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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Exposição (Co)Habitar, vista parcial de “Raza” (Andrea Brandão) Galeria Casa das Galeotas, Casa da América Latina. Cortesia da artista Andrea Brandão


Exposição (Co)Habitar, pormenor de “Raza” (Andrea Brandão) Cortesia da artista Andrea Brandão


Exposição (Co)Habitar, “Lastro” (Andrea Brandão) e vista parcial de “Vila minhocão” (Lia Chaia) e “Ornamentos” (Andrea Brandão). Cortesia da artista Andrea Brandão


Exposição (Co)Habitar, pormenor de “Maré” (Andrea Brandão) e vista parcial da exposição. Cortesia da artista Andrea Brandão


Exposição (Co)Habitar, pormenor de “oãçircsni” (Andrea Brandão). Cortesia da artista Andrea Brandão


Exposição (Co)Habitar. Performance de Lia Chaia. Na imagem vista parcial de “Trópico” (Andrea Brandão) e “Saída de Emergência “ (Lia Chaia) Cortesia da artista Andrea Brandão

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ANDREA BRANDÃO E LIA CHAIA

(CO)HABITAR




CASA DA AMÉRICA LATINA - CASA DAS GALEOTAS
Casa das Galeotas Avenida da Índia, 110
1300-300 Lisboa

30 SET - 30 JAN 2017


O assunto

Quando saí da exposição, ou quando ainda a estava a visitar, coabitando-a também, foram várias as sugestões que me atingiram, das quais este texto é uma das suas imprevistas consequências.

Procurando alguma assertividade, precisei, como ponto de partida, construir um entendimento acerca da intenção da exposição, e também esclarecer-me acerca do significado de coabitar, ainda isento da minha visão ou da visão das artistas sobre isso.

O que acontece nesta exposição, parece-me, são duas pessoas a habitar um universo proposto – a cidade – materializando a forma como cada uma o faz num espaço expositivo construído.

Quanto ao coabitar (o corretor tira-me o h), procurar fui, e fiquei satisfeita com a ideia de que significa habitar em conjunto, viver em comum, viver intimamente ou, outra das minhas preferidas, estar em convivência de forma pacífica.

Aproximando-me então daquilo que quero partilhar, não quero separar a abordagem de cada uma das artistas, pois para além de tal ser uma ilusão – isto de dois serem duas coisas separadas – pode ser redutor do trabalho que construíram, ou até, o seu antónimo.

Que fique, prefiro, inerente, implícito e contido em tudo o que vou partilhar, a ideia de conjunto, de um todo acrescido por cada uma delas, e pelas duas.

 

 

Elas

A Lia, não separada da Andrea, trouxe uma proposta de reflexão acerca da sensação de coabitar, explorando, ou relembrando, a distância a que muitas vezes estamos daquilo que podemos sentir e experienciar, sensorialmente (e por consequência, não só).

Como? Relembrando que a natureza tem o papel (um dos) de nos aproximar dessa experiência, encurtando distâncias e esbatendo fronteiras ao ampliar possibilidades de sentir, nem sempre encontradas em contexto urbano, com um tal nível de plenitude e profundidade. Fiquei assim concentrada naquilo que pode coabitar com o quê e até onde podem ir essas possíveis relações, incluindo-me nessa dinâmica.

Pode a floresta coabitar com uma caminhada para o comboio? Sim, respondo eu. E o vento na cara, pode coabitar com e-mails por responder? Também, respondo eu. A natureza abre portas, mesmo que eu esteja aqui? Sim, penso que será uma questão de (as) procurar.
Keywords: meio ambiente, portas, fora, atenção, procurar.

A Andrea, mas não separada da Lia, trouxe a ideia do e de como se pode coabitar, com que realidade interior, ou melhor, a partir de uma realidade interior e acerca de uma realidade interior. Em suma, com que predisposição interna.
Keywords: indivíduo, dentro, encontrar.

 

 

Eu e Elas, mas não separada da Lia nem da Andrea

Tal como quem me abre a porta numa festa onde não conheço ninguém, assim era o índíceo. Para além de ser talvez a primeira palavra que conheci com dois acentos, obra da Andrea certamente, a primeira coisa que me fez reparar foi que índíceo rima com início, e de facto, era aí que me encontrava, no inicio da exposição. Ao mesmo tempo, e só mais tarde percebi, era precisamente um indício do que se podia vir a passar na visita à (Co)habitar.

Tal como quando é necessário o exterior para ver o interior, assim foi necessária a parede para mostrar o que o índíceo escondia, para o revelar.

Projetava-se o ouro e a prata, no título de um livro que não conheço, sem saber que na mesma parede mas do outro lado, da mesma parede, voltava a encontrar este par, que não se anula, nem se completa, mas que sempre vi em dupla, o ouro e a prata.

Desperta para a ideia de que por vezes só é preciso algo que sirva de parede para poder projetar e assim entender melhor o (meu) interior, e com isso conseguir coabitar, continuei, em frente para me deparar com impedimentos, ali me sugeridos de 9 formas diferentes, 9 pinturas.

Refiro-me a este momento desta maneira, como impedimento, porque senti o alerta para o que nos trava de coabitar com a dimensão natural, por exemplo, na cidade – a poluição, a pressão construída, o tempo, a falta dele, a distância, o esquecimento - levando-me para o quão longe conseguimos estar mesmo se estivermos perto, e vice-versa. Ou seja, podemos coabitar e estar longe daquilo com que o fazemos, o que acrescentou uma nova ideia, a de que coabitar não acontece apenas na dimensão física, do construído e do visível. Em última análise, eu coabito com tudo e todos, e nem sempre tenho essa consciência, ou ajo de acordo com isso.

Daqui segui para GB, onde o estar dentro não ser diferente de estar fora, o estar em si conter um não estar, bem como o ter um não ter, relembrou a impermanência, pois dela é tão fácil esquecer, apesar de ser fundamental para se viver. Tanto sentido fez encontrar isto, logo aqui, quando ia para GB, onde se julga ser possível crescer separado.

Ainda ali perto, estava o bravo bravíssimo do ornamentus (plantas naturalis e sacus plasticus). Bravo de corajoso, por ousar dizer, sem desviar o olhar, que todos os dias consumo natureza, carrego-a em sacos quase sempre de plástico (outro tema) e assim me enfeito, definhando-a.

A natureza coabita com o meu consumo, sim. Se coabita com a minha prosperidade, não sei.

Para que não me esquecesse da ideia de separação, que nasce da necessidade de proteção, que por sua vez nasce do…não me apetecia nada escrever a palavra medo neste texto. Há meses li que o medo se equipara a dedos contorcidos que apertam o nosso estômago, em ânsia e com fome. Erro, a angústia é que se equiparava a esta descrição, embora não seja estranho que eu tenha escrito medo enquanto pensava em angústia. Foi este tipo de coisa que me aconteceu em Vila Minhocão, onde aprendi que coabitar pode não ter implícita a ideia de interação. Coabitar pode não ser interagir, se estiver bem protegido, devidamente impedido. Mas e conectar? Não devia acontecer quando coabitamos?

Continuei, e encontro um material usado para aumentar o peso e/ou manter a estabilidade de um objeto (cf. definição de lastro num dicionário português-português que o Google sugeriu). De facto, nos dias que correm, erguemo-nos sobre e a partir de café. Assinalamos o início do dia a café, somos movidos a café. Às vezes penso no café como um combustível de um ideal, que não se podia ter tornado mais desleal. Penso nisso muitas vezes, mesmo quando bebo café.

Da quadrada não me lembro, mas também me apaziguo facilmente com a ideia de coabitar com o inconsciente, onde a memória não se desenha, não se designa, mas sabemos que existe, mesmo quando ela se esquece de si própria.

Na verdade, é como o mar. Não precisamos olhar para reconhecer o seu ritmo, nem de compreender para confiar na sua cadência, na justiça das suas marés. A maré vai e vem, disse eu ainda antes de espreitar a inscrição. Ouro é ir, prata é voltar, apesar de sentir o contrário. É preciso chão para voar, é preciso deixar-me estar para coabitar, assim me ensinou a maré. Tudo é relação, incluindo o reflexo, um reflexo.

Até o chão, que é x e y, mas podia não ser. Até o chão é um reflexo de uma ideia de referencial. Muda o referencial, novas coisas passam a ser refletidas. Novas formas suscitam novas funções? Tal como o chão, que pode não ser x e y, pode ser também z; pode ser folhagem em emergência e não servir só de refugio do olhar, rosto para a sola pisar ou as costas repousar. O chão pode ser uma visão efémera, que com a brisa se desvanece e se redefine a um ritmo interior ao entendimento do tempo; pode ser uma fronteira que protege e exclui; pelo contrário, pode ser um prolongamento de mim, do meu corpo e do meu não corpo, e que assim fazer de mim uma plena rasa: serena, que sabe de onde vem e para onde vai, e mais importante, sabe porquê, sabe o que a move, mesmo se nem sempre souber. Esta proposta da rasa faz lembrar a sensação de deitar na cama lavada, estender o corpo nos lençóis brancos, frescos, cheirosos, algures do lado que a vista não alcança, mas que o corpo descobre. O avesso da colcha ou o outro lado da parede.

Estando desse lado da parede, estava também do lado de dentro de uma janela, que me protegia e ao mesmo tempo me expunha ao rio, às árvores, ao jardim, aos museus, ao comboio, aos carros, a todas as vias paralelas entre si e a mim, coabitando, expressando-se como podem, conforme o espaço que têm. Ou será que é conforme o espaço que lhes dou? Quem dá o espaço a quem? De quem é o espaço? Espaço é poder? Posso observar tudo aquilo e só ver o rio. Posso atravessar a linha do comboio e não o sentir. Posso encontrar galáxias num grão de areia, ou florestas num pombo na minha janela. É um pouco como a lógica da fauna, é própria de um lugar, reconhecível, mas tem sempre um modelo de funcionamento escondido ou não totalmente apreendido por quem observa, como um sentido secreto, mostrando-se com mistério, e por isso seduzindo precisamente pelo que não se compreende.

O não-compreender é relativo ao consciente. Estou convencida de que no fundo da vida sabe-se tudo, compreende-se, perspetiva-se sem alvoroço. Da mesma forma que eu sei que o lioz não foi em vão, mesmo que não tenha a certeza da razão. É feminino, assinala uma escolha, denuncia uma preferência. Aconteça o que acontecer, lioz vai ser sempre “se pudesse escolher, escolhia lioz”. Só quando há um terramoto é que sabemos se os pilares o eram, se persistem, se realmente marcam, mas em sentido contrário ao de uma inscrição. Ao contrário não, como o seu negativo.

Escrevi terramoto e ativei a ideia de urgência, da necessidade inadiável de fazer algo ou de ter algo, que coabita com a escassez do recurso tempo. A urgência desperta a agilidade. No caso da saída de emergência, senti o coabitar com a urgência sem aflições nem agressões, como se o tempo não fosse afinal um recurso escasso, mas uma condição infinita, sendo também as suas manifestações imprevisíveis e imensuráveis.

Meridianos e paralelos, referências que não toco mas que me guiam. Como é interessante que aquilo nos situa e tranquiliza, é justamente aquilo que não é matéria que possamos adquirir, guardar, possuir, proteger. Desejar possuir um trópico é como querer ter um vão em vez de querer ter o que o vão permite ver. Como um trópico e a viagem ao centro do (meu) mundo.

 

 

O assunto encerrado?

Aquilo que poderia ser um texto sobre uma exposição, tornou-se, ou é também, uma viagem mental por entre as muitas dimensões do coabitar.

É encantador que esta exposição tenha provocado tal coisa. É especial quando isso acontece.

Podemos então coabitar e sentir-nos longe. Ao mesmo tempo, isto prova que coabitar não se actualiza apenas na dimensão tangivel, definida e visível da partilha de um espaço ou de uma condição. Terá a ver com conectar. Ou pelo menos, eu quero que assim seja, ainda que seja impermanente, tal como esta exposição me contou e tal como também o é.

Voltando ao conectar, insisto neste ponto, talvez por ser para mim, para a minha realidade interior, o mais titânico dos empreendimentos. O dentro e o fora, incluir-me e excluir-me, ser parte e ficar à parte - é a constante dança que opera em mim, arrisquei e chamei-lhe dança, pressupondo alguma harmonia.

Também me inquieta que o natural, esse aspecto primordial, verdadeiro, valioso da nossa existência e da condição humana, desde os tempos anteriores aos tempos, seja realmente o combustível para a maior das desconexões, baseado na convicção errônea de que o fora é diferente do dentro, de que não existe o fio invisível e inalterável que me liga a ti, a ti e a ti. O ti podes ser tu Andrea, tu Lia, tu montanha, tu medo. O fio não só liga, como faz parte do que sou, e por conseguinte, do que tu és. No fundo, tudo é tudo.

Voltando, e terminando, na maré, à maré. Ela vai e vem, é indubitavelmente justa e apropriada, e equilibrou, relembrando que eu sou reflexo de tudo, que por sua vez é um reflexo de mim.
Então, eu igual a tudo, tal como uma semente que é fruto, mesmo antes de o ser.

Tal como o latente e o manifesto, um só, num só coabitando, mesmo que não se queira ver.

 



ANA FILIPA FERNANDES