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ARQUITETURA E DESIGN




Grupo de mulheres trabalhando na contrução do Siedlung Rosenhügel, nos arredores de Viena, no início dos anos 1920. Fonte: arquivo online do bairro Rosenhügel, disponível em www.ah-rosenhuegel.net


Representação esquemática dos tipos mais comuns das casas rurais tradicionais em diferentes partes da Jugoslávia. Fonte: Aleksandar Deroko, Narodna arhitektura 2, Folklorna Arhitektura Jugoslavije, Belgrade: Naučna Knjiga, 1964. Imagem gentilmente cedida por Aleksandar Ignjatovic.


Mário de Oliveira, “O «Habitat» nas zonas suburbanas de Quelimane: um caso positivo de formação de sociedades multirraciais.” Fonte: Geographica, ano 3, n.º3, Julho de 1965, Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, pp.70-71. Imagem gentilmente cedida por Ana Vaz Milheiro.


Vista do Bairro Tiburtino, ca. 1956. Fonte: Casabella-continuità, n.º215, Abril-Maio 1957. Cortesia da Library of the University of Pennsylvania. Imagem gentilmente cedida por Jonathan Mekinda.


Em cima: Estrutura da casa da Samoa enviada para a Exposição do Império Britânico, 1924. Fonte: Handbook of Western Samoa, 1925. Em baixo: Charles Reed e “Mosooi”, a sua “esposa mestiça”, com uma taça de kava em frente da fale da Samoa na Exposição do Império Britânico de 1924. Fonte: autor anónimo, Archives New Zealand. Imagens gentilmente cedidas por Tina Engels-Schwarzpaul.

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“REGIONALISM REDIVIVUS”: UM OUTRO OLHAR SOBRE UM TEMA PERSISTENTE

RICARDO AGAREZ E NELSON MOTA


Que lugar ocupa o conceito de Regionalismo na produção contemporânea de teoria e história da arquitectura? Do que falam académicos de contextos geográficos diversos quando reflectem sobre o processo arquitectónico de raiz ocidental no período contemporâneo e usam o termo Regionalismo? Quais os elementos (objectos arquitectónicos, autores, centros de produção) recorrentes em tais relatos, quais os novos campos de interesse a explorar e quais as áreas de sombra? Na história da arquitectura contemporânea há um Regionalismo “bom” e um “mau”? Um sofisticado e um kitsch? Um sedutor e um olvidável? Em que medida estas distinções penetram nas narrativas que nos rodeiam, e com que efeitos?

Estas foram algumas das questões que estiveram na origem da sessão “Regionalism Redivivus: Do We Need a Closer Look?”, organizada pelos autores deste texto para o segundo encontro internacional da European Architectural History Network (EAHN), que teve lugar em Bruxelas, entre os passados dias 31 de Maio e 2 de Junho de 2012. [1]


Regionalismo renascido?

É o tempo presente, afinal, um momento de Regionalismo redivivus – isto é, de Regionalismo renascido, revivido? Novamente? Ainda?

A intenção subjacente a esta sessão, desde o início, não era exactamente a de procurar respostas pragmáticas para as ansiedades dos arquitectos contemporâneos, chamados a negociar (como tantas vezes no passado) as exigências específicas do contexto em que intervêm e as influências e interferências, intencionais ou incontroláveis, de realidades mais ou menos distantes. Ao invés, foi seu propósito específico reflectir sobre o entendimento dado ao tema ao longo do século passado, e sobre as tentativas desenvolvidas para o modelar de acordo com agendas muito díspares.

Regionalismo foi um dos temas com uma existência mais atribulada na arquitectura ocidental do período contemporâneo, envolto em complexas construções teóricas desenvolvidas à distância, em centros metropolitanos de produção cultural, e muitas vezes enredado, por consequência, em narrativas deslocadas do desenvolvimento concreto, in situ, das práticas que deram origem a esses mesmos modelos teóricos. A sessão “Regionalism Redivivus” seria, então, fundamentalmente dedicada a retomar a discussão do tema onde tais modelos a abandonaram – isto é, num lugar mais próximo aos objectos estudados, através de leituras que cotejassem as perspectivas centrais recorrentes com os pontos de vista locais e regionais. O que foi o Regionalismo em arquitectura, quando visto a partir das regiões e dos contextos concretos, locais? Qual a agenda local, quão regionalista foi, como se fez ouvir no centro? Quando se fala em Regionalismo, está-se na verdade a falar em prática regional, em que o -ismo se refere a uma declinação estilística (à maneira de)? Ou de uma estratégia mais ampla na qual outros factores, como reivindicações de autonomia ou independência, por exemplo, também são considerados? A articulação entre movimentos e tendências regionalistas e nacionalistas, por outro lado, varia extraordinariamente entre contextos fundamentalmente diferentes, e a utilização do termo Regionalismo pode referir realidades diametralmente opostas. Mais, os processos designados sob o termo-chapéu Regionalismo remetem para escalas muito variadas – enquanto fazer arquitectónico de um país ou área vis-à-vis as correntes internacionais, mas também enquanto diferenciação regional no interior de determinado contexto nacional, para dar apenas dois dos exemplos mais óbvios.

No seu ensaio “Observações sobre o conceito de Regionalismo”, publicado originalmente em 1992, Alan Colquhoun traçava a genealogia do conceito como tema arquitectónico, sugerindo a sua presença constante na prática e discurso ocidentais ao longo dos últimos duzentos anos e a sua associação, tanto por apropriação quanto por recusa, com inúmeros aspectos e derivações daquela prática. Regionalismo e historicismo, e eclectismo, e nacionalismo, e vanguardas: Regionalismo como uma corrente subterrânea permanente que pontualmente emerge para interagir com outros vectores da prática arquitectónica, dando origem no processo a tensões que a vem enriquecer, quotidianamente.

A relação entre Regionalismo e arquitectura moderna apresenta no entanto contornos especiais: dadas as frequentes associações entre Regionalismo e eclectismo superficial (por exemplo, em contextos onde aquele é visto como uma imposição central sobre as regiões de determinado país de modo a caracterizá-las segundo estereótipos, por regra conservadores), e entre modernismo e autenticidade ou verdade, a relação Regionalismo / modernismo tem tendido a ser vista como dicotómica e polarizada sendo mais raramente entendida como concordante. Colquhoun encontrou no período entre-guerras as primeiras tentativas, entre as vanguardas modernistas, de reconciliar costumes populares e tradições regionais com tecnologias modernas, ou seja, de combinar Regionalismo e modernismo. No entanto, em muitas sociedades pós-fascistas da Europa mediterrânica, por exemplo, aquele período tem sido considerado como de Regionalismo decadente e ecléctico e o que se seguiu – um renovado interesse pelas tradições populares regionais por parte das elites arquitectónicas, verificado em todo o mundo nos anos de 1950 – é comummente visto como uma fase de regeneração. Esta ideia reformadora, intensamente vivida em meados do século, viria a influenciar uma abordagem de Regionalismo que, no início dos anos 1980, seria enquadrada como “crítica”, libertando-a assim da carga negativa associada ao pressuposto eclectismo do período de entre-guerras e a outras abordagens contemporâneas, onde a incorporação das referências do quotidiano eram consideradas “populistas”.

O ciclicamente debatido Regionalismo Crítico, conceito forjado por Alexander Tzonis e Liane Lefaivre em 1981 num pouco lembrado artigo de uma revista grega e desde então revisto, reformulado e reproposto inúmeras vezes por estes autores e por Kenneth Frampton, entre outros, trouxe consigo não apenas um certo tipo de “crítica cultural de Esquerda soft, comum na década de 1980 na América (...), que invocava o modelo de uma sociedade organicista mas ao mesmo tempo procurava evitar defender uma utopia reaccionária” que incitou Colquhoun a sugerir, através das suas análises históricas, a impossibilidade de tal projecto (Colquhoun 2005 cit. in Canizaro 2007, 140). Aquele conceito, que tem sido atacado em frentes por vezes totalmente díspares – enquanto “forma revisionista de uma nostalgia imperialista” (Jacobs 1996, 15) e enquanto construção “frequentemente imposta do exterior, desde posições de autoridade” (Eggener 2002, 228) – carrega consigo um preconceito intrínseco: a distinção, de contornos também morais, entre o Regionalismo “bom” e o “mau”, os usos vanguardista e populista de referências regionais no projecto arquitectónico, e consequentemente o interesse superior do primeiro (“crítico”) como objecto de estudo, por comparação com a relevância menor do segundo (a-crítico, ecléctico, romântico, literal, populista). O atributo “crítico” revelou-se então instrumental como forma de sanear o Regionalismo da sua carga literal e ecléctica e o reabilitar nas narrativas históricas e na prática arquitectónica do tempo pós-moderno. Em suma, pós-fascista e pós-moderna, a cultura arquitectónica ocidental tendeu a adoptar o motto: “Regionalismo sim, mas...” – o Regionalismo arquitectónico dos anos 1950 e posterior é representado como são, progressivo e democrático, um instrumento de resistência, enquanto as formas anteriores aparecem como degeneradas, retrógradas e totalitárias.

Uma grande parte desta narrativa de combate, montada pelos praticantes de há 60 anos – que procurava capturar o tema regionalista para o lado progressista –, continua a fazer parte do nosso discurso cultural contemporâneo. Um dos efeitos desta apropriação historiográfica é o relegar para segundo plano de uma miríade de processos, obras e protagonistas, insuficientemente explorados e discutidos, um efeito aumentado ainda pelo enquadramento moral, na perspectiva central, que o critério “crítico” veio reactivar.

Quais foram, afinal, os objectivos e ambições das regiões e comunidades locais em relação a este tema, como foram aqueles formulados e expressos na prática arquitectónica, e qual o peso e papel dos agentes locais e regionais? Como foi negociada a relação entre centro e periferia, e com que efeitos concretos? Os regionalismos “pré-críticos” foram de facto meras construções de poder, sem contribuições locais? Onde estavam, e o que foram, estas? Para lá do contexto mediterrânico, como variou este tema através da Europa? E nas suas fronteiras alargadas, nos territórios de colonização europeia?

Com estas questões em pano de fundo, a sessão procurou reunir contributos que, assentes em investigação inédita sobre fontes locais e regionais, ou em casos de estudo mais próximos dos desenvolvimentos locais e regionais e menos espartilhados pelos modelos teóricos metropolitanos, trouxessem leituras novas sobre um tema aparentemente já muito debatido. Quis-se revisitar (reavivar) o debate através de um outro olhar, incidindo sobre registos próximos dos contextos regionais, e não perpetuar as perspectivas já cristalizadas, assentes na repetição sistemática dos mesmos nomes, obras e processos.


Para além do preto-e-branco: Regionalismo com shades of gray

Foi com este objectivo que os autores conceberam e estruturaram a sessão “Regionalism Redivivus”, procurando explorar posições interessadas em debater a frequente associação da noção de regionalismo com um conflito de polaridades, e o seu consequente enquadramento moral.

A selecção de propostas que identificaram claramente algumas dessas polaridades verificou-se instrumental para permitir explorar os diversos gradientes do debate em torno do tema do Regionalismo; os tons intermédios entre uma visão a preto e branco, tal como se propunha nos objectivos da sessão. E as contribuições para este debate chegaram a partir de várias geografias, de tempos diversos e de contextos políticos distintos. No entanto, em todos os cinco casos seleccionados para participar na sessão procurou-se encontrar como ponto de comunhão a discussão dos lugares mais desfocados dessa fronteira; a atenção ao espectro remanescente entre os pólos, entre o preto e o branco. [2]

Um primeiro exemplo desta discussão foi ilustrado pelo caso do movimento austríaco de cooperativas de habitação e aproveitamento de terrenos baldios que se organizou na sequência da carência habitacional no pós-Primeira Guerra Mundial, a Österreichs Kleingärtner und Siedlerorganisation. A associação criada para formalizar estes desenvolvimentos espontâneos revelou-se particularmente activa na articulação dos movimentos populares com diversos actores, como políticos, técnicos e artistas como Otto Neurath, Adolf loos, Margarete Schütte-Lihotzky e Josef Frank, empenhados por seu lado em enquadrar aqueles fenómenos com a modernização do país. Sophie Hochhäusl [3] demonstrou como este caso ilustra bem as tensões entre concepções universalistas da modernidade, por um lado, e a preocupação em encontrar soluções para problemas locais, pelo outro lado. A participação de Adolf Loos neste movimento revela ainda a delicadeza com que os valores associados ao moderno e ao popular, ou ao urbano e ao rural, têm de ser negociados, no sentido de preservar os laços de identidade que unem uma comunidade, ou mesmo uma nação. Demonstra também a tensão e os conflitos entre os moradores e o arquitecto na discussão de soluções de caracterização formal informadas, no primeiro caso, por referências vernaculares, e, no segundo caso, alegadamente, por critérios económicos e de racionalidade construtiva.

Esta caso revelou ainda como os processos participativos no desenvolvimento do projeto contribuíram para o desenvolvimento de uma consciencialização dos moradores para os fenómenos da urbanização e dos arquitectos e urbanistas para as questões da identidade e da criação do sentido de comunidade.

A experiência austríaca de orientação bottom-up contrasta com a construção de um Regionalismo top-down que se verificou no Reino da Jugoslávia, no período da ditadura monárquica imposta por Alexander I em 1929 e que viria, até ao deflagrar da Segunda Guerra Mundial, a perseguir tenazmente a obliteração das identidades e diferenças étnicas dos povos que compunham o reino. No caso jugoslavo, apresentado por Aleksandar Ignjatovic, [4] pode-se encontrar um exemplo de instrumentalização política da ideia de Regionalismo, evitando deliberadamente a construção de uma matriz identitária fundada em critérios históricos, para promover uma ideia de identidade gerada e justificada por fenómenos naturais. A noção de diversidade foi explorada na sua componente política mais neutral: diversidade de regiões e não de pessoas, culturas. Mas as regiões e a forma como a arquitectura serviu de meio para as legitimar terão sido mero instrumento para matizar as tensões da centralização, cujos efeitos políticos já eram bem conhecidos naquela parte do mundo. Ignjatovic trouxe à discussão um caso interessante de construção centralizada de uma ideia de Regionalismo, no qual a antítese entre o regional e o central – tema essencial no discurso corrente sobre o tema, em especial quando associado com o atributo “crítico” – se revela insustentável.

A dimensão política do fenómeno do Regionalismo e da arquitectura como veículo para a difusão destas políticas está também presente de forma inequívoca nos processos de colonização. Nestes contextos, a recente atenção de estudos pós-coloniais tem revelado exemplos numerosos e até agora pouco explorados de regionalismos deslocados, referências com ecos muito distantes e tradições transplantadas entre continentes, às quais a história e a teoria da arquitectura parecem também querer atender.

O caso do trabalho do Gabinete de Urbanização Colonial na Guiné, ao serviço do Estado Novo, apresentado por Ana Vaz Milheiro, [5] ilustra bem a ambivalência com que, no âmbito das áreas disciplinares da arquitectura e do desenho urbano, se processaram as transferências estilísticas entre a chamada Metrópole e as colónias, entre os colonos e a população indígena. A manutenção de uma ideia de familiaridade, de preservação de ligações emocionais ao contexto de origem de cada um destes grupos sugeriu um processo de miscigenação. Assim, nas habitações para os colonos foram adoptadas referências pitorescas importadas da metrópole, embora “africanizadas”, ou seja, adaptadas ao clima da região. No caso dos alojamentos para a população indígena, por outro lado, a abordagem caracterizou-se pela adopção de critérios de racionalidade construtiva de inspiração modernista que, no entanto, preservassem as referências vernáculas. São ambos, portanto, processos de contaminação recíproca que resultam de um fenómeno de hibridação provocado por uma política de compromisso.

Este fenómeno pode também ser encontrado nas políticas de habitação na reconstrução italiana do pós-Segunda Guerra Mundial, ilustradas pelo programa INA-Casa, que foi discutido por Jonathan Mekinda. [6] Aqui, mais uma vez, tratava-se de tentar negociar politicamente o peso do passado – a guerra e o fascismo de Mussolini – com as pressões do presente, a crise do pós-guerra e a democracia. A valorização de uma aproximação ao real impôs-se como forma de articular a cultura e as tradições do país com os desafios impostos pela modernidade. Para enquadrar essa aproximação ao real, arquitectos e urbanistas refugiaram-se numa interpretação do vernacular para suportar um Regionalismo que, no entanto, não procurou rejeitar as bases estabelecidas pela modernidade. Um dos aspectos mais salientes do Regionalismo proposto pelo “Neo-realismo” italiano, ilustrado em casos como o bairro Tiburtino, nos arredores de Roma, é a deliberada rejeição dos mitos associados à ideia de identidade nacional, tal como tinham sido difundidos nos tempos do fascismo. Agora, tratava-se de celebrar os dialectos e as tradições locais, a ideia de uma arquitectura para o homem comum e para uma atenção ao rituais do quotidiano.

Colocando-se esta experiência italiana em contraponto com outros fenómenos coevos de reconstrução, principalmente no centro e norte da Europa, percebe-se que enquanto que em Itália se fazia uma crítica aos princípios enunciados pelo movimento moderno no período de entre-guerras, na Europa setentrional verificava-se uma adesão de grande escala a esses princípios, suportada, pelo menos superficialmente, por critérios sócio-económicos ditados pela aposta na racionalidade construtiva e numa obsessão higienista. Não se trata, no entanto, de uma distinção entre um Regionalismo conservador em comparação com o modernismo progressista. Trata-se sim de uma concepção fundada numa ideia que celebra a diversidade e a individualidade, por contraste com outra que, por motivos diversos, aposta numa abordagem uniformizadora e massificadora.

Esta diferença de perspectivas pode ser também verificada na maneira como a concepção, a produção e a recepção da arquitectura é influenciada pela sua leitura a partir de contextos globais ou num enquadramento mais local. O caso das exposições (coloniais, mundiais, universais, etc.) ilustra bem uma situação em que se processa uma migração e um deslocamento de identidades, onde a arquitectura serve de veículo à construção de uma performance de identidade. A apresentação por Tina Engels-Schwarzpaul [7] das sucessivas representações, ao longo do último século, da fale, a casa típica da Samoa, em exposições internacionais realizadas na Europa e, muito recentemente, num parque de recreio e lazer na Alemanha, demonstra como se processou uma transferência do lado tectónico da construção para a sua componente cenográfica. Este aspecto vem chamar a atenção para a necessidade de repensar leituras do Regionalismo focadas primariamente nas questões materiais, de forma, de tectónica. Estas leituras deverão passar a considerar também os processos e os acontecimentos que deram origem à construção; os agentes envolvidos na definição daquelas formas, daquela tectónica, deverão assim ganhar uma posição mais central, e reivindicar para as questões cenográficas uma função performativa essencial.

A sessão “Regionalism Redivivus” contribuiu para apresentar novos olhares sobre o tema do Regionalismo e reavivar o debate sobre algumas das suas facetas vitais: o Regionalismo em arquitectura como suporte para explorar abordagens que reconsiderem um novo equilíbrio de forças entre as questões de natureza cenográfica e as tectónicas; o Regionalismo para além de uma visão construída e imposta a partir do centro (do core dos lugares de decisão do capitalismo ocidental), entendido também como uma prática de resistência ou resposta local e de múltiplas contaminações, nas quais agentes regionais e locais partilham com o centro a responsabilidade por construções identitárias concretas; o Regionalismo como uma expressão de intensa negociação entre alienação cultural e emancipação; o Regionalismo como a procura de alternativas entre uma “táctica” de desfamiliarização e a militância numa procura pela definição de uma identidade; o Regionalismo como método alternativo ao uso de instrumentos de controlo ou ferramentas de diferenciação. O Regionalismo em tons de cinzento, numa paleta de acepções e declinações que resiste à simples polarização preto-e-branco.


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Os autores escrevem de acordo com a antiga ortografia

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Ricardo Agarez
(Lisboa, 1972) Arquitecto pela FA-UTL (1996) e mestre em História da Arte pela FCSH-UNL (2004), é actualmente doutorando em História e Teoria da Arquitectura na Bartlett School of Architecture – UCLondon, com a tese Regionalism, Modernism and Vernacular Tradition in the Architecture of Algarve, Portugal, 1925-1965. Investiga e escreve sobre História e Teoria da Arquitectura do período contemporâneo desde 2003, tendo publicado artigos, capítulos de obras e o livro O Moderno Revisitado (CML, 2009).

Nelson Mota
(Mesão-Frio, 1973) Arquitecto (1998) e mestre (2006) pelo Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, onde é docente desde 2004. É um dos fundadores do colectivo comoco arquitectos. Venceu a primeira edição do Prémio Távora (2006) e é autor do livro A Arquitectura do Quotidiano (e|darq, 2010). Desde 2009, encontra-se a desenvolver doutoramento na TU Delft, Holanda. Desde 2012, é membro da direcção editorial da revista Footprint.

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NOTAS

[1] A sessão “Regionalism Redivivus” foi proposta em resposta a um call for session proposals e aceite, com outras 25, de um total de 78 candidaturas iniciais. Aberta a call for papers, a sessão recebeu 35 propostas de comunicação para cinco lugares disponíveis, e foi enquadrada no eixo “Questões Teóricas”, partilhado com sessões dedicadas a temas como memória e identidade, política e arquitectura, modernismo e vanguarda e pós-modernismo. A EAHN é uma organização recente, inspirada na congénere americana Society of Architectural Historians, que procura reforçar as redes de interacção académica e a produção partilhada de investigação através dos distintos contextos regionais e nacionais (networking). Para mais informação sobre a EAHN, consultar www.eahn.org

[2] Os papers apresentados na sessão Regionalism Reivivus? estão compilados nas actas do 2º Encontro do EAHN, ver (Heynen & Gosseye, eds., 2012, pp.313-344).

[3] Sophie Hochhäusl, da Universidade de Cornell apresentou a comunicação “Grass-roots Modernism: The Austrian Settlement and Allotment Garden Association”.

[4] Aleksandar Ignjatovic, da Universidade de Belgrado apresentou a comunicação “National Unity through Regional Diversity: Architecture as Political Reform in Yugoslavia, 1929-1941”.

[5] Ana Vaz Milheiro, do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, apresentou a comunicação “Africanicity and Colonial Architecture: The Response of the Colonial Planning Office (1944-1974)”.

[6] Jonathan Mekinda, da Universidade do Illinois em Chicago, apresentou a comunicação “Regionalism and Neorealism in Modern Italian Architecture, 1925-1955”.

[7] Tina Engels-Schwarzpaul, da Universidade de Tecnologia de Auckland, apresentou a comunicação (de autoria partilhada com Albert L. Refiti) “Fale Samoa and Europe’s Extended Boundaries: Performing Place and Identity”.

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REFERÊNCIAS

CANIZARO, Vincent B. Architectural Regionalism: Collected Writings on Place, Identity, Modernity, and Tradition, New York: Princeton Architectural Press, 2007.

COLQUHOUN, Alan. “Osservazioni sul concetto di regionalismo”, Casabella 56, n.º592, 1992, pp.52-55.

EGGENER, Keith. “Placing Resistance: A Critique of Critical Regionalism”, Journal of Architectural Education 55, n.º4, 2002, pp.228-37.

FRAMPTON, Kenneth. “Towards a Critical Regionalism: Six Points for an Architecture of Resistance”, The Anti-Aesthetic. Essays on Postmodern Culture, edited by Hal Foster, Port Townsend, WA: Bay Press, 1983, pp.16-30.

HEYNEN, Hilde & GOSSEYE, Janina (eds). Proceedings of the 2nd International Conference of the European Architectural History Network, Brussels: Contactforum, 2012.

JACOBS, Jane M. Edge of Empire: Postcolonialism and the City, London: Routledge, 1996.

TZONIS, Alexander, and Liane Lefaivre. “The Grid and the Pathway. An Introduction to the Work of Dimitris and Susana Antonakakis. With Prolegomena to a History of the Culture of Modern Greek Architecture”, Architektonika themata / Architecture in Greece, n.º15, 1981, pp.164-178.