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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Absolute Duration. Fotografia: Michael Huey.


Absolute Duration. Fotografia: Michael Huey.


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MIGUEL BRANCO / MICHAEL HUEY / WOLFGANG WIRTH

ABSOLUTE DURATION




CARPE DIEM ARTE E PESQUISA
Rua do Século, 79 Bairro Alto
1200-433 Lisboa

29 ABR - 24 JUN 2017


 

 

 

Transience value is scarcity value in time. Limitation in the possibility of an enjoyment raises the value of the enjoyment. It was incomprehensible, I declared, that the thought of the transience of beauty should interfere with our joy in it. As regards the beauty of Nature, each time it is destroyed by winter it comes again next year, so that in relation the length of our lives it can in fact be regarded as eternal.
Freud (1957). On transience. London: The Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, p. 305.

 

 

Absolute Duration ecoa a «transience of beauty» do ensaio On Transience, de Sigmund Freud, por percepcionarmos, numa experiência estética desconcertante, a temporalidade de um espaço efémero, degradado e decadente.

 

A beleza de Freud revela a sua efemeridade, que a leva à destruição. O valor da transitoriedade da Natureza e da Arte evidencia o estado psíquico do observador, por se encontrar numa experiência de luto e de dor, onde a obscuridade não lhe permite usufruir da beleza eterna das coisas-em-si.

 

Wolfgang Wirth, Miguel Branco e Michael Huey expressam análoga transitoriedade do espaço, da beleza e do ser humano, numa «instalação caleidoscópica», segundo afirma Lourenço Egreja. Convergem diferentes linguagens conceptuais – entre instalação, objectos e fotografias – na Galeria Carpe Diem Arte e Pesquisa, Palácio Pombal, Lisboa. Quando percorremos as várias salas, temos constantemente a presença da efemeridade, da perda e de uma beleza quase desvanecida do espaço. Da memória da grandeza e da magnitude arquitectónica, os artistas evocam o inatingível.

 

O artista austríaco Wolfgang Wirth alarga o espaço de ruína a imagens reflectidas, alterando-as em percepções distorcidas de uma dimensão real, tal como percepcionado na instalação Spiegelkabinett, 2017. Através das imagens “espelhadas”, Wirth cria uma expansão da efemeridade, onde a limitação temporal se torna inevitável. A transitoriedade permite-lhe captar o espaço, segundo um sistema psíquico e visual que dialoga com os outros artistas.

 

A transitoriedade da beleza, do artista português Miguel Branco, lembra-nos o sentimento do sublime de Edmund Burke, pela obscuridade e efemeridade de todas as coisas. Numa contemplação da Natureza, nas obras Untitled (Air) #1, #2, #3 e #4, 2012, surgem insectos translúcidos, em grande formato, numa dimensão perturbadora pelo estado espacial do Palácio Pombal. A desconcertante experiência estética suspende a decadência arquitectónica, em contraponto com a “eterna beleza”, renunciando, desta forma, o luto, e exaltando a beleza das coisas-em-si.

 

Na última sala, intitulada de Boy’s Room, 2017, com Damage Boy, 2014, encontra-se o artista norte-americano/austríaco Michael Huey, que pesquisa, arquiva e percepciona imagens referentes à memória. As paredes estão revestidas de fotografias de um jovem rapaz (1920). Trata-se de um espaço nostálgico e melancólico, mas trágico. Tudo foi renunciado, perdido e desintegrado para ser recuperado. Da fragilidade das emoções e das memórias pessoais e colectivas, Huey reconstrói a herança perdida. Na sala anterior, estabelece semelhante diálogo entre a sua obra, o espaço e o artista português Miguel Branco, Untitled (Air) #4, 2012. Cria um «Specific Object», um cubo revestido com as memórias encontradas do arquivo de família, intitulado Big Diary nº 1 (1958-1963), no qual descobre uma vida oculta. O artista, no seu trabalho, reutiliza vários documentos referentes a um passado esquecido, o que lhe permite transmutar a memória individual em colectiva, reabilitando-a através de um processo conceptual.

 

O espaço, a beleza e a memória desvela a transitoriedade, a limitação temporal, a que todas as coisas estão condicionadas. Por mais que o ser humano queira usufruir e percepcionar o deleite e o prazer da «transience of beauty» e tornar a beleza perene, tal só é possível por um instante. Absolute Duration está condenada à evanescência. Recordamos, desta forma, Sigmund Freud (1957: 306):

 

A flower that blossoms only for a single night does not seem to us on that account less lovely. Nor can I understand any better why the beauty and perfection of a work of art or of an intellectual achievement should lose its worth because of its temporal limitation.

 



JOANA CONSIGLIERI