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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Bragança Gil, Trouble in Paradise, 2022—2024. Impressão Giclée sobre papel Baryta, emoldurado; Textos de investigação em papel A4. © Photodocumenta, 2024.


João Bragança Gil, Trouble in Paradise, 2022—2024. Impressão Giclée sobre papel Baryta, emoldurado. © Photodocumenta, 2024.


João Bragança Gil, Trouble in Paradise, 2022—2024. Impressão Giclée sobre papel Baryta, emoldurado. © Photodocumenta, 2024.

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JOÃO BRAGANÇA GIL

TROUBLE IN PARADISE




PROJECTSPACE JAHN UND JAHN E ENCOUNTER
Rua de São Bernardo 15 r/c
1200 823 Lisboa

09 FEV - 23 MAR 2024

No deserto paisagístico de uma military-interzone

 

 

 


La réalité du paysage de guerre devient cinématique, tout change, s'échange, les repères disparaissent les uns après les autres, rendant inutiles les cartes d'état-major, les anciens relevés topographiques.

Paul Virilio, Guerre et Cinéma : Logistique de la Perception (1984)

 

A instalação “Trouble in Paradise”, que João Bragança Gil apresenta no espaço-projeto das galerias Encounter e Jahn und Jahn, convida o visitante a uma inquirição visual em torno do devir-cinematográfico da paisagem e do mundo. Tal se deve a um efeito de desrealização dos pontos de referência topográficos que é sintoma da guerra dos sons e das imagens descrita por Paul Virilio em 1984 (data curiosa, que lembra outras distopias). A cartografia acontece à escala 1:1 e confunde-se com o real, pesando severamente sobre as coisas. Os mapas desaparecem. Só o obturador da câmara parece poder assistir aos acontecimentos, na forma fugaz com que estes se oferecem à percepção.

Desafiando o tourist gaze como técnica do observador, Bragança Gil procura os humores ou atmosferas suscitadas pela presença de uma base militar in Paradise. A Base das Lajes, complexo militar na Ilha Terceira, é ocasionalmente recordada de forma oblíqua; são reminiscências do trabalho de campo que o artista realizou no arquipélago. Como duas faces de uma mesma cinematografia, a tematização das imagens turísticas e a precisão das imagens de operações militares levaram a um entediante esgotamento da paisagem. Esses vapores são perigosos: o tédio é a disposição que antecede as Guerras – refletira algures Walter Benjamin.

Como valor de fundo, surge nesta instalação um papel de parede: são tiras de texto-imagem que parecem ter servido de plano numa qualquer war-room para pensar um qualquer ataque. A instalação revela ainda, numa outra parede, uma fotografia de escombros. A inquietação do observador é reativada perante a evocação da imensa fragilidade dos humanos e das suas construções: pode ter sido alvo de um míssil, mas também pode ter ruído por ação da natureza. Nos Açores, a terra treme. É depois, quando o olhar volta de novo ao papel de parede, que as imagens fotográficas a antenas, infraestruturas e outras redes de abastecimento, são já vestígios de qualquer coisa. A sua função sígnica de estar por algo e para alguém, sob este ambiente de ataque, dita uma leitura indicial. São já objetos sob suspeita, que se mantêm à distância por muito próximos que possamos estar. Os generais desapareceram e restam apenas as imagens no seu apelo pós-humano.

Reflete-se sobre a militarização da visão. O recrutamento sob o gigantismo do écran de cinema mostra que aquilo que escapa ao olho humano é ainda assim atuante na imaginação. Ficcionar o real e realizar a ficção são operações com alcance epistemológico. Navegar por este arquipélago de imagens e de texto-imagem é então colecionar mensagens e sentido. Drones, imagens encontradas, mapas, screenshots e postais – acidentalmente uns segmentos são lidos: “tourism and violence”, “Normalcy of the (Sur)Real”, “Desert Shield” – a seleção arbitrária de elementos dispersos parece evocar o ambiente colecionista com que os Wunderkammer se prestavam ao scientific-gaze.

Tourist-gaze, military-gaze, scientific-gaze: não somos já nós quem vê as imagens, são elas que nos vêem de volta. O trabalho de João Bragança Gil vive no espaço deste questionamento. Eis o seu processo artístico, a constituição de uma espécie de atlas-texto-imagem que procura superar a estéril divisão entre arte e pensamento: a arte é um laboratório do pensar, e o pensar exercita-se por imagens. Que a filosofia e a ciência são práticas, pensámos com Sloterdijk (Philosophie und Wissenschaft als Übung, a conferência de 2010) mas também a arte é um laboratório da teoria. Isto acontece devido à expansão constante dos procedimentos artísticos também à ciência e à filosofia. É esta hibridez metodológica que nos atinge verdadeiramente em “Trouble in Paradise”.

Este projeto não se limita, por isso, a representar uma contra-paisagem das Ilhas do Arquipélago dos Açores. Em “Trouble in Paradise” é o próprio arquipélago que se oferece como figura metodológica, evocando a melancolia profunda da solidão dos objetos que só encontra consolação no deserto paisagístico de uma military-interzone. A suspeita está presente em todo lado – onde quer que um aparelho esteja. Os media determinam a nossa condição (Kittler) e os lugares que nos serviam de refúgio da memória, como a paisagem vulcânica dos Açores, não escapam a esse recrutamento técnico.

 

 

Catarina Patrício
Doutorada em Comunicação pela NOVA-FCSH, na especialidade Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias, realizou estudos de Pós-Doutoramento na mesma faculdade. Artista Visual, formada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e Mestre em Antropologia pela NOVA-FCSH, Catarina Patrício é Professora no Departamento de Cinema e Artes dos Media da ECATI, Universidade Lusófona, desde 2010. Investigadora integrada no CICANT, publica ensaios e expõe obra artística regularmente.



CATARINA PATRÍCIO