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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Alegoria, 2018. Instalação com projeção de dispositivo, pintura, escultura e placa mdf. Fotografia: Cortesia Espaço Mira.


Vista da exposição Alegoria, 2018. Instalação com projeção de dispositivo, pintura, escultura e placa mdf. Fotografia: Cortesia Espaço Mira.


Vista da exposição Alegoria, 2018. Instalação com projeção de dispositivo, pintura, escultura e placa mdf. Fotografia: Cortesia Espaço Mira.


Pormenor de Verónica e Valentina, A crescer a olhos vistos, 2010. Escultura em madeira pintada e desenho. Fotografia: Cortesia Espaço Mira.


Inauguração da exposição Alegoria, 2018. Instalação com projeção de dispositivo, pintura, escultura e placa mdf. Fotografia: Cortesia Espaço Mira.


Inauguração da exposição Alegoria, 2018. Instalação com projeção de dispositivo, pintura, escultura e placa mdf. Fotografia: Cortesia Espaço Mira.

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ARQUIVO:


ARLINDO SILVA E SÓNIA NEVES

ALEGORIA




ESPAÇO MIRA
Rua de Miraflor n.º 159
4300-334, Campanhã, Porto

17 MAR - 21 ABR 2018

DO LADO DE DENTRO

 

 

“Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida”.

Esta frase é dita por Sophia de Mello Breyner Andresen, no filme com o seu nome, realizado em 1969 por João de César Santos [Monteiro], assistido por Jorge Silva Melo. É uma definição do documentário e poderia constituir uma declaração programática do realizador. Ocorreu-me quando estava na exposição Alegoria, de Arlindo Silva e de Sónia Neves, no Espaço Mira, na cidade do Porto. E uma outra: “Eu não acredito na biografia que é a vida contada pelos outros”.

Se não cremos na biografia, por ser uma visão exterior à vida, poderemos confiar na auto-biografia? Ou seja, na vida contada pela obra própria? Também não. Na verdade, apenas poderíamos acreditar numa obra que não conta a vida, antes lhe é consubstancial.

O que nos espera, naquele espaço da zona de Campanhã, é uma proposta artística que coincide com a vida, que a incorpora como parte integrante e irredutível, dizendo-nos que a arte não é sobre ou a partir da vida, mas que se faz com, em, dentro da vida. A relação é umbilical, o que nos leva ao tema desta Alegoria.

É necessário descrever a instalação: há três presenças na galeria, uma presença feminina no diapositivo projectado, auto-retrato de Sónia Neves, intitulado Mar/Mãe; uma presença masculina no auto-retrato pintado, de Arlindo Silva, intitulado Grisalha; uma presença infantil nos registos gráficos de duas crianças, Verónica e Valentina, as filhas de Sónia e Arlindo, intitulada A crescer a olhos vistos.

A exposição decorre num espaço escurecido, reservado, voltado para o interior. O painel que sustém a pintura separa-o do exterior, quebrando a luz e barrando o acesso directo a partir da rua. É preciso contorná-lo para observar, do lado de dentro, o auto-retrato. Logo a seguir, no meio, está a figura feminina, projectada nas duas faces de um suporte suspenso do tecto, o que lhe permite estar simultaneamente orientada para as outras duas presenças. É ela que relaciona os termos desta tríade e é a ela que o nosso olhar se dirige em primeiro lugar, uma vez que é dessa imagem que parece emanar a única luz deste espaço. Finalmente, o terceiro elemento é um plinto com desenhos, rabiscos, à maneira de doodles.

Embora os dispositivos estejam sequencialmente colocados, o sentimento deste lugar não é da ordem do linear, a sua experiência remete para um núcleo. Este é um lugar uterino e é a sua configuração que relaciona as presenças identificadas. A instalação ignora as paredes em redor, abandona os limites do espaço, converge para um centro, que é, portanto, alegoria do lugar íntimo que aqui se celebra.

A presença da mãe é recorrente na obra de Arlindo Silva e o estado íntimo é recorrente na pesquisa de Sónia Neves. Mas, nesta proposta, esses tópicos ampliam-se, ganham contornos integrais e estendem-se ao núcleo familiar, fundamento e fonte, também da arte. Por isso, a pintura remete-nos para a condição do artista e o diapositivo devolve-nos um estado de maternidade (ou vice-versa?).

Da leitura simbólica da instalação deve, finalmente, sublinhar-se a sua autoria partilhada porque, no limite, só dessa cumplicidade poderia nascer o registo de intimidade, transparência e nudez que testemunhamos.

Procurei acentuar a ideia de um trabalho como respiração e sopro de vida, tal é a naturalidade que o atravessa. Omiti deliberadamente a construção das imagens expostas e a contemporaneidade emblemática desta obra, evidentes em questões como a presença do corpo, a figuração, a representação ou o género. Omiti, ainda, a ambiguidade de valores, entre o delicado e o áspero, e as relações complexas entre alegoria e realismo que a proposta desperta.



LAURA CASTRO