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EXPOSIÇÕES ATUAIS


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité


David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité

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ARQUIVO:


DAVID HAMMONS

TED JOANS: EXQUISITE CORPSE




LUMIAR CITÉ - MAUMAUS
Rua Tomás del Negro, 8A
1750-105 Lisboa

16 MAR - 26 MAI 2019


 


Marcel Duchamp cunhou o termo ready-made em 1915 para descrever um objecto comum que havia sido selecionado e não materialmente alterado de alguma forma. A mera designação e realocação de qualquer objecto, ready-mades incluídos, constitui uma modificação do objeto porque altera a nossa percepção da sua utilidade, da sua duração ou do seu status.

Sendo um aficionado da obra de Marcel Duchamp, David Hammons costuma usar a estratégia do “ready-made”, mas na sua primeira exposição individual em Portugal “Ted Joans, Long Distance Exquisite Corpse” vai mais longe e toma como um “objeto encontrado” um universo inabarcável do poeta, pintor e músico de jazz Ted Joans, cuja práctica está profundamente enraizada no surrealismo.

André Breton, que Ted Joans conheceu em Paris, reconheceu-o como o primeiro Surrealista Afro-Americano. Para Joans, o surrealismo não era apenas uma maneira de pintar, mas uma maneira gasta de ver as coisas. E é por isso que se apropriou de uma técnica chamada "cadavre exquis" inventada por surrealistas em que os jogadores escrevem ou desenham à vez numa folha de papel e dobram-na para esconder parte da escrita/desenhos. Breton escreveu que o jogo surgiu na residência de amigos numa antiga casa de Montparnasse, na Rue du Château 54, e começou como divertimento, mas tornou-se lúdico e consequentemente enriquecedor.

Ted Joans iniciou o seu projecto colectivo Long Distance Exquisite Corpse em 1976 como uma ideia contínua de uma autoria colectiva ou colaborativa, na qual uma imagem composta em processo produz o seu próprio significado, indeterminado por qualquer participante individual. Alguns de seus colaboradores foram os seus amigos da Beat Generation, Kerouac, Ginsberg, Peter Orlovsky, Leroi Jones, assim como Burroughs. Joans disse na entrevista a John Barbato que uma vez foi ao quarto de Burroughs em Boulder e disse: “Bill, eu quero que contribuas para isto.” Ele disse: “Sim, já ouvi. Tens a tua coisa surreal. Sabes que eu não desenho, eu escrevo.” Eu disse, “Eu não quero que escrevas, segue apenas as linhas.” “Siga que linhas, Ted?” Então eu disse: “Bem, alguém deixou as linhas, pegas nas linhas e fazes o que quiseres.” Ele disse: “Eu não desenho Ted.” “Nunca rabiscas?” “Às vezes, sentado ou quando o telefone toca.” Eu disse, “Bem, espera até o telefone tocar.” O telefone de facto tocou enquanto eu estava lá e ele disse a quem quer que fosse que eu estava ali com essas minhas ideias surreais. Finalmente tive que pará-lo porque ele estava a ir para as próximas linhas e foi isso.”

O interessante é que passado um ano William Berroughs se tornou pintor e escreveu ao compositor americano Paul Bowles, que também era amigo de Joans, que ele ganhava mais dinheiro com essas pinturas “malditas” do que com a escrita e talvez nunca viesse a escrever outro livro.

Em 2001, David Hammons filmou Ted Joans abrindo a longa obra de arte que estava coberta por muitos envelopes/“peles”, este sacro processo ostensivamente lembra os populares vídeos de “desembrulhar” do Youtube feitos por algum motivo práctico seguro, mas transformado em género meditativo amador. Como Joans viajou muito por diferentes continentes onde estavam os seus colaboradores do seu “Long Distance Exquisite Corpse”, levou o seu longo trabalho com ele quase todo o tempo, este nunca foi enviado pelo correio, o que traz algum valor místico aos desenhos e “peles”. Podemos ver essas capas à entrada da exposição de Hammons, que forma uma espécie de “escultura”.

O vídeo continua com o desdobrar da obra de arte de Joans e da sua amiga artista de longa data Laura Corsiglia discutindo cada desenho e todas as memórias que eles incluem. No final, David Hammonds contribuiu com a sua parte para o "Long Distance Exquisite Corpse", colocando-se em tempo real nesta história de 25 anos.

O vídeo instalado na construção de madeira não convencional ao nível da varanda da galeria Lumiar Cité, faz com que os visitantes tenham de vê-lo de baixo para cima, criando uma artificial pose de oração. Mas quando subimos para a varanda, percebemos que a tela existe na mesma dimensão que a longa obra de arte apresentada na totalidade na vitrine de madeira pintada, bem como a construção do vídeo no azul ultramarino. Lembrando que a questão de uma atmosfera poder ter uma cor surge com a obra de Hammons, é possível supor que esta é a cor da sua atmosfera e provavelmente poderíamos até ver o fantasma de Yves Klein na galeria.

 

David Hammons, Lumiar Cité, 2019. © DMF Fotografia. Cortesia do artista e de Maumaus / Lumiar Cité

 

Long Distance Exquisite Corpse (1976-2005) é uma colaboração de 132 autores, incluindo Paul Bowles, Breyten Breytenbach, William S. Burroughs, Mário Cesariny, Barbara Chase-Riboud, Bruce Conner, Laura Corsiglia, Bill Dixon, Allen Ginsberg, David Hammons, Stanley William Hayter, Dick Higgins, Konrad Klapheck , Alison Knowles, Michel Leiris, Malangatana, Roberto Matta, Octavio Paz, Larry Rivers, James Rosenquist, Wole Soyinka, Dorothea Tanning e Cecil Taylor e, como Laura Corsiglia observou uma vez, é “um mapa do tesouro da amizade expandindo através do tempo, espaço e disciplinas”. Todos os desenhos parecem rabiscos infantis ou esboços de pesadelos, e é uma bela ironia vê-los debaixo de um vidro como uma obra-prima criada pelo “Ministro do Estilo”, Ted Joans e David Hammons, que “gostam de gozar com a arte”. Esta arte abrange não apenas 132 artistas presentes na obra de arte, mas baseia-se na imensa filosofia de Ted Joans, com as suas ideias de "viver uma vida poética" (“live a poem-life”); ou “Rent-A Beatnik” (onde ele e seus amigos exportaram a sua atitude de “cool & hip” para a rígida afluente classe branca); ou "mostrando os exemplos de espírito afirmativo da vida através do amor partilhado de uma vida poética". Assim como a priori, refira-se à abordagem de Hammons de criar eventos efémeros, por exemplo, vender bolas de neve como uma paródia a uma entidade do desporto na cultura americana; ou organizar um “Sorteio de Ovelhas” com o apoio da companhia internacional de caldos Maggi em Dakar, para polemizar sobre se uma bienal de arte contemporânea no Senegal não seria para os brancos.

Examinando a prática da arte contemporânea em geral, provavelmente as “regras” são o principal material para os artistas trabalharem, para repensar, reorganizar, desconstruir, especular e Hammons/Joans são mestres nisso.

De acordo com a Wikipedia, "cadavre exquis" é um jogo recomendado para um "dia chuvoso" e David Hammons ludicamente nos mostra isso como parte do universo de Ted Joans.

 



DASHA BIRUKOVA