Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Penalva, Sumiko, 2009. Impressões de pigmento sobre papel Hannemüle DFA Photo Rag de 308 g montadas sobre Dibond, tinta, vidro, molduras de carvalho. 128 x 81 cm.


João Penalva, Dokumentarfilm (Doshi, 12. April 2003, 13.34 Uhr) , 2004. DVD, PAL, 4:3, cor, sem som, 8’27’’, visto num televisor. Duas cadeiras de braços. Colecção CAM – FCG.


João Penalva, A Gerência Lamenta, 2011. Impressões de pigmento, tecidos, madeira, metal sobre madeira. 260 x 340 cm. Colecção do artista.


João Penalva, Conversando com as plantas selvagens de Hiroshima, 1997. Plantas secas, tinta sobre papel, papel impresso, molduras de vidro acrílico. 220 x 420 cm. Colecção do artista.


João Penalva, Saloon S, 1992. Óleo e cera encáustica sobre tela e MDF. 46 x 36 x 5 cm. Colecção Nuno Franco.


João Penalva, As sombras escuras, de fim de tarde, do Mestre Nanyo, (2) , 2007. Impressões de pigmento sobre papel, cartão, vidro acrílico, moldura de carvalho. 121.8 x 91.8 cm.


João Penalva, Arcada, 2000.


João Penalva, Violette Avéry, 2001-2003. 3xDVD, PAL.4:3, pb, s/som, 60’40’’. Textos PT, FR, ENG. V. port. encomendada: Galeria Filomena Soares; V. francesa: Caisse des Dépots et Consignation.

Outras exposições actuais:

PEDRO TUDELA

AWDIˈTƆRJU


MAAT, Lisboa
CONSTANÇA BABO

COLECTIVA

CONSTELAÇÕES: UMA COREOGRAFIA DE GESTOS MÍNIMOS


Museu Coleção Berardo, Lisboa
JULIA FLAMINGO

PEDRO CABRAL SANTO

OMNIA


Associação 289, Faro
MIRIAN TAVARES

COLECTIVA

SILVESTRE PESTANA, CAROLINA PIMENTA / JULIÃO SARMENTO, LUÍSA SEQUEIRA, FILIPE MARQUES


Galeria Nuno Centeno, Porto
CONSTANÇA BABO

DAVID HAMMONS

TED JOANS: EXQUISITE CORPSE


Lumiar Cité - Maumaus, Lisboa
DASHA BIRUKOVA

COLECTIVA

SIGNAL - THE HISTORY OF (POST)CONCEPTUAL ART IN SLOVAKIA


Ludwig Múzeum, Budapeste
CONSTANÇA BABO

COLECTIVA

TRABALHO CAPITAL - ENSAIO SOBRE GESTOS E FRAGMENTOS


Centro de Arte Oliva, S. João da Madeira
LUÍS RIBEIRO

FRANCISCO TROPA

O PIRGO DE CHAVES


Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
JULIA FLAMINGO

CAROLINE MESQUITA

ASTRAY


Galeria Municipal do Porto, Porto
CONSTANÇA BABO

ERIKA VERZUTTI

ERIKA VERZUTTI


Centre Pompidou, Paris
MARC LENOT

ARQUIVO:


JOÃO PENALVA

Trabalhos com Texto e Imagem




CAM - CENTRO DE ARTE MODERNA
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

22 JUL - 09 OUT 2011


A simbiose entre palavra e imagem é uma das marcas autorais de João Penalva, sendo esta uma união plenamente equilibrada, uma vez que, tal como a palavra não explica ou revela a imagem, a imagem não se limita a figurar uma mera ilustração da palavra. Estamos perante um universo textual e um outro universo imagético que, como que num acordo tácito, constituem a base de criação de obras que não podemos classificar de textuais ou de imagéticas, pois que ambos os universos se unem, dando origem a um novo, sendo este mais complexo e de uma vastidão que não conhece limites impostos pelos convencionalismos que contaminam o mundo da arte.

O título da exposição de João Penalva que se encontra actualmente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian adquire, deste modo, um carácter antológico, debruçando-se sobre o trabalho que o artista tem desenvolvido nas últimas décadas, dando relevo às obras em que este concílio entre texto e imagem se apresenta de um modo mais marcante.


I. Imagem

“No princípio não era o verbo, mas as imagens, ainda sem homens.” [1]. Ao criar imagens, o ser humano cria duplos, por vezes ícones, curva-se perante eles, numa vénia à criação etérea, provavelmente o que de mais belo a Humanidade alguma vez trouxe ao mundo. A primordialidade da imagem sobre qualquer outra criação humana é um debate milenar, e a arte sempre se ergueu no seu pedestal, subindo, imagem após imagens, na aspiração ao sagrado, à eternidade que a condição humana, incansavelmente, nega. “Retiro uma infinidade de consequências da ideia de que sem as imagens somos meros joguetes de “forças” que por todo o lado irrompem, dobrando tudo à sua passagem.” [2]. O modo como nos ligamos ao mundo é mediado por imagens, pois que estas nos são vitais. A arte vai mais longe, abdicando por vezes desta ligação ao mundo, criando o inexistente, moldando mundos para onde podemos escapar de quando em vez, na ingénua mas orgulhosa “mentira” humana que Oscar Wilde tanto vangloria nos seus escritos sobre arte.


II. Palavra

Segundo a teoria da experiência desenvolvida por Martin Heidegger, o ser humano é um Dasein, isto é, um ser radicalmente aqui e agora. Vivemos uma experiência de estranheza e inautenticidade ao sermos dejectados num mundo que não nos é familiar. Assim, a primeira tarefa existencial é criar um mundo nosso, conquistando a autenticidade do eu, tarefa essa que terá de ser sempre operada através da linguagem. Com base nesta teoria, não existe fenómeno humano que não seja histórico e linguístico. A palavra é indubitavelmente intrínseca à experiência humana, constituindo um meio de expressão e criação primário, e veiculando, tal como a imagem, a aspiração à eternidade de que a Humanidade sempre padeceu. “A Biblioteca existe ab aeterno. Desta verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar.” [3].

No entanto, ao longo da História a palavra, enquanto criação artística, sempre tendeu a cingir-se à Literatura, não se associando às artes visuais, apesar das inúmeras alusões e da contaminação simbólica e mítica que as belas artes e as belas letras sempre exerceram de modo recíproco.


III. Imagens lidas, Palavras contempladas

Ao acedermos a ambas as obras, será para nós mais real a Torre de Babel que Brueghel pintou no século XVI ou o mito que a Bíblia, pela palavra, nos relata? A querela entre palavra e imagem, parece, por fim, deixar de fazer o menor sentido, pois que não escapamos à conclusão de que usamos a linguagem mental ao contemplar uma obra imagética, do mesmo modo como criamos uma sucessão de imagens ao lidar com as palavras. Elas parecem surgir como as duas faces de Juno, e por muito que as tentemos separar e diferenciar, estarão sempre inseridas num mesmo núcleo de percepção e compreensão que marca a vivência humana.

Perante a obra artística de João Penalva, esta conclusão parece ser apenas um truísmo, pois o modo como o artista estabelece uma comunicação entre palavra e imagem faz com que o espectador não as veja como duas partes separáveis mas como uma totalidade singular perante a qual iniciamos o acto de percepção e interpretação que qualquer obra de arte despoleta.

A exploração de um universo japonês de pureza e misticismo está presente numa textualidade e numa imagética que nos remetem para a simplicidade formal de um haiku. A série centrada no mestre Nanyo, desenvolvida entre 2006 e 2010, consiste em cinco imagens simples, de uma beleza pueril, acompanhadas de pequenos textos que contam histórias quotidianas e momentos de personagens, reais ou não, aludindo à imagem contemplada, acrescentando-lhe não apenas informação, mas fazendo com que nos relacionemos com ela de um modo peculiar, cunhado de familiaridade, aproximando-nos dela e do momento que ela representa. Conversando com plantas selvagens de Hiroshima (1997) evoca a territorialidade japonesa através do uso de elementos naturais, colocando o espectador perante um ervanário que mapeia o espaço, com exemplares das plantas japonesas, fotografias e repleto de anotações em japonês, bem como o nome das plantas em latim. Diz-se no Japão (1997) é outra das obras que se debruça sobre a mentalidade do povo japonês, numa série de molduras nas quais, em tom de rascunho, podemos ler algumas das crenças e provérbios que constituem o culto popular japonês, marcado pelo misticismo e pela relação harmoniosa que o ser humano procura estabelecer com a Natureza.

Quando chegava o sábado (2007) é uma obra em que a palavra domina, pois que um extenso texto inscrito na parede nos conta uma história de criança, revelando um carácter provavelmente autobiográfico por parte do artista, como se de um acesso de melancolia uma obra brotasse. No entanto, uma pequena fotografia de um miradouro está presente, a preto e branco, o que nos permite aceder ao objecto de desejo da criança, que esperava, todos os sábados, pela moeda que, por um minuto, lhe permitiria ver mais longe e mais perto. “Aprendi então como se sente um minuto sem ter de contar até sessenta, e foi coisa que ficou comigo para o resto da vida.” [4]. Um lado mundano e por vezes moralista caracteriza as obras de João Penalva, nas quais, pela palavra e pela imagem, nos são transmitidas sensações e reflexões de um cariz simples, quotidiano, mas por vezes filosófico e poético.

Camisola comida pela traça (2010) é um exemplo da focagem de João Penalva sobre objectos simples e vulgares, que, através do texto que os ilustram, parecem contar uma história, encerrando em si uma memória inanimada. João Penalva joga com uma voz literal que marca todos os elementos que constituem a obra: o que vemos na imagem é, de facto, uma simples camisola marcada por buracos de traça, acompanhada por uma descrição textual da mesma: “Camisola de homem de caxemira. Vista de frente. Cor de tabaco. Seis botões à frente. Bolso aplicado à esquerda. Comida pela traça. Prenda de aniversário. Por estrear.”

A esta simplicidade, João Penalva, opõe obras que exigem uma reflexão mais complexa e ambígua, questionando por vezes problemas sociais e culturais. A obra Encoberto (1991) é constituída por um biombo encontrado, de aspecto velho e pouco prezado, por trás do qual podemos ler, em letras de jornais e revistas recortadas e coladas em papel, o seguinte texto: “Todos os dias passo por homens e mulheres deitados na rua. Não sei se estão doentes ou a dormir ou com dores ou bêbedos ou mortos. Não sei porque não paro.” O biombo surge aqui como objecto metafórico, somos nós que o colocamos lá, tapando tudo aquilo que vemos mas fingimos não ver, numa sociedade marcada por problemas, tal como não queremos ler o texto que, na obra, o biombo esconde, pois estamos cientes da sua veracidade.

Arcada (2000) é uma obra cuja centralidade que adquire no espaço se explica não apenas pela sua dimensão, mas pelo modo como corresponde ao título e ao propósito da exposição. Num longo corredor, podemos vislumbrar duas sequências, uma à esquerda outra à direita, de fotografias emolduradas, com a respectiva descrição textual, também emoldurada mas escrita manualmente, por baixo. Uma grande diversidade de imagens pode ser vista, aparentemente sem uma ligação entre si, verificando-se, no entanto, o predomínio de imagens de relógios de rua, em mercados e outros edifícios urbanos, sob os quais se podem ser descrições simples como “Uma e nove no relógio sobre uma loja de tecidos”. Abundam ainda referências espaciais à composição da Sagração da Primavera por Stravinsky, em 1911. E, nestas, através da descrição, as imagens adquirem a marca do testemunho memorial, pois quando julgamos estar a ver a fotografia da janela de um edifício vulgar, lemos na descrição “Uma das muitas janelas do prédio onde, no último andar, Stravinsky compôs, em 1911, Sagração da Primavera”, e a nossa percepção da janela altera-se substancialmente. João Penalva parece aqui evidenciar o modo como a palavra pode alterar a imagem, de um modo muito simples e directo.

Ler e olhar são, fundamentalmente, as acções que as obras de João Penalva nos demandam, numa interpretação cuja complexidade se encontra no seu carácter misto e dúbio. Por vezes o texto contradiz a imagem, por vezes a imagem contradiz o texto, por vezes complementam-se harmoniosamente. No entanto, os dois elementos inauguram sempre um acto de diálogo entre eles, para que depois haja espaço para o espectador comunicar com a obra.



NOTAS

[1] Bragança, José Bragança de, Corpo e Imagem. Lisboa: Vega, 2008, p.8.
[2] Bragança, José Bragança de, Corpo e Imagem. Lisboa: Vega, 2008, p.23.
[3] Borges, Jorge Luis, Ficções. Lisboa: Biblioteca Visão, Colecção Novis, 2000, p. 51.
[4] Penalva, João, in Quando chegava o sábado, 2007.



Maria Beatriz Marquilhas