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O ESTADO DA ARTE


Como explicar quadros a uma lebre morta Performance de Joseph Beuys, 26 November 1965, na Galerie Schmela, Düsseldorf.


Como explicar quadros a uma lebre morta Performance de Joseph Beuys, 26 November 1965, na Galerie Schmela, Düsseldorf.

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O VAZIO APOCALÍPTICO

VICTOR PINTO DA FONSECA

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Ninguém está contente com a sua fortuna, mas cada um está contente com a sua inteligência, in Lev Tolstói, Anna Karénina.

 

No muito que se escreveu e vem escrevendo sobre o novo museu MAAT há uma noção muito grande que o museu tem um enorme significado arquitectónico - que terá um papel relevante em Belém na atracção de público! Mas, não se terá escrito um único relato crítico (qualquer que seja a intenção crítica) sobre o experienciar da arte contemporânea no museu, sobre o interesse das exposições - só sabemos que o espaço é problemático -, a qualidade das obras, das curadorias, o que seja relacionado com a interação da arte com as pessoas!

Eu sei que a arte contemporânea em Portugal dispensa ter um papel activo na sociedade - à falta de outras coisas o silêncio é elegante -, como era crença do artista Joseph Beuys! O artista alemão, acreditava na possibilidade de a arte transformar efectivamente a vida quotidiana das pessoas.

No dia 26 de Novembro de 1965, na Galeria Schnela, em Dusseldorf, Joseph Beuys com a cabeça coberta de mel e folhas de ouro e uma lebre morta nos braços, visitou tranquilamente uma exposição dos seus desenhos e pinturas e murmurou algumas palavras inaudíveis, "deixando as patas do animal tocarem nas obras."Depois, sentou-se num banquinho num canto mal iluminado da galeria e começou a explicar o sentido das obras ao animal morto: "Eu expliquei-lhas porque na realidade não gosto muito de as explicar às pessoas" [...]. "Uma lebre tem mais sensibilidade e compreensão instintiva que muitos seres humanos, com a sua racionalidade obstinada [...].”Eu disse-lhe que é suficiente olhar para uma obra para compreender o que ela tem de verdadeiramente importante dentro." (Joseph Beuys, citado por Ursula Mayer in "Como explicar as obras a uma lebre morta", 1970).

Com Beuys, tornou-se clara a importância do visitante ser um entusiástico participante das exposições; esta aproximação intuitiva e sensível às exposições teve imediatamente implicações no contexto dos museus na apresentação das exposições: os visitantes devem ser compelidos a terem um relacionamento sensorial com as obras de arte e a arquitectura da exposição deve ser um dispositivo responsável pela variedade de ritmos criados ao visitante, no sentido de prolongar o tempo da presença do espectador!

Um dos problemas centrais da arte contemporânea em Portugal decorre do visitante (o espectador das exposições), não participar activamente, não percepcionar visualmente (não necessariamente fisicamente) as exposições, qualquer que seja a estrutura inerente a cada obra. É neste vazio do olhar, na observação passiva, na abstenção de opinião qualquer que seja o pensamento (a intenção crítica), que se instala o pequeno círculo privado, fechado, da organização (governação) da arte contemporânea em Portugal!

Na falta de um receptor activo, o território da arte contemporânea fica essencialmente incompleto, vai-se tornando proibido, deixado simplesmente à mercê de micro-poderes instalados (os mesmos, os de sempre). E é isto que faz com que sistemas de poder se instalem! O sistema de poder contrói-se quando a nossa opinião não é um acto de convicção absoluta, não faz a diferença; o sistema organiza tacitamente a sua estratégia de micro-poderes onde encontra as suas condições de exercício de poder...

Não há nada tão triste como um território abandonado, deixado simplesmente ao domínio de grupos de interesses que privilegiam a verdade única e conveniente e não a selecção baseada no mérito pessoal!

 

A ética é a estética do futuro, Lenine

Tem sido um processo longo e trabalhoso descobrir na arte em Portugal nada senão precariedade e falta de ética intelectual!

Mas, não se trata de uma questão pessoal comigo próprio, uma questão tensa (e/ou de coragem), antes, trata-se da consciência - que deve dar-se um passo - de não nos entregarmos a este entediante círculo de interesses entre amigos e pretensão de controle, que sabe com quem se entender, sabe em quem se apoiar, sabe quem se apoia em quem, como e em que sentido, e em que aspectos!

 

Um homem é aquilo que vê, William Blake

Correndo o risco de me tornar repetitivo, tudo está planeado e orientado para servir o círculo habitual da arte em Portugal (o favor é a grande divindade dos portugueses)!

É fácil de verificar - por exemplo - que a aquisição de obras de arte para o museu MAAT se faz segundo um princípio dogmático, o que significa literalmente uma crença básica - seguida e respeitada sem nenhuma dúvida - em certos artistas (e galeristas)! Estou a pensar concretamente na instalação desinteressante da obra do artista americano Lawrence Weiner no piso à entrada do museu MAAT (para ser lida?)! Deve assumir-se que esta obra é um olhar intelectualizado? A resistência - a tensão artística - que a obra incrustada no piso da calçada se nos opõe é convincente? É uma mensagem na pedra para o peregrino (da obra de arte ao vulgar não vai senão um passo)? Os visitantes do museu, no seu desejo de continuarem a andar, interrogam-se e interessam-se pela obra? Cumpre o significado que o artista lhe atribui?

É uma decepção o desejo da maioria das colecções se domesticarem - mais incompreensível quando colecções públicas -, de todos fazerem a mesma colecção!
O MAAT, para ambicionar ser um museu diferente de todos os outros museus, primeiro, deve voltar a cabeça para cima - tirar os olhos do chão -, depois olhar para a frente de si e para fora da circunferência habitual da arte contemporânea - para que tudo não assente em pseudo-lógicas falsas, se abordado do exterior!

Coleccionar hoje continua a ser idêntico a coleccionar há mil anos: as verdadeiras colecções nunca foram domesticadas, o que as torna uma sensação única da história da arte.

 

- Quem conta um conto acrescenta um ponto...

Facilmente se percebe que o Atelier-Museu Júlio Pomar tem como único desejo dar forma a um programa de exposições em tudo idêntico ao das galerias comerciais; não é a perspectiva de apresentar obras contemporâneas que é injustificável, mas, a repetição de artistas - os mesmos artistas, os de sempre - representados pelas habituais galerias comerciais.

Entristece-me o Atelier-Museu Júlio Pomar não seguir um critério alternativo ao mercado da arte contemporânea: um programa livre e independente!

O Atelier-Museu Júlio Pomar é uma oportunidade extraordinária para ligar duradouramente as artes plásticas e a literatura que têm cada uma o seu mundo: deveria o Atelier-Museu ter o desejo de cruzar a obra do artista Júlio Pomar com o pensamento dos escritores que inspiraram e influenciaram genuinamente o seu trabalho...Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe, Baudelaire, a Beat Generation, etc; e ter a preocupação de apresentar a experiência de Júlio Pomar com a de outros artistas de backgrounds geracionais do seu tempo...caracterizados pelo idealismo anti-establishment e avant-garde!

Procurar cruzar - todos os anos - a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas - literalmente, visualmente falando - caracterizados por pragmatismo, espírito empresarial, atenção desmesurada à imagem promocional e alheios à história da resistência, para pensar a obra de Júlio Pomar, parece-me uma visão superficial e muito dogmática, antes de tudo.

A alta-roda do programa de exposições do Atelier-Museu Júlio Pomar de procurar estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade é, na verdade, uma roda única; a de dar continuidade à circunferência habitual que dirige a arte em Portugal; a de apresentar os mesmos artistas, os de sempre, e reproduzir a edição de catálogos da sua - mesma - obra contemporânea... Dá que pensar!

O Atelier-Museu, é uma oportunidade única para fazer ver ao público a qualidade instrutiva que a obra de Júlio Pomar contém que a eleva! Na sua casa vemos que a conexão entre a obra e o percurso de vida do artista é frequentemente esquecida: conexão que para mim sempre foi o mais importante; conexão que nos faz sentir respeito!

A arte contemporânea deve refletir o nosso tempo! Não nos devemos conformar com nomes (os mesmos, os de sempre), não devemos assumir que aquilo que eles dizem é um olhar contemporâneo. Devemos ser anti-conformistas radicalmente: ter o desejo de imaginar um futuro melhor que não existe presentemente.

Discutir a arte contemporânea não pode ser um segredo bem guardado.... e quem o rejeita poder incorrer em crimes variáveis! Mesmo que a lei que rege a arte contemporânea em Portugal seja: detém-te e mantém-te disciplinado para que seja possível os temas da arte contemporânea nascerem dos de sempre, e serem sua eterna propriedade!

No que diz respeito à arte - a beleza e a competitividade só existem quando não estamos limitados pelas amizades! Depois admiram-se de a arte contemporânea em Portugal não encontrar o seu lugar perto de um público mais vasto!

 

 

Victor Pinto da Fonseca