Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Fundação Calouste Gulbenkian.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Fundação Calouste Gulbenkian.


Josefa de Ayala (Josefa de Óbidos) (1630-1684), Agnus Dei, não datado. Óleo sobre tela. Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo – Museu de Évora. Fotografia: DGPC/ADF. José Pessoa


Fotografia de Jorge Molder da ação Rotura realizada por Ana Hatherly em 1977 na Galeria Quadrum, Lisboa. Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna


Ana Hatherly, O Encontro, 1997. Tinta da China sobre papel. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna. Fotografia: Carlos Azevedo


Ana Hatherly, Os anjos suspensos, 1998. Tinta da China sobre papel. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna. Fotografia: José Manuel Costa Alves


Ana Hatherly, Sem título (série «paisagem interior»), 1972. Tinta da China sobre papel Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna. Fotografia: Paulo Costa

Outras exposições actuais:

CATARINA LOPES VICENTE

DESENHOS


Teatro da Politécnica - Artistas Unidos, Lisboa
CATARINA REAL

COLECTIVA

AFRICAN PASSIONS


Palácio Cadaval, Évora
MARIA LUÍSA FERRÃO

EDUARDO FONSECA E SILVA E FRANCISCA VALADOR

SUBTERRÂNEO


Museu Geológico - LNEG , Lisboa
CATARINA REAL

COLECTIVA

A TALE OF INGESTION


Monitor, Lisboa
BRUNO CARACOL

ANISH KAPOOR

ANISH KAPOOR: OBRAS, PENSAMENTOS, EXPERIÊNCIAS


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CONSTANÇA BABO

FERNÃO CRUZ

Long Story Short


Balcony, Lisboa
CATARINA REAL

JOÃO MARÇAL

INNER 8000er


Museu da Cidade - Pavilhão Branco, Lisboa
CATARINA REAL

MICHAEL BIBERSTEIN

MICHAEL BIBERSTEIN: X, UMA RETROSPETIVA


Culturgest, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

PEDRO TUDELA E MIGUEL CARVALHAIS

ANOTAÇÕES SONORAS: ESPAÇO, PAUSA, REPETIÇÃO


FBAUP - Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto
LUÍS RIBEIRO

THIAGO MARTINS DE MELO

BÁRBARA BALACLAVA


Maus Hábitos - Espaço de Intervenção Cultural, Porto
CONSTANÇA BABO

ARQUIVO:


ANA HATHERLY

ANA HATHERLY E O BARROCO. NUM JARDIM FEITO DE TINTA




FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
Av. de Berna, 45 A
1067-001 Lisboa

15 OUT - 15 JAN 2018


 


Da Poesia ainda que o tempo, ou a repetiçaõ despoje a primeira flor, contudo se a elegancia do conceito naõ era superficial, ficaõ vivas além do exemplo as memorias que celebrou seu metro.

Padre J. B. de C., in Hatherly (2003). Poesia Incurável. Aspectos da Sensibilidade Barroca. Lisboa: Editorial Estampa, p. 76.


 


Nenhuma poesia ou prosa barroca é inocente, nem mesmo a obra de Ana Hatherly, que, de certo modo, apreciamos através das suas palavras: «desdobra-se como lâminas de um leque, uma imagem que adequadamente descreve o progresso da leitura que proporciona» (Hatherly, 2003).

A artista concebe um território labiríntico que pressupõe um discurso estético e, por sua vez, dá a conhecer uma sensibilidade neobarroca na contemporaneidade. Através de Deleuze também contemplamos o pensamento filosófico barroco, enquanto dobra, na sua obra A Dobra: Leibniz e o Barroco (1988). Todavia, no seu discurso, sentimo-nos dilacerados pela sua perceção, na medida em que transcende o Barroco e Leibniz. A dobra reflete o próprio pensamento, «como ele se dobra». A complexidade desta leitura coloca-nos, enquanto leitores, nas variáveis da diversidade, porque cada uma incorpora uma outra.

Esta riqueza de “ordem das palavras” que define o discurso estético barroco permite a um encadeamento de metalinguagens que se projetam na exposição, enquanto «exposição-ensaio», na Coleção do Fundador e Galeria Piso Inferior do Museu Calouste Gulbenkian.

O “ensaio-científico”, enquanto obra de arte e pensamento literário, origina um discurso estético espiralado, tal como poderemos constatar através do pensamento da artista: «Um labirinto onde tudo gira à volta da escrita». Portanto, espectador é conduzido a uma «conversa» ilusória e labiríntica entre a obra plástica de Ana Hatherly e o seu pensamento erudito, bem como entre a contemporaneidade e o Barroco. A inovação e a tradição. Pintura e poesia, desenho e literatura, ou uma série de projeções e leituras possíveis e imagináveis. Num movimento contínuo. Jogos múltiplos e abertos, que se desconstroem, para dar lugar a uma outra leitura e interpretação.

Dialogam entre si num pensamento erudito, cuja fronteira ténue une os diferentes laços. Na morte, na alegoria, na imaginação e na ilusão. Delineia-se mapas de um pensamento reflexivo, em que a sua fruição nos é concedida pelo curador Paulo Pires do Vale, na entrevista do Museu Calouste Gulbenkian (2017, p. 12): «(…) o Labirinto e as suas dobras sobre dobras; o Tempo, e consequentemente aposta paradoxal no Jogo e na Morte; a Alegoria, e a folia da interpretação que promove; e a Metamorfose entre pintura e poesia, entre desenho e escrita.»

Ana Hatherly cruza esta obliquidade de possibilidades da interpretação e da reflexão, bem como o modo de sentir e de estar no espaço e no tempo, enquanto dobra. Todavia, a perceção e o entendimento da obra da artista na contemporaneidade são também desvendados por Paulo Pires do Vale, cujas linhas se espelham em variadíssimos diálogos: «As dobras sobre dobras que tornam o labirinto múltiplo» (cf. texto do site do Museu Calouste Gulbenkian). As dobras ressoam a dicotomias barrocas entre violenta sátira e sensibilidade, espiritualidade e erotismo. De certo modo, Paulo Pires do Vale incita-nos a este complexo mundo, rico em beleza e sensibilidade: «O impulso alegórico espiritualiza o sensível e sensualiza o espiritual. No Barroco, onde impera a visão, o pintor é um pregador.». (cf. texto do site do Museu Calouste Gulbenkian). Um pensador e um retórico.

A artista cria e reinventa a linguagem entre signo e imagem. Em torção e contra-torção, dobram-se as linhas em tinta-da-china [Sem título, 1972. Tinta-da-china sobre papel] ou em «mapas e memórias» de formas voláteis que nos lembram as «pregas dos panejamentos» [Sem Título da série Mapas do Mundo, 1970, aguarela e tinta-da-china sobre papel]. Hatherly torce palavras, linhas e formas, gerando outras iconografias ou «textos visuais».

Todavia, a artista deriva para outros universos literários e científicos. Remete-nos para uma outra “metáfora”. A lírica barroca, pela fugacidade quase burlesca da poesia. Em A romã, 1971, sentimos o gosto pela alegoria, que se multiplica. A simbologia das flores e frutos, cuja feminidade e sensibilidade erótica realçam a composição pictórica, aparece constantemente na poesia barroca. Numa experiência estética, contemplamos e deleitamo-nos com Os anjos suspensos, 1998, ou as obras de Josefa de Óbidos, a título de exemplo Agnus Dei, 1630-1684.

Em torno deste movimento infinito, a dobra, enquanto pensamento, deslumbra outros caminhos. Sejam eles quais forem, continuam a ser dirigidos a um pensador ou fruidor erudito. Numa outra experiência estética, surpreendem-nos outras dobras sem fim, em gestos incertos e provocativos.



JOANA CONSIGLIERI