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Vista da exposição.


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COLECTIVA

EXPOSIÇÃO / COMPOSIÇÃO, VARIAÇÃO Nº2




GALERIA VERTICAL DO SILO AUTO
Rua de Guedes de Azevedo, 180
Porto

31 MAR - 25 JUN 2017

VARIAÇÕES DE UM CINZENTO LÚCIDO

 


Se cada exposição cria, inevitavelmente, um percurso, Exposição / Composição, Variação nº 2 é uma exposição com um percurso particular: na vertical - o pensamento de quem vê também se exerce nos glúteos. Uma exposição / composição onde a forma, articulada pelos curadores Luís Albuquerque Pinho e Luís Pinto Nunes, está presente na própria constituição da exposição: a criação de um todo, com um limite marcado e uma harmonia estabelecida. Um coro.

Em forma, encontramos implícito as suas variações, como variações de estar: a variação do espaço (forma) expositivo; a variação do percurso (forma) expositivo; a variação do processo (forma) expositivo – bastante forte para especulação retórica, isto, de expôr para cima e em contínua espiral - variação do público; variação do conforto e do confronto. Entre peças e autores e obras e público: variações na voz, variações no lugar do dito – que tornadas um todo – se conjugam na voz plural que uma exposição colectiva é, dando a ver uma forma (variação) inteira e una, a número dois.

E mui importante será lembrar que forma=conteúdo, sempre.

Variações de um cinzento-nostalgia:

sete vezes cinzento (branco e beje muito, muito claro, MATE MATE: como escreve- diz na sua voz, Cristina Mateus)

A cada si, a sua pedra – a que rompe as suas janelas, a que parte os vidros antes de fugirmos.

Estamos todos tão sóbrios

que estamos todos tão lúcidos

que todos estamos conscientes:
é uma exposição melancólica.

E melancolia não carrega a nota de um tom moral. É só triste, triste como uma condição de estado. É lúcida, e por isso é triste. A cada piso, um grito. A cada piso um silêncio. Um grito-silêncio paradoxal, que energiza as condicionantes do mundo – do estado – para dar a ver, com uma delicadeza polida, onde estamos, como vivemos, o que acabou, quais as nossas nostalgias, as nossas partilhas. Variações no2 é da cor do Porto, cidade de uma nostalgia sempre em potência, com esse tom tão próprio que é este de vivermos ainda num estado de resignação.

7,6,3,5,4,2,1 go...

No último piso expositivo, reservado a Maria Trabulo (Porto, 1989), podemos assistir à catalogação de uma data, o 14 de Novembro de 2012. Nesse dia, junto à Assembleia da República em Lisboa, ficaram registadas várias marcas de quebras no pavimento, resultado de uma força colectiva. Este Monumento ao Protesto, como refere o texto que introduz a obra, preserva o protesto, e sua a censura ao guardá-lo a chumbo. Ao preservá-lo, cataloga-o. Para o lembrar, cristaliza-o: matéria inerte com potência dentro.

No piso abaixo, o sexto andar desta Galeria Vertical, Andreia Santana (Lisboa,1991) traz-nos o fim como um início – tal como a minha escolha de começar o percurso na decrescente - onde a colaboração com os antigos trabalhadores da extinta fábrica de sabão, em Lisboa, na criação de uma peça que é, à semelhança de Maria Trabulo, um gesto colector de memória. Quoting Exercises on Disappearance torna presente uma força colectiva no processo de produção de um conjunto de peças em glicerina - reprodução do varandim do miradouro - a única construção que ainda resta da antiga fábrica. Os trabalhadores, durante o seu período de trabalho, produzem o sabão que, inevitavelmente, se vai transformar naquele que utilizam para “lavar as mãos”. O exercício da produção é, simultaneamente, o exercício do esquecimento. Quoting Exercises on Disappearance carrega perguntas: quem são os protagonistas ou agentes nestas desaparições? As forças colectivas ou os espaços? Caminhamos todos – protagonistas de cíclicas desaparições – para um lugar onde somos memória- reprodução de nós próprios, força humana?

Cristina Mateus (Porto, 1968) pergunta-nos palavras para quê, agarrando-se a elas. Até aos dentes. É onomatopaica a viagem de olharmos o vidro expiatório.

Um dentro-fora especulativo, que nos lembra não só de onde estamos – uma exposição dentro de um parque de estacionamento – como nos atira à cara esta falta de sentido que é sermos seres de linguagem, quando as palavras são tão pouco face ao mundo.

A.B.C. comporta um jogo interno de questionamento que é, sobretudo, auto-crítico: “A representação afasta-se sempre da realidade. É um processo de compensação”, escreve Cristina Mateus no texto que acompanha a obra. E no entanto, aqui estamos, neste limbo de tornar presente, voltar a tornar presente, este pensamento sobre o próprio ser-presente.

A.B.C.: um início que é uma sigla. Então, um início que é vários inícios e que, por aí, nos inicia erradamente. Z. ZzzzzZzzzzzZ. Z.z. Não há hipótese, já estamos aqui (na linguagem).

Que não é o mesmo tom que Fernando José Pereira (Porto, 1961), com as suas faixas protesto-manifesto, entre o argumentativo e o afirmativo, usa: HERE WE STAND. WE HAVE NO CHOICE. Com um fatalismo duro, e muito menos lirismo do que todos os outros andamentos (da composição que esta Variação nº2 é), representa (e, lembre-se a salvaguarda de Cristina Mateus) uma não esperança, que ainda assim nos deixa ler o ciclo: extermínio-luto- protesto-tudo-after. E apesar disso, ainda há espaço para ser pensado o que é isto do Depois (Everything is White Noise): pode a obra como imagem ou metáfora, almejar significar que

estamos já todos no after, no mesmo plano de composição? Deambulantes sibilantes do Depois? Vozes assimiladas num todo informe?

Ou seremos, como as próprias figuras de Vera Mota (Porto, 1982), ímpares, com os nossos limites recortados contra planos, grelhas, esquemas: toda a pele esticada contra a estrutura estática, analítica, cerebral? Até o trabalho de Vera Mota, habitualmente tão auto-referente na sua exploração matérica, de cor, de formas – assuntos próprios à pintura e a quem a trabalha e pensa ainda -, partilha no conjunto deste cinzento, a cor de uma politização discursiva. Não sei se estaremos, já não a medir a forma que o couro carrega (grelha como ferramenta primeira do desenho), mas a nossa própria pele – nós, animais, esticados, subjugados a planos, esquemas e pressões de uniformidade.

Os olhos carregam-nos sempre respostas: se é cansaço, fúria ou encantamento. A luz que Luís Luz (Évora, 1987) evoca traz também a sua nota: tornar manifesto. E na mesma linha de cinzento de onde se começou uma leitura das obras, é importante referir que – sabendo ou não se quando os nossos olhos se tocam é dia ou noite (como pergunta Luís Luz no texto que acompanha a obra), a luz que carregamos neles – que são as afecções e afectos – é uma arma política. As mudanças profundas dão-se ou revelam-se também no lugar da nossa privacidade. E se estes estores podem controlar uma luz física, poderão também ser metáfora de um outro controlo lumínico. Uma nostalgia da intimidade, como se algo perdido dos olhos – a luz - nos deixe ver ainda a possibilidade de sermos (essa outra luz que não a luz).

Primeiras e últimas escadas, um ruído que não é branco.

O vídeo intitulado O Cego e a Cidade, de Mauro Cerqueira (Guimarães, 1982), é pontuado pelo som de um cego que apalpa o céu para saber por onde andar, porque, ao contrário do que nos vendem, a cegueira é lúcida. O céu citadino tem os seus limites: e aqui são vitalmente expressos. Em imagem: um tecto, uma ruína, uma decoração burguesa, um pau. A amputação de um sentido torna vívidos todos os outros. E é também quando estamos na eminência que o céu nos caia em cima que percebemos este potencial efectivo de mundo: uma coisa que é todas as coisas, um resto de persiana – que já não remete a nada do seu uso corrente – é uma Trepadeira.
Foi sempre em vida que se perceberam – e mais do que perceber, se compreenderam - os princípios fundamentais da reciclagem.

A curadoria da Exposição / Composição, Variação nº2 mostra-se sensível ao mundo nas suas inúmeras vertentes, com uma nota cinza-político que é o sinal dos tempos de um existir artístico, que sabe onde está, que coloca o crer no mundo e o transpõe para um exercício estético, meio lírico, meio alienado-sonhador. São precisos sonhos, ainda, ou sobretudo. Re-estruturando a pergunta; ainda há luz no nosso olhar recíproco; ainda há fulgor no nosso olhar o mundo?

Às vezes, vê-se o cheiro a fumo; às vezes, o calor em ilustrações de incêndios; às vezes, é já só florestas ardidas. Esta exposição convoca isso mesmo, o cheiro visual, melancólico, de uma floresta ardida. O triste que isso desperta subleva-se como esperança - aqui, no espaço de sobriedade - de um novo início possível. Creio que é sobretudo a esse sinal que estes artistas nos deixam que é preciso

atentar: é preciso acreditar no poder renovador das cinzas e não levar do cinzento uma resignação, mas a consciência, apenas. Estamos atentos, estamos lúcidos e, citando o poeta Alberto Pimenta: “É nessa lucidez que também entendemos que a / a situação é esta: a situação é esta. a situação é / isto: isto é a situação. isto é: a situação. isto é: / tudo isto. tudo isto é: uma maneira de estar: isto / é: a situação. a situação é uma maneira de dizer: / isto. outra maneira de dizer isto: é dizer: isso. / tudo isso é: isto: uma maneira de estar. / outra maneira de dizer: isso: é dizer: aquilo. aquilo que é / outra maneira de dizer: a maneira de estar. aquilo / que estamos é: a situação: aquilo que somos nós em / relação ao que não somos é a situação: isto é: isto.”

 



CATARINA REAL