS CORES DA COR


2008-02-02


Notas sobre a produção arquitectónica portuguesa e sua cartografia na Architectural Association


2008-01-03


TARZANS OF THE MEDIA JUNGLE


2007-12-04


MÚSICA INTERIOR


2007-11-04


O CIRURGIÃO INGLÊS


2007-10-02


NÓS E OS CARROS


2007-09-01


Considerações sobre Tempo e Limite na produção e recepção da Arquitectura


2007-08-01


A SUBLIMAÇÃO DA CONTEMPORANEIDADE


2007-07-01


UMA MITOLOGIA DE CARNE E OSSO


2007-06-01


O LUGAR COMO ARMADILHA


2007-05-02


ESPAÇOS DE FILMAR


2007-03-01


TERRAIN VAGUE – Notas de Investigação para uma Identidade


2007-02-02


ERRARE HUMANUM EST…


2007-01-02


QUANDO A CIDADE É TELA PARA ARTE CONTEMPORÂNEA


2006-12-02


ARQUITECTURA: ESPAÇO E RITUAL


2006-11-02


IN SUSTENTÁVEL ( I )


2006-10-01


VISÕES DO FUTURO - AS NOVAS CIDADES ASIÁTICAS


2006-09-03


NOTAS SOLTAS SOBRE ARQUITECTURA E TECNOLOGIA


2006-07-30


O BANAL E A ARQUITECTURA


2006-07-01


NOVAS MORFOLOGIAS NO PORTO INDUSTRIAL DE LISBOA


2006-06-02


SOBRE O ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO MODERNO


2006-04-27


MODOS DE “VER” O ESPAÇO - A PROPÓSITO DE MONTAGENS FOTOGRÁFICAS


share |

ARTES DO ESPAÇO: ARQUITECTURA/CENOGRAFIA

GABRIELA GONÇALVES


As pontes entre arquitectura e arte depois do século XX são numerosas, o mundo altera-se rapidamente, e no domínio das artes nenhuma disciplina guarda um sentimento autónomo. Mesmo a arquitectura, arte tradicionalmente isolada, não escapa a este fenómeno. Cada vez mais ela é palco das novas culturas visuais e tecnologias contemporâneas.

As experiências artísticas da década de sessenta alteraram a forma do observador olhar e percepcionar a obra de arte. O espectador deixou de estar perante o objecto artístico e passou a estar dentro do próprio objecto. Este princípio alterou em muito a concepção espacial que passou a ser desde então um grande centro de interesse de qualquer prática artística. No campo das artes plásticas os artistas começaram a extravasar as paredes brancas das galerias e começaram a apresentar os Happenings, como novo conceito artístico onde aproximavam, artistas e público, arte e realidade.
No campo das artes cénicas estas experiências vieram a centrar-se essencialmente na relação entre espectador-actor, e espectador-espaço cénico, foi assim que pela primeira vez apareceu o desejo de escapar à sala de teatro tradicional com a sua caixa cénica e o “palco à italiana”.
Com todos estes novos interesses, surgiram nas diferentes artes novas perspectivas e teorias espaciais, explorando tanto o seu lado construtivo como o seu lado metafórico e utópico.

Hoje em dia, artistas plásticos como Richard Serra, Eduardo Chillida, Vito Acconci, Gordon Matta-Clark, Bruce Nauman, Rachel Whiteread, James Casebre, Wolfgang Laib entre outros, trabalham e questionam temas que sempre entendemos como temas arquitectónicos (concepção espacial, território, espaço público e espaço privado). Os limites entre arte e arquitectura tornaram-se assim cada vez mais ténues, possibilitando cada vez mais o cruzamento de técnicas e conceitos entre disciplinas artísticas. Neste campo a cenografia tem vindo a contribuir de uma forma muito clara.

Ao longo do século XX, a cenografia foi deixando de ter um carácter mimético, e em vez de imitar um lugar do mundo como forma de caracterizar a acção teatral, passou ela própria a construir um lugar para as suas personagens e até mesmo para os seus espectadores. Começou então a desenvolver com maior intensidade temas tradicionalmente arquitectónicos ligados à tridimensionalidade do espaço como luz, sombra, cor, escala e perspectiva. Com estes novos temas, a cenografia afastou-se da pintura (arte com que se relacionava tradicionalmente) e aproximou-se da arquitectura.


Adolphe Appia (1) foi um dos teóricos teatrais mais importantes da renovação das teorias de encenação europeias do início do século XX. O grande fundamento de todo o seu trabalho foi sempre tentar trazer para o teatro e para a dança, a continuidade e unidade entre a presença corporal e o espaço cénico, com forte influencia do conceito Wagneriano de obra de arte total (2), Appia defende a sensibilização do homem no espaço arquitectónico, e cria o novo conceito de obra de arte viva.
Desde os anos vinte que as suas teorias apontavam para que a cenografia trabalhasse essencialmente com a manipulação do espaço. Para Appia o espaço cenográfico teria de ser organizado segundo aquilo que ele chamava os quatro elementos expressivos: o actor – a figura humana, a implantação, a iluminação e a cor. Para a criação de um cenário estes quatro elementos independentes teriam de ser subordinados uns aos outros e conjugados com a música e os seus ritmos constituindo assim uma paisagem cénica forte, coesa e abstracta.


Hoje em dia podemos rever algumas destas teorias espaciais no trabalho de alguns artistas que embora afectos a uma área artística, produzem obras em campos transdisciplinares.
O trabalho de Sasha Waltz (3), no campo da coreografia, reflecte bem como a arte pode ser feita de corpo, espaço e movimento. Com os seus trabalhos mais uma vez se coloca a questão do lugar e do estatuto da arte enquanto objecto ou acto. E por consequência a questão da essência da arquitectura.
Talvez por ter tido uma relação muito próxima com arquitectura (filha de arquitectos) as obras de Sasha Waltz demonstram um grande cuidado com uma visão poética do espaço. Os ambientes criados para 99 Dialogues, NoBody ou Körper sempre tratados como mais uma personagem interveniente no espectáculo são espacialmente muito expressivos e testemunham a sua permeabilidade à arquitectura.

Encenado pela primeira vez na inauguração da extensão do Museu dos Judeus em Berlim, 99 Dialogues é um espectáculo que pretendia dialogar com espaço arquitectónico envolvente, projectado por Daniel Libeskind. Sasha Waltz distribuiu os seus bailarinos em pequenos grupos pelo museu condicionando a passagem do público. Os seus corpos faziam o contrapondo com as paredes inclinadas do museu e ajudavam a alertar o público para o drama do Holocausto.
Em körper (4), um único plano vertical, preto serve de cenário. No centro deste plano uma abertura, feita à semelhança de uma janela, vai alterando a sua expressão conforme a luz. Esta janela umas vezes põe em evidencia a acção, e nela deslizam silenciosamente os corpos dos bailarinos, outras vezes anula-se perante o fundo negro do espaço envolvente.
Na relação entre acção e objecto arquitectónico, este foi um primeiro passo para o espectáculo criado para ser representado no Festival d’Avignon em 2002 no Pátio principal do Palais des Papes. Sobre uma fachada repleta de história Sasha Waltz faz deslizar um cubo branco feito de tela. Um objecto neutro dentro de um “vazio” carregado de história. O edifício existente é vertical e repleto de janelas, Sasha Waltz ocupa o espaço na sua totalidade. Ela investe nas janelas góticas com um jogo de luzes, e aplica-lhes imagens radiográficas dos seus bailarinos, transforma-os em vitrais contemporâneos. Uma maneira plástica de revelar o corpo com a luz e com a cor. Enquanto os bailarinos se movem em grupo, um enorme balão flutua sobre as suas cabeças, este balão equilibra o vazio angustiante provocado pela verticalidade do pátio. Momentos depois o balão solta-se das suas amarras, flutua por uns instantes sobre o pátio e pousa delicadamente sobre a cena, envolvendo-a. Com este espectáculo Sasha Waltz capta o espírito do espaço e revela-lo ao seu público.

Nas representações de Sasha Waltz é sempre possível apreender uma forte relação entre a acção e o espaço cénico seja ele um lugar com grandes memórias arquitectónicas ou um espaço mesmo banal: em twenty eight (1993) o cenário é uma cozinha, em Tears break fast (1994) o cenário é uma casa de banho e um bar, em Allee der Kosmonauten (1996) o cenário é constituído por um prédio com nove andares, em zweiland (1997) sobre o palco existe a representação do muro de Berlim. Em todos os espectáculos, e sem cessar existe uma grande vontade de Sasha Waltz constituir uma leitura critica para o espaço cénico apresentado através das acções que propõe.

Como vimos anteriormente, tal como grande parte das artes contemporâneas a cenografia, trabalha essencialmente com a manipulação do espaço, mas à semelhança da arquitectura a cenografia só se completa no momento em que os seus espaços se preenchem de acções, histórias, movimentos e personagens. Embora grande parte das artes, hoje em dia se interesse por questões espaciais, a cenografia é a única arte que tal como a arquitectura configura espaços tridimensionais e os prepara para diferentes acções humanas ainda que sejam simulações. O espaço teatral contemporâneo questiona de diversas maneiras os códigos perceptivos utilizados até então, mostra a relatividade espacial e aproxima-se da arquitectura.

Os espectáculos de Sasha Waltz como de outros artistas contemporâneos apresentam-se ao espectador com um forte carácter transdisciplinar questão que pode possibilitar o diálogo entre diferentes áreas artísticas. O meio da arte pode permitir encontrar espaços de reflexão e de produção difíceis de explorar na arquitectura. A sobreposição de diferentes artes, linguagens ideias e técnicas, sempre encarada como uma partilha e não como uma sobreposição de teorias pode constituir uma mais valia para a produção arquitectónica.

Gabriela Gonçalves, Arquitecta
Docente de Projecto na Universidade Lusíada
Doutoranda da área de Proyectos Arquitectónicos da Universidade de Valladolid


(1) Appia, Adolphe in “La música y la puesta en escena” e “La obra de arte viviente” série teoria y prática del teatro nº 14 publicação da associação de directores de cena de Espanha, Madrid, 2000
(2) Richard Wagner, no artigo de 1849 “Das Kunstwerk der Zukunft” (a obra de arte do futuro), define a obra de arte total como uma obra-síntese que intensifica todas as artes (unidade entre a música, canto, dança, teatro, pintura, arquitectura,...). Segundo Wagner, o cruzamento das diferentes artes em palco deveria conduzir a um acontecimento único — a Ópera. Adolph Appia teve como base para os seus estudos a encenação dos dramas Wagnerianos.
(3) Sasha Waltz coreografa alemã directora da companhia de dança Sasha Walts & Guest foi co-directora da Schaubühne de Berlim. www.sashawaltz.de
(4) körper (espectáculo apresentado em Lisboa em Maio de 2005) foi o 1º espectáculo de uma triologia dedicada ao corpo e à sua expressão iniciada por Sasha Waltz em 2000. Esta triologia era composta por körper, S, e NoBody.