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EXPOSIÇÕES ACTUAIS


Mary Heilmann,


Mary Heilmann, "Moira", 1998


Mary Heilmann, "Moira and John", 2001


Mary Heilmann,


Vista geral da exposição


Vista geral da exposição

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MARY HEILMANN

To Be Someone




NEW MUSEUM
Chelsea Art Museum 556 West 22nd Street (at 11th Avenue)
NYC 10011

22 OUT - 26 JAN 2009

A Pintura Abstracta de Mary Heilmann

Esta foi uma das retrospectivas mais aguardadas. Mary Heilmann (n. 1940, São Francisco) é uma referência e a sua pintura estabelece uma marca influente e visível no panorama actual da pintura abstracta norte-americana. O título da sua primeira exposição retrospectiva e individual num museu nova-iorquino, “To Be Someone”, faz referência à cultura pop e à eterna ligação imaginária entre pintura e música – como antecipou Kandinsky. Mary Heilmann traça com eloquência a linha entre a modesta intimidade do artista e o seu reconhecimento público – lembra a adrenalina cantada pelos Sex Pistols ou Brian Eno, músicos favoritos de Heilmann, referidos muitas vezes nos títulos das pinturas. A pintura abstracta de Heilmann tem o mesmo poder emocional da música pop e o mesmo poder catártico dos cartoons americanos.


Para além dessas referências, esta é uma pintura do presente, de produção constante e singular. Há no trabalho de várias décadas muitos desvios, que mantêm no entanto uma premissa central e fundamental – a criação de sistemas dentro da imagem disfuncional e auto-regeneradora da pintura, e a sua articulação enquanto forma e cor que se expressa através do humor que partilhamos subtilmente. É obviamente complexo tentar explicar pintura abstracta, mas na verdade a pintura abstracta explica-se a si própria como uma tautologia. A sua superfície é a sua identidade, como nos avisava Clement Greenberg. Heilmann parece recusar a suposta erudição da pintura ao incorporar no processo o craft e o sloppy. Pinta duplos e triplos de um mundo onde os pormenores e os pontos de vista esquecidos interessam novamente.


Ouvi-a numa conferência, no National Academy Museum de Nova Iorque, por ocasião da exposição “High Times, Hard Times: New York Painting, 1967-1975”, “painting in the heady days, after it was proclaimed dead” segundo a crítica Roberta Smith do New York Times. Na altura, em 2007, escrevi aqui sobre a exposição onde também duas obras de Heilmann foram expostas. Mary Heilmann disse na altura que escolheu fazer pintura por oposição ao que era nos anos 60 e 70 mais cool fazer-se em arte – desde aí seguiu sempre a pintura como desvio. Neste momento, a pintura abstracta e a experimentação foram de certa forma recuperadas e a importância de M.H. instituída – Heilmann foi capa da Artforum há alguns meses.


Uma das suas retrospectivas mais interessantes, “All Tomorrow’s Parties” teve lugar na Secession, em Viena de Áustria, em 2003. Do catálogo produzido nessa ocasião, destaco o texto introdutório escrito pela própria artista. Ele fala do importante papel dos amigos próximos (como o falecido galerista Pat Hearn) na vida artística e pessoal, e situa a produção de Heilmann num nível de sinceridade dentro desse mundo dominante e complexo, que é o mercado da arte nova-iorquino.


“Mary Heilmann: To Be Someone” mostra mais de sessenta pinturas, esculturas, cerâmicas pintadas, objectos, uma apresentação power-point de fotografias sobre si própria (“Her Life”) e cadeiras onde podemos sentar-nos a olhar as pinturas. A funcionalidade das suas cadeiras com rodas (“Clubchairs”, 2007), de onde placidamente observamos a exposição, cria os momentos mais deliciosos e transforma as pinturas em lugares. As pinturas comunicam, com uma simplicidade de ideias e uma atenção à liberdade da linguagem visual e formal, coisas concretas e emoções. M.H. cresceu em Los Angeles, Califórnia, entre a praia e os clubes beatnik, e aí nasceram as cores vibrantes e um sentido de experimentação ilimitado. As suas referências são vastas e as suas abstracções ligam vários estilos, histórias e amigos.


Cada pintura é única mas um xadrez a preto e branco (“Gordy’s Cut”, 2003), pintado com uns traços vermelhos por cima, revela a tensão que existe em todas as pinturas – distanciamento ou desdobramento do mundo que reconhecemos através de um jogo ambíguo de esconder e mostrar, parecer e ser, representar e apresentar - o jogo da imagem. A imagem abstracta fala de si própria, é de certo modo autista, mas a ela recorremos na instância última ou primeira da procura e da diferença.


Wittgenstein disse nas suas anotações sobre as cores: “A psicologia relaciona o vivido com algo físico; mas nós relacionamos o vivido com o vivido” e “Escuro e Enegrecido não são o mesmo conceito”.



Ana Cardoso