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O ESTADO DA ARTE


Art Basel: Miami Beach.


Art Basel: Miami Beach.


Aqua Art Fair: Inauguração.


Art Miami: Art Fair.


Art Basel Salon: What is Modern, Really


PULSE Contemporary Art Fair.


PULSE: Inauguração.


SCOPE, Miami Beach.


Untitled Art Fair.


Sun Xun, Reconstruction of the Universe . Instalação, South Beach.


The Marguilles Collection na Warehouse: Anselm Kiefer.


The Marguilles Collection na Warehouse: Anselm Kiefer.


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ARTLAND VERSUS DISNEYLAND

SÉRGIO PARREIRA

2017-01-07




A Art Basel começou em 1970 na Suíça pelas mãos dos Galeristas Ernst Beyeler, Trudi Bruckner e Balz Hilt, que decidiram criar uma feira de arte internacional que desde o primeiro momento se revelou um imenso sucesso. Mais de 16.000 pessoas visitaram a feira no ano inaugural, que contou com 90 galerias e cerca de 30 editoras de 10 países. Em 1973 apresentaram a primeira exposição especial, intitulada “American Art after Jackson Pollock”, e no ano seguinte lançaram o sector Neue Tendenzen (“Novas Tendências”) que promovia jovens artistas. Em 1975 cerca de 50 novas galerias juntaram-se ao evento, incluindo a Castelli de Nova Iorque, Sonnabend de Paris, Sperone de Turim ou a Verna e Ziegler de Zurique, atingindo desta forma a dimensão atual de 300 expositores. As galerias participantes são originárias de 21 países e atraem cerca de 37.000 visitantes anualmente. Durante este singular percurso, este projeto inigualável destacou técnicas e formatos como a fotografia, a vídeo arte, o filme, a instalação, a escultura monumental, as pinturas de grandes formatos, os livros de artista, a performance e projetos de arte pública. Novos sectores expositivos foram surgindo de forma a preencher algumas possíveis lacunas de proveniência cultural ou técnicas artísticas, como o espaço Nova, Unlimited, Kabinett, Parcours, Rooms ou Positions.

Artistas já estabelecidos e outros emergentes foram sendo reconhecidos por esta plataforma com exposições individuais, como é o caso dos artistas Vanessa Beecroft, Pierre Huyghe, William Kentridge, Mariko Mori, Ernesto Neto, João Onofre, Jorge Pardo, Manfred Pernice, Elisabeth Peyton, Ugo Rondinone, Hans Schabus, Gregor Schneider, Kara Walker, Kurt Wyss, Philippe Parreno, Anri Sala, assim como a curadoria de grandes projetos foram entregues a nomes como Hans Ulrich Obrist ou Klaus Biesenbach.

Em 2002, depois do decisivo acontecimento do 11 de Setembro nos Estados Unidos, a Art Basel inaugura-se em Miami Beach, na Florida. É um sucesso imediato e estabelece-se rapidamente como o primeiro grande evento e exposição internacional nas “Américas”, colocando-se no top do ranking dos eventos de inverno do Mundo da Arte Internacional. O sector “Positions” inaugura um novo conceito de exposição, onde jovens artistas são exibidos em contentores convertidos em espaços de exposição e dispostos na praia. Em 2013 a Arte Basel inaugura a sua primeira apresentação em Hong-Kong, na China. Metade das galerias participantes são oriundas da Ásia e da região Ásia-Pacífico, confirmando o desejo da Art Basel em construir uma ponte cultural inequívoca entre o já há muito estabelecido mundo da arte ocidental e as vibrantes novas tendências de toda aquela região.


Neste ano de 2016, a 8 de novembro, Donald Trump vence as eleições presidenciais nos Estados Unidos. No dia 25 do mesmo mês morre Fidel Castro. A Art Basel Miami teve lugar de 30 de novembro a 4 de dezembro.

Miami, parafraseando os básicos de qualquer enciclopédia, é a cidade mais internacional da ponta da Florida. A sua influência cubana é facilmente reconhecida em cafés e lojas de charutos ao longo da linha da Calle Ocho na Pequena Havana. Nas ilhas do outro lado das águas turquesas da Baía Biscayne situa-se Miami Beach, centro de South Beach. Este glamoroso bairro está pejado de coloridos edifícios Arte Deco, de praias com areias brancas, hotéis virados ao mar e famosas discotecas e bares. É, aqui pelo meio, durante a estação invernosa da maioria das capitais mundiais, que temos a semana da Arte Basel.

Durante esta semana em Miami, que oficialmente começa a 28 de novembro e termina a 4 de dezembro, podem visitar-se pelo menos 26 Feiras de Arte, umas 4 coleções privadas, 5 museus permanentes, incontáveis projetos artísticos avulsos e, naturalmente, ir a festas que toda esta gente decide organizar por múltiplas noites consecutivas. Se tem a sorte, ou o azar, de ser considerado VIP, arrisca-se a viver tudo isto com dupla intensidade, pois com o acumular de convites, a curiosidade matreira e a sensação insaciável de que se pode perder alguma coisa, em vez de a tarefa se simplificar, adensa-se! Portanto, antes de pedir o seu estatuto de pessoa muito importante para tudo o que lhe aparece à frente, respire e pense duas vezes…

Durante a minha curta estadia de 3 dias visitei 10 feiras de arte, Art Miami, Context, Aqua, Scope Contemporary Art Fair, Untitled, Pulse, Nada, Miami Art Project, X Contemporary and Art Basel Miami, 3 coleções privadas, The Marguilles, Rubbers e De La Cruz, e ainda o Erotic World Museum e o Institut of Contemporary Art. Visitei a instalação multimédia de Sun Xun, assistindo à respetiva conversa, e fui ao Moore Building ver o projeto especial organizado por Larry Gagosian e Jeffrey Deytch. Entretanto, fui à abertura pública oficial da Art Basel e às performances no Collins Park, onde vi naturalmente as esculturas de arte pública. Como não poderia deixar de ser, fui a umas quantas festas, aquelas que o corpo ainda permitiu.

A minha maratona de feiras de arte começou logo após aterrar. Fiz rapidamente o check in no meu apartamento na Meridian Avenue, a dois quarteirões da Art Basel, e apanhei um Uber para a Context Miami. A “praga” das Feiras de Arte abateu-se rapidamente sobre mim. Esta “praga” é basicamente constituída por uma iluminação específica, contraplacado branco, mobiliário barato “pret-a-porter” e trabalhos a-contemporâneos vendáveis, reconhecidos por alguns como arte. Não fotografei grande coisa dentro da Context, tenho, no entanto, um vídeo de um cifrão de dólar, em escala humana, feito de lâmpadas que se acendiam e apagavam como uma qualquer sinalização que se poderia encontrar eventualmente na porta de uma loja de penhores, onde bens se transformam em quantias de dinheiro “vivo” habitualmente inferior ao valor do próprio bem. De certa forma, esta obra foi um despertar para uma realidade que eu temia e antecipava. Este sentimento de vazio, e deslocação, veio a afirmar-se não como uma exceção, mas sim como uma regra aplicável às seguintes feiras: Art Miami; Scope Contemporary, na realidade muito bem localizada e com excelentes vistas da praia de Sout Beach, emoldurada por areais brancos, mar e palmeiras; assim como a Untitled, Art; Untitled, Miami Beach, igualmente localizada à beira da praia. Isto até pode soar como algo apetecível, ainda mais a julgar pelos adjetivos que todas estas feiras associam às suas apresentações. O deslumbre no nosso imaginário é facilmente atingível. Nalguns textos descritivos das feiras podemos ler que vamos encontrar excitação, um infindável espaço, incrível, arejado, marcante, nunca antes visto, único, transcendente, com palavreado complementar como VIP, previews privadas, colecionadores proeminentes, uma feira de arte única, aficionados da arte, expositores internacionais, “frescos” trabalhos de jovens artistas emergentes, de artistas de carreira… Tudo isto coloca as expectativas num nível extremamente elevado. A decepção não é unicamente extrema, mas incrivelmente marcante. O que fazer então quando nos apercebemos de tudo isto? Recarregar baterias e esperar que o melhor ainda esteja para vir…

Mas as feiras de foyer, entradas de hotel e salas de conferências, estavam ainda para vir, e acabariam por chegar: NADA, X Contemporary e Miami Art Project, que aparentava ser um piso térreo de um antigo centro comercial desterrado do centro da cidade. Tudo isto é extremamente confuso. Porque razão um curador ou organizador poderá eventualmente aspirar a projetar uma feira de arte dentro de uma sala de conferências, com alcatifa visivelmente gasta e provavelmente datada dos anos 80, com grandes janelas de vidro translúcidas, mas imensamente sujas do sal do mar, com vistas para os banhistas na praia ou na piscina do hotel? Esteticamente isto não resulta e parece, eu diria, errado, muito pouco inteligente e pouco profissional. Posso garantir-vos que não há possível álcool gratuito (que raramente vos é fornecido nestas inaugurações) que pudesse tornar a experiência mais agradável ou este envolvimento mais sofisticado. Para brindar tudo isto, não nos podemos esquecer das vistas de pessoas em todos os recantos, a tirar selfies com iates, Porches ou Roll Royces, ou outros quaisquer bens inacessíveis, que na realidade até são acontecimentos que fazem algum sentido e parecem estar a desenrolar-se no “set” apropriado.

A jornada também me levou ao Collins Park, espaço público de exposição da Art Basel, que eu visitei no dia da abertura oficial da feira principal. É um parque muito interessante, adornado com esculturas de grande escala que “decoram” as zonas comuns da paisagem. Podemos ver aqui esculturas extremamente fotogénicas como é o caso da de Ugo Rondinone, que foi adquirida, entretanto, pela cidade de Miami, fazendo agora parte das obras permanentes deste jardim. Trata-se de uma escultura com cerca de 20 metros de altura, constituída por rochas gigantes empilhadas, estilo totem, em que cada uma é pintada com diferentes cores luminosas fluorescentes. Este trabalho, como muitos outros este ano no parque, fizeram parte do conceito “Ground Control” (música de David Bowie), sugerido aos artistas como inspiração pelo curador Nicholas Baume (curiosamente já não será o curador do Collins Park em 2017, a Art Basel comunicou o novo logo na semana seguinte ao encerramento da feira). Durante a noite de inauguração aconteceu uma performance excêntrica, mas muito divertida e com ótimas energias, dentro de um edifício do jardim, pela extravagante drag queen americana Lady Bunny, que basicamente arrebatou as atenções da noite. Ao mesmo tempo e no mesmo jardim, mas no exterior, acontecia um concerto/performance com cerca de 15 a 20 músicos e cantores que, dispersos de costas viradas uns para os outros e em diferentes palcos unipessoais (estilo plinto), projetavam sons, ou de instrumentos ou vozes, nos microfones… O resultado final dos sons improvisados era muito desagradável e a performance, contrastando com a de Lady Bunny, era claramente datada.

Numa noite diferente, também visitei a apresentação privada da exposição e conversa com o artista Sun Xun, em South Beach mesmo ao lado do Collins Park. Como publicitado, tratava-se de uma instalação de grande escala, feita de bamboo, que surgia como que uma onda gigante a desafiar o mar em frente. No entanto, a instalação que se anunciava de “tirar o fôlego”, foi basicamente criada como parte de um pavilhão da marca Audemars Piguet, que no final aproveitou o espaço desenhado pelo artista para dar umas quantas festas ao longo destes dias e nas semanas seguintes da estacão, seja esta estacão qual for, no mapa indefinido de estações de Miami. Isto é perfeitamente aceitável, entenda-se, o facto de um artista ter desenhado um pavilhão na praia para uma marca, mas no final é mais isso, uma discoteca/bar que uma obra de arte.

A Art Basel, no centro de convenções de Miami, estava prestes a ser riscada do meu calendário e eu estava muito expectante com esse acontecimento. Apesar de eu querer ver a feira, a minha prioridade no dia em que a visitei era ouvir as conferências no Basel Salon. A primeira relacionada com o mercado da arte após as eleições nos Estados Unidos e uma segunda questionando o que é afinal a Arte Moderna. As conversas foram muito interessantes e após estas aventurei-me na feira onde milhares de pessoas já estavam a lotar todo o espaço disponível, que por sinal é imenso. Em contraste com todas as restantes feiras e exposições espalhadas pela cidade nesta altura, a Art Basel acaba por provar porque é ela a dar o nome a esta semana agitada de arte, e não outra coisa qualquer. Justiça seja feita, no mundo das feiras de arte, seja lá o que isso for, se alguém tem que levar o prémio para casa, a Art Basel é definitivamente a merecedora. Sem dúvidas o melhor que se pode encontrar. É possível ver-se alguma arte entre as 270 galerias, onde estão expostos mais de 3000 trabalhos de pelo menos 1300 artistas. A feira torna a nossa vida menos dolorosa e de certa forma alivia toda a experiência, e merece o “Óscar” das Feiras. Para esta semana a Art Basel tem uma app extraordinária onde podemos ver a planta da feira com todas as galerias, ir marcando as que já vimos, as que gostaríamos de ver, ou os trabalhos por artista que queremos encontrar e onde os podemos vislumbrar. O catálogo completo está todo online, interminável, mas muito utilitário. No meio desta Arte “Feirasfera” a experiência é excecional. As pessoas que lá trabalham têm um objetivo bem definido e transparecem profissionalismo. Quanto a obras de arte, bem, vê-se o que se quer ver e tenta-se ignorar tudo o resto, apesar desta ser uma tarefa quase impossível… Mas, enfim, estamos em Miami e o efeito “Fiesta” é mais forte que o lado “Arty” da coisa.

A Art Basel 2016 vendeu menos que nos anos anteriores e o saldo de visitantes contabilizou-se em menos 10%. Parece que alguns dos principais “jogadores” se assustaram com o presidente-eleito. Outra situação a denotar é o efeito do vírus Zika sobre a população feminina que se encontra grávida, ou que pretende engravidar nos próximos tempos, que foi amplamente aconselhada a não visitar a região. Obras abaixo do milhão de dólares vendaram-se como nos outros anos e algumas distintas galerias, como a Paul Gasmin, venderam trabalhos na ordem dos 6 milhões. A Pace, apesar de mencionar que o ritmo esteve mais lento, vendeu imensas obras entre os 35 e os 150 mil dólares. A Hauser and Wirth na noite VIP encaixou logo 2 milhões de dólares com uma venda. Na generalidade, parece que os dealers respiraram de alívio após o encerramento da feira no Domingo, porque no final as coisas correram melhor que as previsões mais otimistas.

Mas a Art Basel mergulha numa lógica mais profunda que complica um pouco o senso comum. E o efeito das celebridades e VIPs durante esta semana na zona tem imenso para revelar. Primeiro, questionamos porque está toda esta gente a voar para ali? Sabem eles alguma coisa sobre arte? Mas depois paramos e pensamos “o que estou eu a fazer aqui”? A conclusão é uma vez mais confusa. Estas celebridades pertencem aqui, são elas que trazem o dinheiro para as lojas do Design District. Continuamos a questionar, no entanto, o que faz então toda esta arte aqui? Ou pelo menos, tentamos discutir o assunto com outras pessoas e chegar a algumas possíveis conclusões, respondendo a algumas destas dúvidas.

Madonna deu uma festa com a sua amiga Ariana Grande em que o convite para a festa custava, após ser aceite, $5000 dólares, e cujo objetivo era angariar fundos para o Malawi. E angariou 7.5 milhões de dólares. David Beckman voou para Miami para apoiar a sua esposa Victoria e a respetiva Fundação num evento de angariação de fundos para as vítimas de SIDA, que teve lugar no dia 1 de dezembro. Diddy também hashtagou ArtBaselMiamiBeach, assim como Shae Marie após o seu desfile para a Victoria’s Secret. A lista é infindável: Kylie Jenner hashtag ArtBaselMiamiBeach, Tyga hashtag ArtBaselMiamiBeach, Katie Holmes hashtag ArtBaselMiamiBeach, SarahJessicaParker também lá esteve a hashtagar ArtBaselMiamiBeach, a Dior, Prada, Versace, Gucci, e por aí fora. Hashtag Todas As Marcas De Topo A Que Não Temos Acesso Hashtag ArtBaselMiamiBeach.

Então, porque estávamos todos nós ali? As razões podem ser diferentes, mas no final, todos hashtagamos Art Basel Miami Beach!
Pois bem, de que se trata no final a Art Basel Miami? Definitivamente nada daquilo com que comecei este texto. Não é só um evento artístico ou uma feira de arte. A Art Basel transformou-se numa marca, mesmo que para além das expectativas ou do desejo dos seus criadores. Hoje responde aos requisitos do mercado da arte, que não é unicamente a comercialização do objeto de arte. No entanto, a Art Basel, como feira de arte, não sobrevive unicamente da qualidade dos objetos que estão a ser comercializados, mas sim do poder que neste caso significa o dinheiro daqueles, sejam eles quem forem, que estão a incentivar e a alimentar este “movimento”. Quem está então a comprar arte? Quem são os colecionadores do século XXI? E quem são todos os outros que conhecem os seus gostos e saciam as suas vontades? O que está a ser comercializado aqui? Será isto arte ou no final simplesmente o novo ouro cujo peso neste caso é subjetivo e pode ou não interessar consoante o estado emocional do consumidor final?

Seguramente que é arte! No entanto, o seu valor é volátil e incerto. E incerta a qualidade do objeto artístico, assim como o valor que terá dentro de alguns anos. Por que é que é assim? Muitas das vendas efetuadas acontecem de forma emocional e em sintonia com a disposição do comprador. Os preços que estes pagam podem não ser ajustados com a qualidade do objeto, mas coincidem com os cânones de gosto e comportamento social do seus futuros proprietários. Os preços destes objetos atestam a saúde financeira do seu comprador independentemente do seu conhecimento sobre arte. Esse conhecimento que um dia era um requisito para adquirir um objeto de arte, já não é hoje em dia uma necessidade. O gosto do comprador multimilionário (“million-dollar buyer”) está a determinar o preço impresso na etiqueta, que é simultaneamente ditado e estabelecido nos diversos leilões sazonais a nível mundial, onde alguns grandes mestres são muitas vezes ultrapassados em alguns milhões por obras de arte moderna ou contemporânea, cujas histórias de vida dos seus autores se sobrepõem à maestria da própria obra de arte.

O conceito por detrás da obra de arte tornou-se em muitos casos, legitimamente, mais importante que a própria obra de arte. Este facto veio de certa maneira confundir o colecionador. O que estes pensavam ser um requisito pré-adquirido e eterno, a qualidade artística do objeto, veio a comprovar-se perecível. Sem linhas orientadoras, dentro deste conceito estético, o colecionador começou a comportar-se de forma errática, e hoje as suas emoções são tão preciosas que atestam a validade do objeto de arte.

Existem, no entanto, outros padrões de julgamento neste jogo. O exemplo é o de algumas coleções expostas em Miami, em que os seus proprietários demonstram saber, pensar e questionar aquilo que compram e que juntam às suas históricas aquisições. Apesar de alguns deles terem deixado de colecionar há alguns anos, o que têm hoje, resultado de muitos anos a adquirir obras de arte, moderna e contemporânea segundo os seus conceitos de contemporaneidade, faz destas coleções exemplos muito interessantes e inquestionavelmente valiosos. Miami também nos oferece isto. Enfim, oferece àqueles que estão dispostos a visitar estes astutos projetos. The Marguilles, Rubbers e a coleção De La Cruz, são exemplos excecionais disto que acabei de mencionar. Colecionadores que se rodeiam de pessoas com um amplo conhecimento de arte - curadores e outros conselheiros - que os ajudam a construir e selecionar pertinentes, coerentes e impressionantes grupos de obras, que mesmo que ainda não sejam reconhecidos hoje, seguramente terão um dia um papel importante na história de arte.

Seria injusto dizer que a visita a estas coleções não justifica a compra da viajem de ida e volta até à Florida, mais o voo extra antecipado para fugir de lá.

A experiência não é apenas feita de preto e branco, ou amei ou odiei… Há imensas zonas cinzentas a denotar, assim como emoções menos extremadas. No entanto, a decepção incolor é generalizada, pelo menos para mim.

De regresso à cidade (Nova Iorque), os hashtags ABMB (Art Basel Miami Beach) continuam a cair na minha história virtual e eu continuo a seguir o acontecimento nos dias seguintes, descobrindo que eventualmente perdi a feira de arte mais interessante, a Satellite. Mas, mesmo que isto fosse verdade e ainda lá estivesse, o sentimento de frustração, e medo, já era tão intenso que certamente não teria tido força ou coragem para mergulhar em mais outra feira.

Os resquícios de Miami continuaram e museus e instituições que consideramos extremamente interessantes e distintos iam perdendo pontos na minha escala pessoal. É exemplo disso o MoMAPS1, que repetidamente postou que esteve em Miami não por assuntos que pensamos lhe encaixariam adequadamente - a Arte - mas para dar as festas mais memoráveis da semana. Mencionaram uma, duas e mais vezes isso antes e após as festas acontecerem. Se isto não era já suficiente, hasthagavam as marcas que os patrocinaram e que nunca os hasthagaram de volta, pois na realidade estavam-se nas tintas para o MoMA ou a Arte, muito mais interessados nas pessoas que eventualmente passariam a ser seus clientes e a gastar dinheiro com eles.

Posto isto, ame-se ou nem por isso, sejam quais forem as cores que Miami desperta nas emoções de cada um, a experiência em geral deixa marca. No entanto, qual será essa marca é o que continuo a pensar e a questionar-me… Irei no próximo ano repetir esta experiência, que raramente me fez sorrir, ou voar para a Florida para ir à Disneylândia em vez de ir à Art Basel? Os sorrisos são garantidos, assim como aquela emoção de que seremos eternamente crianças num jogo naïf de divertimento, em que não somos forçados a questionar ou estabelecer nenhum pensamento crítico acerca de nenhum assunto em particular, e que por momentos olhamos para o castelo onde a princesa foi feliz para todo o sempre e esperamos, após a noite cair, que as luzes expludam no céu, fogo-de-artifício, que não pretende ser outra coisa qualquer, senão e apenas isso!

 


Sérgio Parreira