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MÚSICA


BRANCHES: DOS AFECTOS E DAS MEMÓRIAS

RUI MIGUEL ABREU

2012-09-10



Projecto de Pedro Rios, Branches editou este ano um par de intrigantes cassetes onde a música parece existir num permanente estado líquido, escorrendo fluida da memória para o presente numa cascata contínua de drones poderosamente evocativos. Há imagens escondidas neste som, exploratório, intuitivo e feito de reverberações suspensas entre a realidade e o sonho. “Ninguém É Como Tu” e “Primeira Vez” são duas importantes adições a uma agitada tape culture que por cá vai registando igualmente uma assinalável atividade.

 

Em primeiro lugar impõe-se uma apresentação de Branches: o que esconde - ou revela... - esta identidade, quando nasceu, etc...?

Fiz o projecto algures em 2006 como output paralelo à banda que tinha na altura. Gostava da vida de banda, mas queria ter um espaço meu, com os meus tempos, as minhas vontades. Comecei a gravar da mesma forma que fazia com a banda (um portátil banal, um microfone de computador), mas, em vez de tocar em conjunto, como na banda, gravava tudo eu, camada após camada. Os instrumentos eram os mesmos (guitarras, flautas, pandeiretas, sininhos), mas o resultado era necessariamente diferente. Isso ouve-se no “Seiva”, o split CD que abre a discografia de Branches. O método mantém-se, mudaram alguns dos instrumentos.

Em Branches, procuro dar forma concreta a alguns dos sons que moram na minha cabeça. O rumo que ele segue é, por isso, também muito meu: tanto posso lançar um disco de drones como o “Primeira Vez” como fantasiar com samples ou fazer uma série de canções pop de guitarras. E tudo isso faz sentido enquanto Branches.

 

 

“Primeira Vez” (CS, ed. UUUTapes, 2012)

 

Podes apresentar cada uma das cassetes que editaste recentemente? Há pouca informação técnica no artwork de “Ninguém É Como Tu” e “Primeira Vez”: são gravações próximas no tempo, documentam épocas distintas?

Essas duas cassetes saíram curiosamente no mesmo dia, 17 de Janeiro de 2012, mesmo que aguardassem edição há já algum tempo. A “Primeira Vez” é um conjunto de gravações já antigas, de 2009/2010, que julgava perdidas para sempre e que encontrei quando já não tinha esperanças. É a evolução natural do “Seiva” e é talvez o disco de que mais me orgulhe, mesmo que hoje não tenha o quadro mental que originou a “Primeira Vez”. “Ninguém É Como Tu” já são peças mais recentes, de 2011, mais próximas, portanto, do que faço agora. Representam a entrada dos teclados Casio em Branches.

 

    

“Ninguém É Como Tu”  (CS, ed. Solid Melts, 2012)


Ainda de um ponto de vista técnico, que ferramentas usas? Sente-se nestes dois trabalhos uma espécie de contenção ou disciplina que pode advir de uma economia de meios necessária ou opcional, mas que passa a fazer parte do conceito... Ou é uma leitura errada?

A economia de meios é bem real: gravo com um microfone de computador ligado a um velho portátil que, por sorte, tem uma placa de som aceitável. Não procurei gravar em locais com melhores condições porque fazer isto em casa está no ADN de Branches. E não me interessa utilizador computadores para recriar sintetizadores, fazer batidas, o que for. As gravações vão sendo feitas nas nesgas do tempo, como veículo escapista de um quotidiano banal. Naturalmente que essa economia de meios acabou por definir o “conceito” de Branches ou pelo menos a imagem que as pessoas fazem de Branches. Mas é mais uma combinação de reivindicação do direito à preguiça do que uma opção estética.

 


 

Qual a importância dos títulos na tua música? Perante um tal despojamento narrativo - artworks extremamente económicos, mesmo em termos de imagens, música instrumental - os títulos assumem a importância de um código que promete desvendar este universo. Ou é tudo muito mais aleatório e casual do que pensado e conceptual?

Gosto de guardar conjugações de palavras que têm um poder místico qualquer. Muitas delas acabam por dar nomes de peças. Por vezes, os títulos marcam o tempo de forma literal, como “Novo ano (avô)”, feita nas vésperas da mudança de ano e em homenagem ao meu avô que morreu nessa altura, ou “Maçã” – estava a comer uma maçã enquanto gravava e ouvem-se dentadas na gravação final.

Na cassete “Alto Astral”, os títulos obedeceram ao quadro balnear que procurei pintar e que representava o meu estado de espírito num verão que teimava em não acabar. Tenho também uma série de canções dedicadas a amigos e várias referências geográficas ou ligadas a memórias.

Nunca tinha pensado nisto assim, mas, olhando para o que acabei de dizer, os títulos são uma espécie de mapa da minha vida. Se calhar, Branches tem sido muito isso, uma interpretação musical desse mapa.

 

Drones psicadélicos e divagações new age podem ser consideradas coordenadas para a tua música? Exatamente por onde andam as referências de Branches?

Sem dúvida que esses universos me interessam. Diria que tenho mais referências do que tempo ou engenho para criar a partir delas. Cresci a ouvir punk rock e esse é o meu território de conforto (por isso fiz uma versão de Screeching Weasel com a Carin), mas interessei-me por quase tudo. E Branches reflete um bocadinho esse espírito glutão: quero fazer discos que fantasiem a partir de matéria alheia, quero explorar as propriedades do som, quero fazer um disco pop, quero namorar com o universo punk.

 
 

Além de músico és jornalista e escreves sobre música: consegues manter essas duas realidades separadas ou cada uma dessas atividades é informada e influenciada pela outra?

Elas separam-se naturalmente porque são coisas diferentes. Mas o espírito glutão e de estudo contínuo de outras músicas próprio de quem escreve sobre música acaba por ser o mesmo que me faz querer explorar novos territórios em Branches.

 

 

Apesar de estar disponível digitalmente no bandcamp, a tua música também se fixa no formato analógico das cassetes: é óbvio que o aspecto económico pesa nessa decisão - podem fazer-se edições mais limitadas, em termos de custos e de quantidades, em cassete do que em cd ou vinil. Mas há também uma certa fetichização desse formato atualmente, não te parece?

As duas últimas cassetes apareceram porque as editoras convidaram-me para editar nesse formato. Por motivos económicos ou de fetiche (penso que ambos…), as cassetes tornaram-se a norma nos objetos editados no underground. Há fetichização, sim, mas acho que isso não é mau: o regresso das cassetes, mesmo que numa escala ainda pequena, reconciliou muita gente com o objeto musical físico. E há um lado de intervenção DIY sobre o objeto que me interessa particularmente, como houve nos anos 2000 com os CD-R. Gosto que tudo isto aconteça numa pequeníssima indústria, gerida por fãs de música para fãs de música. Acho que o formato, mesmo que obsoleto, fica bem em Branches porque não procuro a fidelidade sonora, antes uma ligação afetiva ao som. E onde há afetos há memórias.

 

Discografia completa:

Ninguém É Como Tu (tape Solid Melts, 2012)
Primeira Vez (tape UUUTapes, 2012)
Canção para o Pedro (track, Bandcamp, 2011)
Canção para o André (track, Bandcamp, 2011)
Começar de Novo (track, "A Compilation for Japan", benefit V/A album, 2011)
Maior É o Tombo (track, compilation "Ruptura Explosiva", 2011)
Sonho Marítimo (digital single, Bandcamp, 2011)
Bons Tempos (track, Bandcamp, 2010)
Couscous no Cavalo Branco (track, Bandcamp, 2010)
Cool Kids (track, YouTube, 2010)
Salão Flamingo (track, YouTube, 2010)
Mar de Março (track, YouTube, 2010)
Sonhos Ye-Ye (track, Soundcloud, 2010)
Morey Boogie (track, Soundcloud, 2010)
Odaiba (track, Soundcloud, 2010)
Alto Astral (self released tape+Bandcamp,2010)
Vamos (track, digital only, 2010)
Seiva (split CD, Searching Records, 2006)

Links

branchesbranches.bandcamp.com

facebook.com/branchesbranches

soundcloud.com/branchesbranches/

 

Mais Vídeos:


Maior é o Tombo (2011)
Sonho Marítimo (para Carin) (2011)
Bons Tempos (2011)
Cool Kids (2010)
Salão Flamingo (2010)
Mar de Março (2010)

 

Locais onde "Primeira Vez" e "Ninguém É Como Tu" podem ser compradas:


Lojas de discos Matéria Prima (Porto e Lisboa)
ou por encomenda directa: branchesbranches@gmail.com
 




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