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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição, cortesia Fondation Cartier Pour L'Art Contemporain. Fotografia: Thibaut Voisin.


Vista da exposição, cortesia Fondation Cartier Pour L'Art Contemporain. Fotografia: Thibaut Voisin.


Vista da exposição, cortesia Fondation Cartier Pour L'Art Contemporain. Fotografia: Luc Boegly.


Claudia Andujar, Pista de aterragem militar na região de Surucurus, 1983.


Claudia Andujar, diapositivo de Genocidio do Yanomami: morto do Brasil, 1989.


Claudia Andujar, Candinha e Mariazinha Korihana thëri limpam um Mutum-do-sudeste, cuja plumagem é usada para flechas, Catrimani, Roraima, 1974.


Claudia Andujar, Interior de uma casa colectiva, Catrimani, 1974.


Claudia Andujar, Casa colectiva próxima da Missão Católica no Rio Catrimani, Roraima, 1976


Vista da exposição, cortesia Fondation Cartier Pour L'Art Contemporain. Fotografia: Luc Boegly.


Vista da exposição, cortesia Fondation Cartier Pour L'Art Contemporain. Fotografia: Luc Boegly.


Vista da exposição, cortesia Fondation Cartier Pour L'Art Contemporain. Fotografia: Luc Boegly.

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ARQUIVO:


CLAUDIA ANDUJAR

LA LUTTE YANOMAMI




FONDATION CARTIER POUR L’ART CONTEMPORAIN
261, Boulevard Raspail
75014 Paris

30 JAN - 10 MAI 2020


 

 

 

Claudia Andujar é uma mulher notável que dedicou 50 anos da sua vida (tem 89 anos) aos Yanomami. O leitor poderá encontrar toda a informação necessária sobre os índios Yanomami em todo o lado, principalmente tudo o que ameaça a sua cultura e a sua sobrevivência, e sobre o combate para os proteger, agora mais necessário no Brasil de Bolsonaro. Em vez de repetir aqui essas informações facilmente disponíveis (e que pode, se necessário, aprofundar com outros antropólogos com visões menos idílicas, como Chagnon sobre a violência ou Lizot sobre a sexualidade), prefiro, a propósito da sua bela exposição na Fundação Cartier (até 10 de maio), falar-vos de fotografia. Uma palavra primeiramente sobre a posição de Claudia Andujar em relação aos índios, com quem ela passou meses e meses e cuja língua ela aprendeu, retomando o que escrevi há dois anos por ocasião de uma exposição semelhante: “Ela desenvolveu uma grande proximidade com eles, e isso pode ser visto em muitas das suas fotografias: de certa forma anti-Salgado... nada a ver com o paternalismo colonial da maioria dos retratos de nativos (como os índios de Edward Curtis, ou os Nubas de Leni Riefenstahl), nem com a hostilidade surda e orgulhosa das mulheres argelinas de Marc Garanger, antes como os Beduínos de Miki Kratsman, outros párias rejeitados pela étnia dominante”. Como contraponto a Andujar (ainda pior que Riefenstahl), eu poderia ter acrescentado o trabalho de Gertrude Käsebier, ícone feminista para alguns, mas uma fotógrafa racista e colonial.

Dito isto, então, falemos de fotografia. Nenhuma dúvida que, no calor húmido da Amazónia, é difícil de fotografar (como vimos recentemente com Guido Baselgia). Além disso, a luz sob as copas das árvores é fraca, e ainda mais sombria nas casas comunitárias onde alguns raios se filtram através dos interstícios da construção. E portanto Andujar teve que encontrar artifícios: treinou-se a fotografar na obscuridade do seu apartamento de São Paulo com as persianas fechadas, usou película de alta sensibilidade, película infravermelha, filtros de cor, revestiu a sua objectiva de vaselina, brincou com as lamparinas de óleo, por vezes fez sobreposições, exposições duplas.

 

Claudia Andujar, Invólucro funerário na floresta, Catrimani, 1976, película infravermelha.

 

 

E o resultado é por vezes bastante insólito: excesso de efeitos, excesso de mise en scène visual. As imagens infravermelhas, incandescentes, dão uma dimensão dramática, irreal, artificial à cena fotografada. O abuso de desfocado, para dar uma impressão de movimento, certamente de êxtase alucinado, não permite capturar a cena fotografada e releva muitas vezes o processo.

A cintilação da luz no interior das habitações dá uma dimensão fantasmagórica aos seres: esse pobre garoto iluminado assemelha-se mais a um irradiado ou a um extraterrestre que outra coisa. Às vezes embrenhado de neo-pictorialismo, com essa produção de imagens icónicas, muito preparadas. Isso é particularmente verdadeiro na sua série sobre o "réahu", festa de canções, de dança, de alucinógenos, de sexo e de ingestão das cinzas dos antigos, em que ela tenta devolver-nos o barulho e o furor pelos seus processos de fotógrafa de festas rave (enquanto vemos na exposição um filme mais sóbrio e mais distante, do cineasta Yanomami, Morzaniel Iramari, sobre o mesmo assunto).

 

Claudia Andujar, série Marcados, 1983.

 

 

Se não apreciarmos esses artifícios, podemos então preferir os seus retratos diretos, frontais, como os da série "Marcados": retratos de busto, cada um portador de uma etiqueta com um número, um trabalho documental para uma expedição médica de vacinação, mas que evoca a identificação judicial, e especialmente o seu pai, Siegfried Hass, vítima do extermínio dos judeus da Europa. É, na sua origem, um trabalho puramente documental, que Andujar decidiu 25 anos depois editar e apresentar como uma obra de arte, mas é, aos meus olhos, o trabalho mais puro, o mais cru e o melhor da exposição.

Outros retratos, menos antropométricos, são igualmente edificantes: Andujar dedicou um filme inteiro a cada pessoa como forma de realizar o seu retrato, de maneira amigável, aberta, descontraída. Mas a cultura Yanomami exige que, com a morte de uma pessoa, todas as suas posses, e, portanto, também todas as suas imagens, sejam destruídas pelo fogo (incluindo o seu cadáver) para que não deixe vestígios e que possamos fazer o seu lamento. Obviamente, isso não se aplica às fotografias de Claudia Andujar.



MARC LENOT