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O ESTADO DA ARTE


Vista do Sesc Pompeia. Fotografia: Marco Antônio


Vista de cima do Sesc Pompeia. Fotografia: Marco Antônio


Corredor central Sesc Pompeia. Fotografia: Marco Antônio


Sesc Pompeia, área de convivência. Fotografia: Marco Antônio


Sesc Pompeia, Espaço de convivência. Fotografia: Matheus José Maria


Emo de Medeiros, Kaleta-Kaleta (2013-2017)


Debora Mazloum, Jardim de Aclimatação XXI (2015)


Barbara Wagner e Benjamin de Burca, Faz que Vai, (2015)


Alia Farid, Ponce, da série Mezquitas de Puerto Rico (2014)

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ARTE PARA TEMPOS INSTÁVEIS

JULIA FLAMINGO

2017-10-14




 

FESTIVAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA SESC_VIDEOBRASIL

Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93
São Paulo, Brasil

03 OUT 2017 – 14 JAN 2018

 

No espaço principal de convivência do Sesc Pompeia, em São Paulo, brincam crianças acompanhadas por educadores, passam esportistas em seus trajes, enquanto estudantes agrupados discutem leituras e outros, ainda, tiram o cochilo da tarde em poltronas confortáveis. Desde o dia 3 de outubro, o espaço também é ocupado por grandes telões que projetam videoarte, instalações que emitem sons e esculturas que passam a fazer parte da vida diária de quem passa pelo centro cultural. Esta é a 20a edição do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, que desde 1992 acontece bienalmente no emblemático prédio projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. Dez anos antes, Lina transformou uma antiga fábrica de tambores neste que é um dos mais belos projetos arquitetônicos da cidade. Atraindo um publico plural para atividades das mais diversas, o Sesc também é ponto de encontro carimbado do mundo das artes.

Democracia e acessibilidade são valores quase fundadores do Festival de arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, que nasceu em 1983 com o intuito de promover e divulgar trabalhos produzidos no chamado “Sul Geopolítico” ou “Sul Global”. O conceito nada mais é do que uma maneira de reunir contextos culturais, políticos e econômicos de países da América Latina, África e Ásia. A ideia é tirar o foco de produções artísticas realizadas em hegemonias como Estados Unidos e Europa Ocidental e dar luz a criações de artistas provenientes de países do Brasil e Peru até Benin e Coreia do Sul. Desde sua 17a edição, o evento também alargou seus limites, marcado pela produção em vídeo, para outros suportes. A seleção de trabalhos também é coerente: por meio de uma convocatória pública, qualquer artista dos países do Sul pode se inscrever. Para a mostra deste ano foram enviados 2000 portfólios digeridos por Solange Farkas, fundadora do Videobrasil, e outros quatro curadores convidados: os brasileiros Ana Pato, Beatriz Lemos e Diego Matos e o português João Laia. O grupo escolheu, então, setenta trabalhos assinados por cinquenta artistas de nada menos do que 25 países do Sul Global.

“O que percebemos de mais forte entre tudo o que nos foi apresentado é a vontade de mostrar novas visões de mundo”, conta Beatriz Lemos. Num contexto de crise não só no Brasil, mas nos vários países que encaram uma onda reacionária, tradicional ou nacionalista que vem assolando a cultura, política, economia e questões sociais, a edição é guiada pela frase “Arte para tempos instáveis”. A boa notícia é que os artistas participantes parecem ver uma luz no fim do túnel. “Nós percebemos uma visão otimista para encontrar soluções para os problemas do mundo”, diz o co-curador Diego Matos. A positividade – e não um descontentamento maçante - é a atmosfera que prepondera pelos ambientes do Videobrasil.

Logo na entrada, o vídeo Faz que Vai de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (entre os quinze brasileiros integrantes da exposição) mostra dançarinos que misturam passos do frevo, uma dança tradicional do Pernambuco, no nordeste do Brasil, com movimentos de ritmos contemporâneos como funk e swingueira. Enquanto se assiste, é difícil não mexer a cabeça ao ritmo da música e se empolgar com os movimentos dificílimos dos bailarinos. Esse contágio, porém, não ocorre com outros vídeos da mesma dupla que hoje são apresentados no recém-inaugurado Instituto Moreira Salles, também em São Paulo, e no Skulptur Projekte, em Münster, na Alemanha. Nestes casos, o coletivo buscou estudar músicas gospel e funk brasileiros, e o Schlager - tipo de música brega alemã- em filmes mais apáticos e kitsch.

A dança também se faz presente na obra da brasileira Graziela Kunsch, que registra moradores de rua de São Paulo no momento em que um bloco afro faz um ensaio ao ar livre. Em Ensaio Ilú Obá de Min, a dança parece ser um refúgio à realidade do grupo. Já a instalação Kaleta/Kaleta de Emo de Medeiros, mostra um vídeo de jovens dançantes na tradicional festa de máscaras do Benin. O artista nascido na França e que vive entre Paris e Cotonou construiu um ambiente imersivo com trilha sonora de música eletrônica e muitas das máscaras festivas.

É uma tendência artistas buscarem em suas próprias raízes e ancestralidades soluções para a crise mundial. “Eles se voltam ao passado para procurar alternativas e pensar num futuro melhor. É como se desconstruíssem a estrutura atual para criar um novo mundo”, explica Solange Farkas. Não por acaso, a 32a Bienal de São Paulo, em 2016, e a mais recente Documenta de Kassel também apresentam um número grande de trabalhos voltados para a cosmologia, natureza e técnicas tradicionais. Esse traço é bastante marcante no trabalho da kuwaitiana Alia Farid, que sempre utilizou tecnologia para suas criações audiovisuais mas, no Festival Sesc_Videobrasil, apresenta a técnica milenar da tapeçaria. Em Mezquitas, cinco tapetes têm imagens de mesquitas de Porto Rico e da República Dominicana, por onde passam carros e trânsito. Nesse mesmo sentido, a brasileira Débora Mazloum monta em Jardim de Aclimatação XXI uma espécie de gabinete de curiosidades, com plantas, fotos e desenhos antigos coletados a partir de registros de viajantes do século XIX. Ela criou uma mata perfeita e utópica com espécies exóticas de vários lugares do mundo: para ela, o retorno para a natureza e ecologia pode ser uma saída para a depressão mundial.

Entre outras ocupações espalhadas pelo canteiro central e foyer do auditório do Sesc Pompeia, o brasileiro Ícaro Lira propôs workshops para as salas destinadas às oficinas artesanais. Nos últimos dois meses – e enquanto a mostra estiver em cartaz – artistas refugiados encontram o público para discussões e performances do Museu do Estrangeiro. Foi ali, também, onde os refugiados produziram trabalhos com objetos pessoais e afetivos chamando atenção para uma aproximação entre imigrantes e locais – a perspectiva da comunicação e entendimento entre grupos de diferentes nacionalidades como um caminho para tempos de paz.

Entre performances, aulas abertas e debates, a programação da exposição também inclui prêmios de aquisição e de residência artística. Instituições parcerias do Videobrasil como o alemão Goethe-Institut e o polonês Ujazdowski Castle Centre for Contemporary Art agraciaram, respectivamente, os já citados artistas Emo de Medeiros e Graziela Kunsch com bolsas para Salvador e Varsóvia. Novidade da edição, a Fundação Suíça para a Cultura Pró Helvetia - que aproveitou a ocasião para lançamento oficial de seu programa na América Latina – selecionou o coletivo colombiano La Decanatura para um programa de intercâmbio. Formado pelos artistas e cineastas Elkin Calderón e Diego Piñeros, o coletivo apresentou a videoarte Centro Espacial Satelital de Colombia, na qual registra uma banda formada por jovens que tocam uma sinfonia em meio a um centro de comunicação em desuso. É como uma marcha fúnebre ao que um dia foi o símbolo de modernização da Colômbia: hoje as antenas gigantes foram quase engolidas pela paisagem ao seu redor.

A exposição termina em janeiro de 2018, mas a programação do Videobrasil continua. Há dois anos, Solange Farkas inaugurou uma sede fixa para a instituição que, além de promover exposições e cursos também disponibiliza parte do seu acervo de videoarte de 4000 títulos para pesquisa.

Depois disso, só resta esperar a edição de 2019 - e torcer para que a visão otimista dos artistas participantes da atual exposição se concretize.

 

 

Julia Flamingo
Nascida em São Paulo, Brasil, é formada em Jornalismo e História. Colabora como repórter de artes visuais para veículos nacionais e estrangeiros. Trabalhou como repórter e crítica de arte da revista Veja São Paulo entre os anos de 2015 e 2017, foi assistente de comunicação do Instituto de Cultura Contemporânea e assessora de eventos como SP-Arte e Bienal de São Paulo.