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O ESTADO DA ARTE


A TUMULTUOSA FERTILIDADE DO HORIZONTE, José Barrias, in Revista A Phala, Nº 64, Abril 1998


A TUMULTUOSA FERTILIDADE DO HORIZONTE, José Barrias, in Revista A Phala, Nº 64, Abril 1998





A TUMULTUOSA FERTILIDADE DO HORIZONTE, José Barrias, in Revista A Phala, Nº 64, Abril 1998


A TUMULTUOSA FERTILIDADE DO HORIZONTE, José Barrias, in Revista A Phala, Nº 64, Abril 1998





A TUMULTUOSA FERTILIDADE DO HORIZONTE, José Barrias, in Revista A Phala, Nº 64, Abril 1998


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A TUMULTUOSA FERTILIDADE DO HORIZONTE

JOSÉ BARRIAS

2015-04-08




1.0- Cada escrito é um diário de bordo.


1.1- «Estava a cinquenta mil anos-luz de distância de casa, completamente encharcado e coberto de lama e tinha fome e frio.
Uma luz azul e gélida provinha de um sol estrangeiro e a gravidade, duas vezes superior àquela a que estava habituado, constrangia cada movimento ao peso de um esforço devastador.

«Mas volvidos milhares de anos este posto de guerra não tinha mudado.

«Para aqueles da aviação, com as suas astronaves cintilantes, era cómodo ultrapassar-me; mas quando chegava o momento crucial, tocava mais uma vez ao soldado em terra, à infantaria, conquistar a posição e defendê-la palmo a palmo, com o sangue. Como este fodido planeta duma estrela da qual nunca tinha ouvido o nome até à altura em que nele nos desembarcaram. E que agora era chão sagrado porque o inimigo também lá tinha chegado. O inimigo, a única outra raça inteligente da galáxia... cruéis, nojentos, monstros repelentes.

«O primeiro contacto dera-se perto do centro da galáxia, depois de uma lenta e difícil colonização de alguns milhares de planetas; e subitamente fora guerra. Tinham começado a disparar sem sequer terem tentado a possibilidade de um acordo, de uma solução pacífica.

«E agora, de planeta em planeta, era necessário combater, com unhas e dentes.

Estava completamente encharcado e coberto de lama e tinha fome e frio, e o dia era sombrio e varrido por um vento violento que lhe molestava os olhos. Mas os inimigos tentavam infiltrar-se e cada posição de vanguarda era vital. Estava alerta, com a espingarda pronta. Distante cinquenta mil anos-luz da sua pátria, combatendo num mundo estrangeiro e perguntando-se se conseguiria voltar um dia a casa com a pele ilesa.

«E foi então que viu um deles arrastar-se na sua direcção. Mirou e disparou. O inimigo emitiu um som estranho, paralisante, que todos eles emitiam, e quedou-se imóvel.

«O som e a visão do cadáver fizeram-no estremecer. Muitos, com o passar do tempo, tinham-se habituado e já não ligavam, mas ele não. Eram criaturas demasiado nojentas, só com dois braços e duas pernas, a pele de um branco repugnante, e sem escamas. »- Frederic Brown, Sentinela, 1954.


1.2- As histórias são um engodo e os significantes repetem um passado que de certo modo é já futuro. Eu julgo que o Ernesto de Sousa teria gostado desta história, tendo sido como foi um cultor da subversão dos sentidos e um defensor da tradição como aventura. A sua vida foi sempre a afirmação tumultuosa da fertilidade do horizonte, isso mas por mesmo constantemente grávida de alarmes, de esperas e de reconhecimentos. Uma compreensão do horizonte da história das histórias em relação ao qual a arte se movimentava, configurando-se como uma exaltante forma de vida e esta como uma heterogénea forma de arte...Entendimentos memoráveis, ambos, e por isso duradouros.


1.3- Nos últimos tempos andava interessadíssimo pela realidade virtual...Era uma luta sem trégua contra a sua realidade real. Quando morreu, a 6 de Outubro de 1988, os artistas ficaram todos mais pobres.


1.4- «E depois? Que acontece depois?»


1.5- O Ernesto tinha indiscutivelmente uma relação dialéctica com o Tempo: tempestiva e memorial, insubordinada e sábia...oscilava entre a aurora e o requiem...


1.6.- Por isto ouso supor que a sua relação com a chamada «arte conceptual» dos anos 70 se assemelha às relações que nas décadas precedentes ele teve com outras tendências, neo-realismo incluído. E o mesmo vale para o sucessivo «regresso à pintura e retorno da figuração». O Ernesto não recusava, participava. Com entusiasmo devorador. Nunca foi devorado...Porque, como ele próprio escreveu, «em arte até o dissídio é alheio à criatividade». E ele adorava os projectos e queria estar sempre na senda do vento. E soprava. E ofendia-se se alguém lhe chamava «pai», e ofendia-se também se não se lhe reconhecia a «paternidade». Gostava dos novos e aproximava-se do «novo». Não renegava porém o passado, pois a tradição era para ele uma aventura e a aventura, evidentemente, uma tradição. Era receptivo a tudo: ao presente, ao passado e ao futuro. Era um militante da vida e, como ele próprio se auto-definiu «um especialista de ideias gerais». Não era perfeito porque ninguém o é. Tinha os seus ódios e os seus amores, dado que gostava de mitos e mitizava...Gostava de mitos e desmitizava.


1.7- Eu diria que aquilo que me parece decididamente caracterizar a sua acção cultural é a ligação de permanente fidelidade com a ideia de crisis que atravessa este século, o qual- citando as palavras de Luciano Anceschi que retoma uma intuição de Eugénio d’Ors- «é um século em que as ideias da forma surgem frequentemente a um nível mais estimulante e activo do que a forma das ideias ou seja, em que os resultados da poética parecem, por qualidade e força, superiores ao resultado da arte». Mas sobre isto, diria o Ernesto, «temos de conversar»...


1.8- «Há algo que não quadra, aqui»...


1.9- «Monsieur, eu divido os homens em duas categorias: os homens-telescópio e os homens-microscópio. No que me diz respeito, aponto a fazer parte da segunda categoria. Os homem-telescópio embater-se-ão sempre em desaventuras. E começa a contar-me de uma vez em que, avistando uma rapariga da janela do seu quarto, lhe gritara: “Amo-a!”

«De repente a rapariga parou. Julguei perceber que me estivesse mandando o mais inocente dos beijos. Peguei então num binóculo que é um telescópio de pequeno formato, para a poder observar mais de perto. Pois bem, a rapariga estava metendo o dedo no nariz!»- Edgardo Franzosini, Acima do tornozelo de Jules Verne, 1992.


1.10- Creio que o Ernesto fizesse parte da primeira categoria… Homem-telescópio, «especialista de ideias gerais». Mas creio também que não desdenhasse meter o dedo no nariz alheio… Gesto microscópico, de um especialista de ideias peculiares.


1.11- «I’ll let down my trousers and shit stories on them, stories.» Samuel Beckett, The Unnamable, 1965.


1.12- Em 1978 escrevi um texto (funambulesco, académico às avessas, afinal) para a sua exposição A tradição como aventura de Novembro na Galeria Quadrum. Em 1979/80 vivi em Lisboa e as nossas relações estreitaram-se. Fui portanto várias vezes à Travessa do Fala-Só onde ele e a Isabel então moravam. Espero que um dia alguém fale-só desse sítio que era um covil que era um mundo que era do Ernesto com a Isabel e que, no conjunto, era uma obra dificílima de descrever… Para quem nunca lá esteve é improvável poder imaginar… Dificílimo também, de entender, para quem por lá passou… Tudo muito interessante para os adeptos da imaginação do real entendido como confusão científica! Existem decerto fotografias dessa obra…

Fiz-me sócio da Diferença (ex-Grafil) e aí realizei, em Janeiro de 1980, a minha primeira exposição individual em Portugal, seguida imediatamente de outra na galeria Quadrum. O Ernesto apoiava tudo com entusiasmo e generosidade, ajudando imenso à escuta daquilo que eu mostrava ou dizia. Nos finais de 1979 fomos a Vilarinho das Furnas, aproveitando o esvaziamento da albufeira devido a uma avaria da barragem. Ele foi antes, eu fui depois. Ele fez uma obra «vídeo-escultura-performance», A Terra Prometida- Requiem por Vilarinho das Furnas; eu fiz uma obra «vídeo-escultura fotográfica», Barragem. E em 1984 comissariou a minha participação na Bienal de Veneza.


1.13- Foi em 1978 que eu encontrei de facto o Ernesto de Sousa em corpo inteiro. Deve ter sido durante o verão, em Lisboa. Desde 1975 eu transcorria regularmente as minhas férias em Peniche, onde arranjara um buraco para refrescar a memória da infância veraneante naquelas paragens. E foi a Peniche que um dia do verão de 1978 o Ernesto e a Isabel (é difícil falar de um sem o outro) me vieram visitar. O que me tocou de imediato nessa visita foi a curiosidade e disponibilidade deles a uma relação sem cisões entre o trabalho da arte e o fazer-se da vida. Ofereci-lhes nessa ocasião um exemplar d’O Banquete platónico autografado pelo meu pai.

O Ernesto relatou o episódio num pequeno texto, daqueles que ele escrevia nesse tempo para a revista Opção. E eu fiquei surpreendido que um gesto como o meu, uma prenda afinal, pudesse ter ressonância, mesmo se pequena, nas colunas da imprensa… Porque até aí o meu nome só tinha aparecido nos jornais por razões rigorosamente profissionais. Este episódio constituiu de certa forma o princípio do conhecimento dos modos de fazer, de estar e de ser que eram peculiares do Ernesto de Sousa. Posso portanto dizer que aquilo que mais me sensibilizou nessa aproximação do Ernesto foi precisamente a sua heterogénea aproximação do mundo e, neste caso, de mim, do meu trabalho e da minha vida, indistintamente.


1.14- E foi assim que, sucessivamente, ele me convidou para dar uma «lição» em seu lugar na galeria Quadrum. Convidou-me para falar sobre os meus Embaixadores e, fazendo-o, eu passei a ser uma extensão didáctica do mundo poético do José Ernesto de Sousa… Porque este era o seu modo «natural» de ser artista e tudo. Um modo essencialmente fusional, em que os corpos se misturavam segundo o princípio que o corpo de cada um é também o corpo do outro. Ora nesta ideia confusional marcada pela omnivoracidade havia algo que denotava uma vontade e um desejo canibal e sagrado, que recordava o ritual da comunhão como acto de devoração simbólica do corpo de Cristo… O José Ernesto de Sousa era assim, simultaneamente sagrado e profano, buñuelescamente harmonioso.


1.15- A primeira vez que o encontrei não o vi. Foi-me falado em Milão pelo Pedro de Andrade, recém-chegado de Lisboa. O qual me anunciou a invenção da Alternativa Zero - apresentada como uma espécie de «re-invenção do dia claro»- da autoria de um certo Ernesto de Sousa, «um tipo aberto e singular», segundo o Pedro. Foi em 1976 e, contrariamente à sugestão do Pedro, decidi não assinalar o meu trabalho ao Ernesto. E posso tranquilamente desvendar os motivos dessa decisão...Nesse tempo eu não me sentia ainda pronto para enfrentar convictamente nenhuma exposição maior do que aquelas que eu montava no reduzido espaço da minha casa-estúdio. Coisa que não deve ser de forma alguma confundida com uma hesitação experimental, porque já nessa altura a arte ocupava para mim o espaço de uma meditação afirmativa onde o tempo circula como herança e a hesitação como poética. A conjunção de uma «alternativa» com um «zero» não me parecia portanto especialmente conexa com a minha «viagem»… Mas se é verdade que o início vem sempre depois, não ter participado na Alternativa Zero revela efectivamente uma minha lacuna na compreensão da ordem ou da desordem dos tempos… Uma interpretação pela rama da história das tentações que o Ernesto encarnava e sempre defendeu com a consciência da necessária quanto inútil complexidade… Da alternativa zero, afinal.


1.16- A primeira vez que vi o Ernesto de Sousa não o encontrei. Vi-o, mas de certo não fui visto. Foi no princípio dos anos 60, no Porto, onde eu então vivia e frequentava o curso de pintura da ESBAP. Ele estava de passagem pela cidade e parava no café S. Lázaro onde também muitos de nós, alunos e professores da Escola, passávamos e parávamos bem-vindos. De resto, várias «etnias» paravam e passavam pelo café S. Lázaro… Provinham do Cinema e da Escola, da Literatura e do Teatro, da Conspiração anti-fascista e da PIDE, da Música, da Inocência amorosa e da Astúcia do desejo, ou de outras matérias ainda ou de horizontes sem nome. Talvez tenha sido em 1962- ano da estreia do D. Roberto (que eu nunca vi)- ou em 1965- ano da sua encenação da peça de Cliff Odets, Desperta e Canta, no TEP- ou talvez fosse em 1966… O que é certo é que foi em torno desses anos que eu notei sem ser notado o meu futuro Amigo. Tínhamos uma considerável diferença de idade que se foi atenuando ao longo do tempo e sobretudo depois da sua morte. É sempre assim. Quando alguém morre mas perdura na memória dos sobreviventes determina-se um encurtamento das distâncias ou até mesmo uma sua inversão temporal. A vida consente o «velho» e a morte conserva o «novo».

 


José Barrias

 

[artigo publicado na Revista A Phala, Nº 64, Abril 1998]