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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição No Princípio. Fotografia: Henrique Vieira Ribeiro


Vista da exposição No Princípio. Fotografia: Henrique Vieira Ribeiro


Vista da exposição No Princípio. Fotografia: Henrique Vieira Ribeiro


Vista da exposição No Princípio. Fotografia: Henrique Vieira Ribeiro


Vista da exposição No Princípio. Fotografia: Henrique Vieira Ribeiro


Vista da exposição No Princípio. Fotografia: Henrique Vieira Ribeiro


Vista da exposição No Princípio. Fotografia: Henrique Vieira Ribeiro


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ARQUIVO:


HENRIQUE VIEIRA RIBEIRO

NO PRINCÍPIO




QUARTEL DA ARTE CONTEMPORÂNEA DE ABRANTES, COLEÇÃO FIGUEIREDO RIBEIRO
Largo de Sant’ana
2200 – 348 Abrantes

24 MAR - 23 JUN 2018


 

Esta exposição de Henrique Vieira Ribeiro, no espaço de arte quARTel em Abrantes, dedicado à colecção de Figueiredo Ribeiro (até 23 de junho), está situada sob o signo da origem, do começo: primeiros versículos do Génesis, origem do mundo, magma em fusão de onde nasce a vida, alquimia da criação. Como já havia feito três anos antes (o que me permitiu recuperar algumas notas), agora numa escala maior, com um maior número de obras, Henrique Vieira Ribeiro, apresenta grandes fotografias abstratas coloridas, fotografias de pura matéria onde o olhar se esforça para reconhecer formas discerníveis, numa secção que não sabemos apreender a escala por falta de pontos de referência. O que vemos nas fotografias? Será o céu e as nuvens num dia em que o sol brilharia? Seria uma vista aérea ou de satélite de uma paisagem do Sahel esmagada pelo sol e onde rios secos desenhariam um quadro? Poderia ser uma macro fotografia da secção de uma pintura antiga em processo de restauro onde os pigmentos antigos recusariam os seus estratos micronizados longe de qualquer representação pictórica?

Estas 34 fotografias de paisagens (O Sal da Terra) revelam ser vistas das salinas do sul de Portugal: são vestígios de sal na terra que vemos aqui, a sua pegada no solo, sobre a vegetação, na vida. Estas estranhas imagens são cuidadosamente compostas, harmoniosas no seu caos incerto. Como para as nuvens de "Equivalentes", o enquadramento aqui é livre: o que se apresenta fora da moldura, senão uma mesma proliferação anárquica, abstrata?

O sal é à vez uma fonte de vida e de morte, de sabor e destruição. Estas formas fluidas e entrecruzadas desenham um fluxo e um refluxo, uma hibridação e uma fusão, uma alquimia colorida e misteriosa, esplendores coloridos e flutuantes nos quais o olhar mergulha. Uma instalação no centro da sala (um antigo quartel de bombeiros com baias luminosas) reforça essa metáfora: em dois recipientes de aço Corten que repousam sobre bases de madeira, encontramos terra vermelha e cinzas, fertilidade e fogo, poeira e pó, vida e morte (e esta terra vermelha evoca para mim Micha Ullman, adepto da mesma materialidade).

 

 

Um terceiro tanque de aço, maior, contém água, completando assim a cosmologia de Wuxing. Mas este tanque é orgânico: por um lado, o aço corten enferruja e uma pasta avermelhada forma-se no fundo da bandeja; e, por outro lado, as ondas sonoras fazem a água vibrar e desenham formas geométricas harmoniosas. Esta tradução do som em forma evoca a série Chladni de Susan Derges, vibrações sonoras de uma substância pulverulenta sobre uma folha de papel fotográfico, como uma inscrição do audível no visível, de acordo com as teorias dos físicos Ernst Chladni e David Bohm.

Em torno desta instalação, as paredes estão decoradas com pequenas jóias escuras: são chemigramas (técnica inventada por Pierre Cordier, que cita László Moholy-Nagy: "A principal ferramenta do processo fotográfico não é a câmara, mas a emulsão fotossensível") na qual o sal e outros produtos foram espalhados no papel fotográfico exposto directamente à luz, sem uma câmara ou ampliador, causando reacções físico-químicas imprevisíveis, gerando formas orgânicas acinzentadas longe de qualquer representação do real. As pequenas chemigrams de cores extintas de Henrique Vieira Ribeiro estão mais próximas das de Fanny Béguély ou de Gundi Falk que das grandes composições coloridas de Pierre Cordier; tanto pela sua estética como pela sua natureza, contrastam com as grandes fotografias luminosas de Sal da Terra, mas ao mesmo tempo, complementam-nas. Algumas evocam para mim as imagens atómicas secretas de Harold Edgerton reveladas por James Elkins: a mesma tentativa audaciosa de ir ao cerne da matéria, ao coração da fotografia. Porque esta alquimia rebelde é também uma exploração da própria essência da fotografia.

Por fim, um vídeo "Entre o Céu e a Terra" que começa com o único elemento vivo da exposição, um pássaro sobre o mar. A imagem do oceano decompõe-se em seguida num reflexo luminoso que se multiplica, cintila e dança diante aos nossos olhos; a imagem nada mais é que uma abstração vibrante, como um ruído de fundo televisionado. O som do vento e do surf preenche o espaço. A mitologia evoca Okeanos, filho do Céu e da Terra. E, no final, o pássaro reaparece. Toda a exposição fala da origem e do fim, da criação e da magia. O seu título "... no princípio", é dizer "... no início" começa com três pequenos pontos: o que havia antes do começo?

 


Marc Lenot
É graduado pelo M.I.T. e mestre do EHESS. Vencedor do Prémio da Crítica 2014, concedido pela seção francesa da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte). É também autor do blog Lunettes Rouges sobre arte contemporânea publicado sob a égide do jornal le Monde. Divide seu tempo entre Paris e Lisboa.



MARC LENOT