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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Tudela


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Tudela.


Vista da exposição. Fotografia: Bruno Lopes.


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Tudela.


Vista da exposição. Fotografia: Bruno Lopes.


Vista da exposição. Fotografia: Bruno Lopes.

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ARQUIVO:


PEDRO TUDELA

AWDIˈTƆRJU




MAAT
Av. de Brasília, Central Tejo
1300-598 Lisboa

16 MAI - 13 OUT 2019



A contemporaneidade é tempo das imagens, da contaminação e do domínio do visual nas várias esferas. Em grande parte, isto decorre das continuamente crescentes possibilidades produtivas imagéticas, fornecidas pelos novos média tecnológicos, a par de uma inédita amplitude da visualização, partilha e circulação dessas mesmas nas redes de comunicação digitais.

Tais fluxos e ritmos acelerados refletem-se, inevitavelmente, no universo artístico, que se tem verificado ser predominantemente visual. Multiplicam-se as chamadas artes visuais, categorização em constante desenvolvimento e adaptação, cada vez mais diversificada e abrangente. Em concordância e consequência, a maioria das exposições de arte contemporânea, nos inúmeros e distintos espaços culturais e artísticos, desde museus a galerias ou outros alternativos, apelam de imediato e principalmente, à visão, ao olhar do espectador através dos mais variados meios, formas e suportes, entre telas e ecrãs.

Perante este presente contexto nas artes visuais, procuram-se outras formas de experiência. É assim que, em resposta e alternativa, pode sugerir-se o som, que apela a um outro sentido. Nessa abordagem, destaca-se Pedro Tudela, cuja utilização de técnicas sonoras na criação e na produção artísticas são tão inesperadas quanto coerentes e enquadradas onde quer que se instalem. Como Miguel von Hafe Pérez refere no texto que acompanha a recente exposição do artista no MAAT, o som pode ser determinado pelas qualidades formais e materiais dos demais elementos constitutivos da obra ou pode assumir-se de uma forma autónoma, determinando "condições de materialização site-specific".

Não sendo inédito que os artistas visuais recorram à música e ao som enquanto matéria-prima ou para introduzir a diversidade nas suas criações, identifica-se um recente crescimento e desenvolvimento neste sentido. O que pode justificar-se tanto em relação e reação ao excesso do visual como graças às inúmeras potencialidades tecnológicas que permitem transfigurações na produção e na manipulação sonoras. O certo é que assim se alarga e dissemina a arte para outros campos, discursos e expressões, permitem-se novos desenvolvimentos criativos, sugerindo-se uma definição cada vez mais ampla e flexível do conceito de objeto artístico (como, aliás, deve ser).

Do mesmo modo que a sonoridade é um forte meio para estimular e despertar sensações e emoções, sendo uma das principais forças expressivas e criativas, revela-se também uma importante aliada às restantes práticas de arte. A música produz uma intensa forma experiencial que transporta o ouvinte para um particular estado sensitivo ou outras dimensões contemplativas. Pode o espectador ser profundamente afetado pela criação artística, reforçando-se a importância de uma afeção, atenção e dedicação às obras e exposições que assim se constituem.

No caso da instalação de Pedro Tudela, o som é, sem duvida, um dos media que mais interage, dialoga e se relaciona com o espaço expositivo em que é inserido. É particularmente intrusivo, envolvente do local em que se reproduz. Porém, não só afecta, como é afectado. As condições espaciais são determinantes no modo, na força e na clareza com que as vibrações sonoras se projetam. Em todo o caso, se assim lhes for permitido, estendem-se e perpassam para todo o lado, por entre objetos, paredes, corredores e ouvidos.

É também requerido abrir os olhos para contemplar na totalidade a obra que, desde o dia 15 de maio, se expõe no MAAT - Museu Arte Arquitetura Tecnologia, com a curadoria de Miguel von Hafe Pérez. Depois de algumas outras exposições, na mesma área desta instituição, que também privilegiaram o som, caso de Gary Hill, em 2018, Tudela expõe AWDIˈTƆRJU. O título consiste da transcrição fonética da palavra auditório, cujo significado é, precisamente, "recinto onde se reúnem ouvintes".

A Sala das Caldeiras, na Central Tejo do MAAT, apresenta-se enquanto lugar de particular construção industrial, constituída e preenchida pela sua maquinaria de origem, correspondente ao inicial e importante propósito do edifício, a produção energética. Hoje, convida-se a visitar, estas instalações, em diálogo com o trabalho que nelas se expõe. Como Miguel von Hafe Pérez refere, trabalhar o som e a luz neste espaço desconstrói a "condição de catedral da modernidade, através de elementos desestabilizadores da ideia do paradigma dessa modernidade nas artes visuais". O curador recorda John Cage e Dan Flavin, duas referências incontornáveis nas ações artísticas contemporâneas que envolvem música e iluminação, respectivamente.

A instalação plural e multidisciplinar de Pedro Tudela é transformadora, contamina o espaço e, igualmente, o público que se decide a percorrê-lo. As colunas de som estão estrategicamente dispostas ao longo da área expositiva, entre as estruturas metálicas e os sinos que, na sua maioria, se instalam sequencialmente em fila. Tratam-se de sete campânulas de alumínio pintadas de esmalte preto que revelam não só uma mestria de artesão, como um profundo sentido estético. Os objetos revelam não só uma mestria de artesão, como um profundo sentido estético. Por baixo de cada um, circunferências metálicas abrigam um simulacro de água, jogando com a queda de gotas que se ouve, repetida e melodicamente, em eco. Um outro sino, de bronze, instala-se, separadamente, contíguo a um belo objeto escultórico, um par de asas de águia em ferro. Por fim, numa ala lateral da enorme nave, um tubo de luz junta-se à ininterrupta sonoridade, para conduzir o percurso do público até ao final da exposição.

Deste modo e apesar do artista estabelecer o som como ponto de partida, o resultado de todo o projeto abrange outras dimensões de experiência, assim evidenciando as suas enormes capacidades em várias práticas e técnicas e na construção de experiências profundamente sensoriais. O conjunto de trabalho que aqui se descreve, e que somente será justamente apreendido presencialmente, unifica-se no que se expõe enquanto uma obra imersiva, característica recorrentemente procurada e alcançada por Pedro Tudela.

 

Pormenor da exposição. Fotografia: Pedro Tudela.

 

Trata-se, pois, de um trabalho sobretudo sensorial, predominantemente experiencial, mas também de relevância conceptual no âmbito da qual se requer a leitura atenta do texto que o curador fornece, destacando-se que "a utilização dos sinos e dos seus sons (...) erige uma alegoria complexa que nos alerta para as condições em que atualmente habitamos o meio ambiente e para o modo como abusamos dele".

Será fundamental sublinhar que a obra de Tudela faz-se acompanhar de um brilhante exercício de curadoria de Miguel von Hafe Pérez. Este é reconhecido pelo seu distinto trabalho na concepção de exposições, denotando particulares sensibilidade e tacto para relacionar e colocar em diálogo as obras e os seus autores com os espaços expositivos e, consequentemente, com o público que os visita. As ocasiões por si comissariadas anunciam-se com a subliminar promessa de que a arte será elevada às suas maiores possibilidades e potencialidades.

A partir daqui, desta união de duas distintas figuras da atualidade do contexto artístico português, apresenta-se uma exposição efetivamente imperdível e que, de entre o que se tem vindo a produzir nos últimos anos, revela-se inabitual e etérea, adjetivos estes que frequentemente podem ser empregues à obra de Pedro Tudela. Assim se encontrará patente e possível de visitar até ao dia 13 de outubro, no MAAT. Aproveita-se para destacar a também atual exposição do artista >e(c(o< (25/05 - 13/07), na Kubikgallery, no Porto. As duas ocasiões relacionam-se conceptualmente, apesar de proporcionarem diferentes experiências estéticas, cada uma sendo única e irrepetível a cada visita e a cada espectador.

 

 

 



CONSTANÇA BABO