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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Claudia Andujar_Rua Direita, 1970


Igor Vidor - Operação Camanducaia


Jardim da Piscina. Fotografia: Marina Burity


Piscina. Fotografia: Marina Burity


Rodrigo Bueno, Sofa Mata a Dentro. Fotografia: Marina Burity


SP não é uma cidade. Fotografia: Marina Burity


Vanderlei Lopes, Catedral. Fotografia Resolução - Galeria Marília Razuk

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JULIA FLAMINGO

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LUÍS RIBEIRO

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JAHMEK CONTEMPORARY ART, Luanda
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FLUVIAL


Módulo – Centro Difusor de Arte (Lisboa), Lisboa
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GERMINAL


Galeria Municipal do Porto, Porto
CONSTANÇA BABO

ARQUIVO:


COLECTIVA

SÃO PAULO NÃO É UMA CIDADE - INVENÇÕES DO CENTRO




SESC 24 DE MAIO
Rua 24 de Maio, 109
São Paulo - SP, 01041-001, Brasil

19 AGO - 28 JAN 2018

POLIFONIA DA METRÓPOLE

Numa megalópole de 21 milhões de habitantes como São Paulo, realidades pessoais são construídas com tamanha distância geográfica, social, cultural e financeira, que não é incomum a impressão de que um paulistano de outro bairro parece mais ter vindo de outro país. São principalmente em regiões como o centro da cidade onde se encontram moradores dos seus quatro cantos: por suas ruas borbulhantes passam diariamente milhares de pessoas das mais divergentes realidades, proporcionando que diferentes narrativas se encontrem e convivam.

Foi nesse cenário, entre as ruas 24 de Maio e Dom José de Barros, que o Sesc ergueu, em agosto, sua 21a unidade paulistana. Num projeto assinado pelo ganhador do prêmio Pritzker Paulo Mendes da Rocha, o prédio vinha sendo reformado há oito anos com o intuito de transformar o edifício de 1941, que abrigou uma loja de departamentos até os anos 1990, num espaço democrático de lazer. Para além de uma piscina na cobertura com vista privilegiada da cidade e rampas feitas de concreto que ligam seus treze andares, a ênfase do projeto está nas fachadas envidraçadas: no lugar de isolar, elas aproximam quem passeia pelo edifício do cenário heterogêneo do seu exterior.

Para a mostra de abertura, um título emblemático: São Paulo não é uma cidade. A afirmação sustenta a tese de outro Paulo, o Herkenhoff, e do também curador Leno Veras, que se inspiraram no pensamento de Vilém Flusser. Este filósofo nascido em Praga viveu na capital paulistana durante mais de trinta anos e dizia que São Paulo é um conglomerado monstruoso que há tempos abandonou sua unificação e centralidade. O título da exposição também confere outra interpretação sugestiva: a de que São Paulo não é apenas uma - mas várias - cidades. “Quisemos abandonar o pensamento de uni(cidade) e adotar a ideia de multipli(cidade)”, conta Veras brincando com o jogo de palavras. Numa curadoria elegante e bastante trabalhosa, ele e Herkenhoff selecionaram 400 peças assinadas por 150 nomes e as dividiram entre aproximadamente trinta núcleos que abordam temáticas como raízes afro-brasileiras, os indígenas, a prostituição, os moradores de rua, a imigração, a identidade de gênero e as drogas. Numa narrativa sem hierarquias entre diferentes tipologias de objetos - documentos, fotografias, mapas, cartas, obras de arte, utensílios, entre outros, são apresentadas com a mesma força – a mostra constrói uma enciclopédia visual de São Paulo.

É desta maneira que sem início, meio ou fim pré-estabelecidos, os núcleos focam-se principalmente na microhistória - aquela contada a partir da visão de qualquer indivíduo – seja ele um pintor, performer, pesquisador ou habitante. “Passei seis meses acompanhando o processo de finalização do edifício. Morei no centro e convivi com seus habitantes para entender quais as principais questões sociais e politicas que não poderiam ficar de fora da exposição”, conta Leno Veras, que se mudou temporariamente do Rio de Janeiro para a imersão. Foi daí, por exemplo, que nasceu a ideia de construir ambientações sonoras a partir da polifonia de sons captados nas ruas. “A visualidade da cidade já estava presente na mostra por conta da arquitetura do prédio. Quisemos, também, que a paisagem sonora estivesse contaminada e o visitante fosse estimulado por todos os lados, como realmente acontece em São Paulo”, acrescenta o curador.

Capítulos históricos emblemáticos como o Foto Cine Clube Bandeirante conferem um tom didático à mostra. As fotografias tiradas por nomes como Thomas Farkas, Gaspar Gasparian e Geraldo de Barros, por exemplo, quebraram os paradigmas da estética fotográfica no Brasil, principalmente nas décadas de 1940 e 1950. Modernistas como Lasar Segall, Candido Portinari, Brecheret ou o escritor Mário de Andrade, que repensaram a pintura e literatura brasileiras, também não poderiam ficar de fora. Os imigrantes são representados em obras como os desenhos de Mira Schendel feitos com pastel e folhas de ouro e prata. O nome da artista está internacionalmente ligado à arte brasileira, mas ela nasceu na Suíça: o que seria de São Paulo sem seus imigrantes e, atualmente, sem seus refugiados?

No que concerne a arte contemporânea os trabalhos mais destacados são, sem dúvidas, aqueles feitos especialmente para a exposição. Jaime Lauriano criou um mapa que é alimentado durante todo o período da mostra e reconstrói memórias afro-brasileiras a partir de locais desta cultura que foram destruídos no passado. São Paulo imperial: escravidão, cativeiros, monumentos e apagamentos históricos relembra, por exemplo, que onde é hoje um parque nipônico, no bairro da Liberdade, já foi um pelourinho. Já Igor Vidor vem conversando com pessoas em situação de rua e coletando pedaços de tecidos de roupas para representar a Operação Camanducaia, que dá título à obra. Ela foi uma ação da polícia que tentou se livrar de 93 crianças e jovens no ano de 1974, durante a Ditadura Militar. Eles foram forçadamente transportados para outro estado, onde foram torturados e suas roupas e documentos queimados - 55 deles nunca mais foram vistos. Ainda na leva de trabalhos de denúncia, Giselle Beiguelman apresenta a videoarte Odiolândia, que reúne comentários de ódio feitos por internautas na página do prefeito João Doria depois de sua primeira intervenção na cracolândia (área de grande concentração de usuários e traficantes de crack). Sem qualquer imagem - apenas frases de letras brancas que aparecem sobre um fundo preto - a artista enfatiza o conservadorismo e preconceito de indivíduos que, maioritariamente, apoiam o uso da força e de armas de fogo contra os dependentes. Em tempos em que a comunicação entre grupos diferentes está cada vez mais ruidosa e intolerante, a mostra relembra a importância de perceber o outro como ponto de partida para uma nova ocupação da cidade.

 

Julia Flamingo
Nascida em São Paulo, Brasil, é formada em Jornalismo e História. Colabora como repórter de artes visuais para veículos nacionais e estrangeiros. Trabalhou como repórter e crítica de arte da revista Veja São Paulo entre os anos de 2015 e 2017, foi assistente de comunicação do Instituto de Cultura Contemporânea e assessora de eventos como SP-Arte e Bienal de São Paulo.

 

 

 



JULIA FLAMINGO