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EXPOSIÇÕES ATUAIS


William Eggleston, Untitled (Back of Black Car in Green Vines), 1965-74. © Eggleston Artistic Trust


Pormenor da exposição William Eggleston: Los Alamos. Fotografia: Sérgio Parreira


William Eggleston, Memphis, ca. 1965–68. © Eggleston Artistic Trust


William Eggleston, Memphis ca 1965-1968. Da série Los Alamos 1965-1974. © Eggleston Artistic Trust


William Eggleston, Memphis, 1965 © Eggleston Artistic Trust


William Eggleston, Las Vegas, ca. 1965–68 © Eggleston Artistic Trust


William Eggleston, Las Vegas, ca. 1965–68 © Eggleston Artistic Trust


Pormenor da exposição William Eggleston: Los Alamos. Fotografia: Sérgio Parreira


William Eggleston, Louisiana, ca. 1971–74. © Eggleston Artistic Trust

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ARQUIVO:


WILLIAM EGGLESTON

WILLIAM EGGLESTON: LOS ALAMOS




THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART (FIFTH AVENUE)
1000 Fifth Avenue
New York, NY 10028-0198

14 FEV - 28 MAI 2018

WILLIAM EGGLESTON | BELEZA AMERICANA

 

Não consegui evitar a associação simplesmente perfeita destas duas palavras para descrever a essência da obra de William Eggleston: Beleza Americana. Achava, no entanto, e dados os quase vinte anos que me distam da estreia do filme de Sam Mendes, American Beauty, em 1999, que a associação era simplesmente uma coincidência agradável com um inequívoco sucesso narrativo da obra deste fotógrafo; mas ao rever o filme para confirmar o acaso, este provou por fim, não ser assim tão furtuito.

William Eggleston é um fotógrafo americano que nasceu em 1939 no Memphis, Tennessee, onde reside e trabalha ainda hoje. É-lhe atribuído legitimamente o título de pioneiro da fotografia moderna a cor; Subentenda-se como objeto e/ou obra de arte. Eggleston proferiu um dia provavelmente uma das suas frases mais emblemáticas “I am at war with the obvious”; seguramente numa altura em que se apercebia que a cor poderia ser uma forma tão digna de registar imagem (luz) como tinha sido até então o preto e o branco.

 

Em 2016 tive a oportunidade de ver uma exposição individual do artista na galeria David Zwirner em Nova Iorque, intitulada “The Democratic Forest”, que finalmente o colocou na minha lista eternamente under-contruction dos génios-artistas. Apesar de já conhecer o seu trabalho, percorrer salas em que pude analisar, disfrutar, e contemplar, impressões com uma dimensão considerável de inúmeras obras suas, era a primeira vez. É curioso, simultaneamente óbvio e nada surpreendente, que as obras de arte que de fato são constituídas por uma inegável genialidade, só obtêm esse reconhecimento e entendimento de notoriedade se efetivamente as presenciarmos enquanto matéria, com dimensionalidade. Uma vez mais, esta experiência é individual, assim como o reconhecimento presencial, embora, e por razões uma vez mais pouco surpreendentes, mas eventualmente de explicação mais intrincada, são comuns a um número infindável de indivíduos que consequentemente perfazem uma opinião unânime que legitima o “génio”.

 

William Eggleston, Memphis, 1971-74 © Eggleston Artistic Trust

 

Porquê beleza americana?

Vou com alguma dificuldade tentar ser o mais neutro possível. Sim, naturalmente que existe uma beleza americana. Existe sobretudo um belo da miséria do capitalismo americano; assim como, e simultaneamente, existe o belo resultante do sucesso da plutocracia americana, ambos intercetados pela complexidade do sonho americano em processo. É indiscutível que uma garrafa de vidro de coca-cola dos anos 60 tem algo de belo, assim como as cores e o design da carcaça de um Cadillac ou um Lincoln dos anos 50 numa remota paisagem de um longínquo estado americano. Também, os residentes destes lugares distantes, que apesar de nos remeterem para a indigência, podem habitar involuntariamente o belo que aqui afamo.

A exposição que o Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque apresenta de William Eggleston traduz tudo isto que acabo de referir e sintetiza toda a maestria que o torna não só um pioneiro, mas único. Em Los Alamos podemos ver setenta e cinco impressões de negativos a cores, registadas por Eggleston entre 1965 e 1974 enquanto viajou pelos Estados Unidos na companhia do ator Dennis Hopper e do curador e crítico de arte Walter Hopps. Nesta série, que é apresentada na sua totalidade pela primeira vez em Nova Iorque, podem ver-se cenas de um quotidiano suburbano de cidades como Nova Orleães, Las Vegas e Memphis. Neste conjunto encontra-se a sua primeira fotografia a cores, um jovem ajudante de supermercado a empurrar um agregado de carrinhos de compras para o interior do estabelecimento comercial (Untitled, Memphis, 1965). Muitas destas imagens são exímios retratos de identidades e instantes situacionais de uma beleza e verdade inesperada da small-town da América. Trata-se indiscutivelmente do belo da trivialidade quotidiana, repleta de pormenores e cores, aumentados ao estado de singularidade quando delineados pela experiência visual do artista. Como o próprio Eggleston fez questão de referenciar, a lente da sua câmara tem uma forma democrática de olhar em redor, fazendo com que não haja especificamente nada, seja paisagem, objetos, individualidades, que adquiram um estatuto de relevância ou inferioridade por comparação com as demais.

Um homem no exterior de um dinner sentado a comer um cachorro quente, uma garrafa de coca-cola abandonada no capô de um Cadillac preto, uma senhora no interior de uma cafetaria a fumar um cigarro, um grande plano de um cocktail pousado numa mesa de apoio no interior de um avião, dois jogadores de slot machines, anúncios de hambúrgueres na beira de uma estrada, um cowboy ao telefone numa cabine, pequenos saleiros, pimenta, ketchup e tabasco numa mesa de café, um sinal de néon na beira de uma estrada… a cores.

Uma hiper-realidade linguística de arquiteturas decrépitas e paisagens de imaginário comumente.

Sim: Beleza Americana. Como no filme de Sam Mendes, é a honestidade da narrativa que nos deixa perplexos, em que o enredo intrincado não é mais que uma reflexão genuína de um quotidiano característico e presente de identidades; o que é idealmente belo não se traduz necessariamente em felicidade mas pode com alguma segurança proporcionar um indubitável entendimento de prazer.

Se a estética do banal de William Eggleston ainda não o colocaram enquanto espetador no grupo dos unânimes, deixo-lhe o mote de Sam Mendes em Beleza Americana: Look Closer.

 


Sérgio Parreira
Instagram: @artloverdiscourse

 

 

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Links:
www.egglestontrust.com
www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2018/william-eggleston-los-alamos
www.davidzwirner.com/artists/william-eggleston
 

 

 



SÉRGIO PARREIRA