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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia: Frederico Brízida


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EDUARDO FONSECA E SILVA E FRANCISCA VALADOR

SUBTERRÂNEO




MUSEU GEOLÓGICO - LNEG
Rua Academia das Ciências, Nº. 19 – 2º (à Rua do Século)
1249-280 Lisboa

18 AGO - 31 AGO 2018

Subterrâneo de Eduardo Fonseca e Silva e Francisca Valador

Na impossibilidade de seguir em frente, o ser, que não salta nem voa, cava um buraco para continuar o seu caminho. Na sua travessia subterrânea a luz vai-se dissipando até dar lugar à escuridão. Agora, o ser passa pelas trevas e experimenta algo que há muito não sentia – o desconhecimento. Sendo familiar, sereno, acolhedor, é também o lugar da inércia e da passividade. Vida, ritmo, qualquer movimento é tão subtil quanto inexistente. A passagem pela sombra absoluta activa a sua consciência e não se lembra de tal jamais se ter passado. Toda a memória se torna clara e, mais clara ainda, se mostra a saída de regresso à superfície. O ser sabe, está diante do porvir.

Eduardo Fonseca e Silva e Francisca Valador.

 

 

Eduardo Fonseca e Silva (Lisboa, 1993) e Francisca Valador (Lisboa, 1993) dão-nos a ver uma exposição cheia de mistérios, contrastes e balanços. Como se não nos quisessem contar a história que, de facto, nos contam. Sobre a alcatifa ocre peças escuras aparecem, evocando mitos, histórias e narrativas que vagamente reconhecemos. Como uma miragem. Ou um nevoeiro. Cruzam referências comuns – algo que poderia ser a trança da Rapunzel, o coelho da Alice, a alegoria da caverna e todas as histórias em que a astúcia vence a prepotência - e chamam-lhes Olhos Vermelhos, Toca, Minhoca, Tronco, Focinho, Lenha, Ilha, Garra, Trança... que é exactamente o que eles são. Mas também não. Pode ser visto como infantil este jogo de contar claramente uma história sem contar claramente a história, sublinhado por carregar referências a uma ideia unívoca de moralidade – consciente ou inconscientemente – quando se trazem muitos binómios à equação. Desce-se para subir. Tudo está aparentemente controlado. E nada parece muito urgente. Cava-se para descer.

Quando em frente é impossível, este ser (o mesmo de que nos falam Eduardo e Francisca no texto que acompanha a exposição) - que talvez ande ou talvez rasteje ou talvez se arraste mas que possui capacidades para escavar e, associado ou não a estas capacidades, possui também sentimentos – sabe que frente não é uma direcção unívoca.

Daí para a frente, esse ser inicia o seu percurso pelas trevas, desconhecidas: o paradoxal escuro lugar da inércia e da passividade, familiar e sereno e acolhedor, dizem eles. Como este ser, e fruto destas associações, experiencio algo que há muito não sentia: perplexidade. Numa cultura de movimento nocturno a expectativa seria a de que os buracos escuros fossem vistos de uma forma muito menos onírica. Mais corpóreos e suados. Frenéticos, eléctricos e dinâmicos. Que o escuro que esse ser encontra não fosse assim tão desconhecido. E que continuar qualquer percurso pelo escuro e pelo subterrâneo fosse passar por caves com música e gente. Mas nem por isso familiares. Mais aliciantes. Céu-terra, escuro-claro. Inevitáveis por si só, os contrastes entre ideias estáticas, quando não captadas em transformação. Ou movimento. Ou corpo. Mas o escuro, aqui, são também “as trevas”, que é o que não se conhece, o mau e a morte, os monstros. O esquecimento total. Que, na estória que nos apresentam como ligação entre todos estes objectos - também eles muito narrativos e talvez mais concretos do que as palavras que usam - vem procedido de um renascimento qualquer, associado à luz, ao voltar à luz, e ao esclarecimento, dali para a frente. E daqui para trás.

É no anúncio do futuro que nos situamos, e talvez este porvir seja um lugar de tempo que faça frente a impossibilidades associativas; estes objectos-signo são tão estrategicamente posicionados, que há a sensação de estarmos dentro de um jogo ao qual não nos é dado acesso às regras. No qual mesmo assim jogamos – ou somos jogados . Perante nós criam-se e multiplicam-se possibilidades. Estamos dentro. E estamos fora. Tornamo-nos a charneira entre aquele lugar e as lógicas paralelas de outras realidades. Não somos a única. Um ancinho, pintado com tons azuis, evocando um céu e uma luminosidade que não está presente em mais nenhuma das obras expostas, sobrevoa a exposição. É uma peça da Francisca, que lhe chamou Sobreterrâneo.

Há também um tronco – Tronco, 2018; madeira pintada; EFS & FV – que é um tronco. Aqui lemos uma inscrição “E+F”, dentro de um coração. Este memento torna possível que os objectos sejam parte de uma representação de uma história real, partilhada entre os dois autores, que são um casal romântico, e que agem como autores individuais assim como exercem uma autoridade colectiva (as obras ora são de um, ora são de outro, ora são de ambos, mantendo uma linha muito ténue na sua diferença). Os trocadilhos são uma valência da confusão. A ambiguidade soa pueril mais do que errante. Parece-me justo evocar, descomprometidamente, a peter pan-idade de todo o universo-jogo em que entramos. E a totalidade, e universalidade. Nem que o universo seja só ali. Aparte isso, um pouco de pânico. Fugir do monstro.

A curiosidade matou o gato, mas nunca fez mal ao coelho. [Fui buscar esta frase a uma descrição de um novo programa televisivo] É algures aqui que esta exposição nos coloca. O que faz a curiosidade ao coelho-gato-monstro? E o que nos faz a nós, que já só vemos o seu rasto?



CATARINA REAL