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© Filipe Braga


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ARQUIVO:


HORÁCIO FRUTUOSO

CLUBE DE POESIA




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

15 FEV - 05 MAI 2019

Dear, *

 

A exposição “Clube de Poesia”, de Horácio Frutuoso, está patente no Museu de Serralves até dia 05 de Maio de 2019, na sala reservada aos Projectos Contemporâneos. É uma exposição comissariada por Ricardo Nicolau que reúne trabalhos realizados pelo artista entre 2018 e 2019.
E a partir daqui começa a questão: qual urgência?

 

O vazio que toma conta dos olhos pequenos

E os outros nunca vão descobrir,

Ler aquilo

Que o silêncio não diz *

 

 

Num simultâneo movimento de inserção e insurgência, indo ao encontro do lugar muito particular de tensão onde toda a obra de Horácio opera, “Clube de Poesia” é uma exposição de uma violência velada, suportada na e pela ironia, fruto de uma raiva orientada a um Outro, que afinal sou o Eu que diz e evoca. A urgência será a da partilha. A da partilha com o segundo Outro, o espectador, de quem se espera uma anuência muda. Porque, aqui, o espectador não pode ter outro papel: não há uma resposta possível. A não ser, porventura, uma anuência: yes, I'm also making losers happy...

A urgência, inconsequente no sentido da resposta possível do Outro, é espelho de um tempo não de egoístas mas de corações solitários que desejam que o lugar da obscenidade não seja nem o do sexo (que já não é) nem o da sentimentalidade (que ainda é).

A sentimentalidade é obscena e esta exposição fala-nos da urgência de a salvarmos.

Toda a exposição é desejo obscuro puntz puntz puntz (como se lê numa das pinturas) mesmo que ainda se sinta que entramos no espaço errado: que este é um clube de poesia onde não fomos ainda aceites. O paradoxo, ou a insatisfação quanto à urgência - que a torna urgentíssima - , é recorrente e complexifica as relações de leitura. No entanto poderemos simplificar a imagem ao dizer que o paradoxo é: EU desejo ansiosamente que olhes para mim MAS rejeito efectivamente todas as tentativas para que me olhes.

O meu corpo grita silenciosamente. As minhas palavras são garras, mas eu não tenho mãos.

Este “Clube de Poesia” surge-me como um espelho de dinâmicas; uma pequena encenação de uma actualidade voltada a um umbigo amoroso que não sabe ainda onde colocar. Parece-me que entramos num espaço de intimidade, mas que é um intimidade falsa. Ou virtual. Uma intimidade que se abre a toda a gente, é uma intimidade que se perverte contra o seu próprio sentido. É também este o caminho que faz no actual, na perspectiva de Bauman, o amor. Este sugere que a desaparição da definição romântica do amor eterno, “até que a morte nos separe”, simplifica e baixa os padrões sobre os quais uma experiência passa a ser chamada de amor: ou seja, no particular sentido de amor como experiência de acesso difícil e de proveitos e deleites únicos e irrepetíveis introduz-se um twist. Se todo o vasto conjunto de experiências que passam a ser referidas como amor, são amor de facto, o amor perverte-se contra o seu próprio sentido. Ultrapassando uma espécie de moralismo intrínseco a estas palavras, podemos continuar na mesma pergunta, alterando-lhe a direcção: qual urgência?

 

Ser o prisioneiro de mim mesmo

E o criminoso dos meus desejos.

Roubo-me de faca apontada

E corto com toda a vontade,

Tal como todos,

De querer mentir * 

 

A linha de cruzamento imagético e linguístico - onde se tornam indistinguíveis as várias facções da existência: práticas, enganosas e psicológicas - mostra-nos que o on e o off, das relações e das redes, há muito se imiscuíram um no outro. Mostra-nos também que foram, em grande parte, eles que nos incutiram esta ansiedade e descontrolo emocional. O que para mim culmina neste título: “Lavar as t-shirts às riscas / Pretas e brancas / É com roupa escura ou clara?”. Leia-se nele a dificuldade generalizada na geração Y de lidar com as questões práticas irrespondíveis para as quais não há manual e não há direcções. Haverá emprego? Haverá família? Haverá futuro? Com ou sem futuro, Horácio sempre foi Frutuoso, um jogo de linguagem e de referências que evoca Almada Negreiros e o seu próprio apelido. “Até Hoje fui sempre Frutuoso” é o título do seu livro de artista de 2018, como podemos ler na folha de sala da exposição.

 

Erguer

Robustos muros

Para crescerem

Flores selvagens *

 

As frases-pensamento ecoam e voltam.

Encontram eco na própria existência, acontecimentos e movimentos - diários ou não. A meu ver é assim que o movimento das frases-apontamento de Horácio aparece; elas não são apenas para ser lidas, são para serem compreendidas no seu movimento. Erótica, problemática e tensa é toda a imagem-linguagem usada. Porque as cartas de amor ainda existem, e as mãos também. E quando as cartas de amor estavam inevitavelmente ligadas às mãos, percebia-se na caligrafia que as cartas tinham amor, quando eram cartas de amor. Agora as cartas, e as de amor também, já não estão inevitavelmente ligadas às mãos, mas o tremor às vezes ainda se sente na ortografia. No trabalho do Horácio não só o trabalho está ligado às mãos, como o amor se sente na caligrafia e na ortografia.

 

Escrevo-me

Com erros *

 

E tudo tremelica. “Are you a risk or an investment?”, one may ask. Mas que amor é este? Este amor é presente, existe neste aqui global onde estamos e de onde podemos ver o mundo: as várias tabs abertas no meu quarto. O amor, não distinguível da prática artística, em Horácio, parece-me ser este: o que existe na intersecção entre o virtual e o virtual (não é um erro de separação, são virtuais de diferentes natureza); o que vê a diferença entre a ansiedade e a produtividade, tudo fruto de uma capitalização também afectiva que nos rodeia, que entra em nós, e que inevitavelmente somos.

Confundir toda a ordem / E não me lembrar do primeiro / Por ainda estar no último é o título de uma pequena tela, pintada a óleo, onde se pode ler “first kiss”, no canto inferior direito, como se a ordem - tal como o título nos faz pensar - estivesse errada, e devêssemos efectivamente ser activos perante tal acontecimento e ganhar a coragem de intervir. E por fim, virar a tela ao contrário, estabelecer a ordem, provocar a paz. E sair. (Mas ninguém aceita ser a figura da concórdia). Porque, de facto, “por que razão durar é melhor do que arder?” (pergunta Barthes). E toda a exposição parece responder, irritada, porque é que não se pode arder para sempre? E é essa a urgência. 

* Os poemas transcritos são títulos de diferentes peças da exposição “Clube de Poesia”



CATARINA REAL