Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição O Pirgo de Chaves, de Francisco Tropa. Fotografia: Bruno Barata | @nuvemlifestyle


Vista da exposição O Pirgo de Chaves, de Francisco Tropa. Fotografia: Bruno Barata | @nuvemlifestyle


Vista da exposição O Pirgo de Chaves, de Francisco Tropa. Fotografia: Bruno Barata | @nuvemlifestyle


Vista da exposição O Pirgo de Chaves, de Francisco Tropa. Fotografia: Bruno Barata | @nuvemlifestyle


Vista da exposição O Pirgo de Chaves, de Francisco Tropa. Fotografia: Bruno Barata | @nuvemlifestyle


Vista da exposição O Pirgo de Chaves, de Francisco Tropa. Fotografia: Bruno Barata | @nuvemlifestyle


Vista da exposição O Pirgo de Chaves, de Francisco Tropa. Fotografia: Bruno Barata | @nuvemlifestyle

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

SIGNAL - THE HISTORY OF (POST)CONCEPTUAL ART IN SLOVAKIA


Ludwig Múzeum, Budapeste
CONSTANÇA BABO

COLECTIVA

TRABALHO CAPITAL - ENSAIO SOBRE GESTOS E FRAGMENTOS


Centro de Arte Oliva, S. João da Madeira
LUÍS RIBEIRO

CAROLINE MESQUITA

ASTRAY


Galeria Municipal do Porto, Porto
CONSTANÇA BABO

ERIKA VERZUTTI

ERIKA VERZUTTI


Centre Pompidou, Paris
MARC LENOT

HORÁCIO FRUTUOSO

CLUBE DE POESIA


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CATARINA REAL

CARLOS BUNGA

THE ARCHITECTURE OF LIFE. ENVIRONMENTS, SCULPTURES, PAINTINGS AND FILMS


MAAT, Lisboa
MIGUEL PINTO

JORGE MOLDER

JEU DE 54 CARTES


Carpintaria de São Lázaro, Lisboa
MARC LENOT

COLECTIVA

WAIT


Museu Coleção Berardo, Lisboa
MIRIAN TAVARES

TACITA DEAN

TACITA DEAN


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CONSTANÇA BABO

MANUEL CASIMIRO

MANUEL CASIMIRO - DA HISTÓRIA DAS IMAGENS


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
MARC LENOT

ARQUIVO:


FRANCISCO TROPA

O PIRGO DE CHAVES




FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
Av. de Berna, 45 A
1067-001 Lisboa

22 FEV - 03 JUN 2019


 

Na sala escura no térreo da Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição “O Pirgo de Chaves” está iluminada apenas por pontos de luz que chamam a atenção para os tablados de madeira espalhados pelo espaço. Uma breve vista de olhos pelo conjunto de objetos dispostos em cima da cada mesa logo leva a perceber que as garrafas, conchas, frutas e ossos fazem às vezes de peças de jogos. Elas estão dispostas ao lado de trabalhos que poderiam ser tabuleiros e caixas onde o conjunto é supostamente guardado. Diferentemente, porém, das brincadeiras em dupla ou grupo, os jogos de Francisco Tropa não são um convite para uma competição. Ali, a única pessoa que sabe as regras é o artista: ao público só lhe cabe apreciar.

Uma vitrine guarda a peça que deu o pontapé inicial para a individual: uma pequena torre de bronze, usada pelos antigos romanos para lançar dados. Com uma estrutura interna feita com escadinhas, o pirgo servia para que os jogadores colocassem os dados no seu topo e, depois de rolarem as escadas, revelariam o resultado, impedindo qualquer trapaça. O artefacto foi encontrado nas escavações das termas romanas de Chaves, no norte de Portugal, que vem sendo explorado desde 2008, após o monumento ter sido acidentalmente descoberto durante a construção de um parque de estacionamento. Datada do século I d.C., as termas ruíram no século IV d.C., quando um forte terramoto destruiu a sua abóboda, que caiu sobre as águas das piscinas. A lama que se criou tornou possível a excelente conservação do tal do pirgo, além das peças de jogos e esqueletos de quatro pessoas (dois homens, uma mulher e um jovem), que estavam no local no momento do desastre. Foi um episódio semelhante à erupção do Vesúvio de Pompeia: uma catástrofe natural destruiu a vida, mas possibilitou a preservação dos vestígios durante os próximos séculos.

A escavação liderada pelo arqueólogo Sérgio Carneiro, que também assina a curadoria da exposição, foi acompanhada de perto por Francisco Tropa que, por sua vez, não deixou de prestar atenção nas deliciosas histórias elaboradas a partir dos vestígios encontrados (como a de que os dois homens estavam mesmo a jogar quando foram soterrados). As termas tinham uma função terapêutica, para onde os romanos se deslocavam a fim de se tratar e era, também, destino de lazer da elite ociosa, que via o jogo como seu melhor passatempo. Tropa se apropriou de tais histórias para aproximar a arqueologia da arte contemporânea e do jogo: para o artista lisboeta se, na arqueologia, as camadas (de solo) são eliminadas para que se chegue ao objeto escondido, na arte o processo é inverso. O artista constrói camadas (de narrativas) para dar sentido à peça. É nesse sentido que a arte é uma espécie de jogo, já que cria significados.

Por outro lado, ao aproximar um achado arqueológico de um trabalho artístico, Tropa está considerando o potencial histórico dos produtos criados pelo homem. O Pirgo de Chaves sobreviveu a séculos – quais peças produzidas atualmente irão ficar para a posteridade? Ao criar algumas esculturas em bronze, como um esqueleto que ganha novas combinações a cada vez que é exposto, Tropa indica o facto de que o trabalho tem maior longevidade do que a sua própria existência. Por outro lado, ele também brinca com a ideia da durabilidade ao criar tabuleiros feitos de tecido, que remetem à portabilidade e precariedade. Se os monumentos construídos pelos Antigos Romanos eram feitos para perdurar, atualmente tudo é efémero e passageiro. Ao considerarmos as Fake News como uma espécie de documento contemporâneo, será muito difícil, no futuro, basear-se nelas para conceber histórias sobre o século XXI.

Esta não é a primeira vez que o lisboeta recorre à arqueologia. Em 2008, no Espaço Chiado 8, apresentou a exposição “Tesouros submersos do Antigo Egipto”, cujo título mimetizava uma mostra blockbuster que itinerava pela Europa na altura. Os falsos tesouros eram os seus trabalhos de arte contemporânea. O questionamento do que é real e cópia, o que é objeto ou sua representação, são características marcantes de toda a sua obra. Em “O Pirgo de Chaves”, elementos como frutas, nozes e conchas foram, por vezes, recolhidos por ele e, em outros casos, criados a partir de esculturas realistas.

A densa exposição está ainda sustentada nas referências da tradição escultórica e da história da arte. Nome incontornável da escultura como Giacometti, por exemplo, via o acaso como elemento crucial dos seus trabalhos e Mallarmé, autor do poema “Um lance de dados”, de 1897, influenciou diversos artistas a discorrerem sobre o jogo e o acaso. Tropa também faz clara referência aos “Bichos” de Lygia Clark, que foram criados pela artista brasileira para serem manipulados pelo público, e a Morandi que dedicou a sua vida à pintura de garrafas; elas aparecem no vídeo e nas esculturas de Tropa em diversas combinações. As noções de passa(gem do)tempo, durabilidade, história e memória vão sendo aprofundadas na exposição como as camadas escavadas da arqueologia. No fundo do poço está o questionamento sobre a responsabilidade dos vestígios que sobreviverão até o futuro longínquo.



JULIA FLAMINGO