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MÚSICA


BILAL – A BANDEIRA EMPUNHADA POR QUEM SABE QUEM É

RICARDO ESCARDUÇA

2015-08-05



 

Não raras vezes nos perguntamos quais são as bandeiras da comunidade musical e, em particular, dos seus intérpretes, cantores e músicos, autores e compositores que, em resultado da posição privilegiada de porta-estandartes dessa comunidade que ocupam nas suas fileiras frontais, têm a oportunidade de aceder e comunicar activamente com os diversos agentes da sociedade através das melodias e letras que criam enriquecendo essas camadas mais sensoriais e aparentes da sua prática artística com diversos substratos mais profundos e significativos que contenham mensagens, ideias e convicções que entendam relevantes de acordo com a sua consciência social e humana e, dessa forma, gerar impacto significativo nessa sociedade e, em algumas vezes de entre aquelas, não encontramos para essas perguntas as respostas que nos é natural procurar na música e nela esperamos encontrar enquanto forma de arte que, a par das outras manifestações de expressão artística, não só nos pode servir como instrumento terapêutico que amplia continuamente a nossa compreensão e sensibilidade em constante reequilíbrio com nós mesmos e com o que nos rodeia, nos pode causar e despertar emoções de variadas naturezas, nos pode despertar e estimular para novas coisas, novas perspectivas e novas questões mas pode também e, arriscamo-nos a afirmar, deve, estar atenta e não esquecer a objectiva realidade do mundo em que existimos, pode e deve dissecar, analisar e questionar o mundo real que se manifesta diante de nós, valorizar o que entenda ele conter de válido e positivo e denunciar como uma bandeira empunhada o que nele encontre de condenável e negativo com o objetivo final de harmonizar esse todo global.

Com efeito, as prateleiras das lojas de discos, as plataformas on-line ou tantos outros meios disponíveis de acesso a música oferecem-nos geniais e originais artistas criadores de sonoridades que nos entusiasmam e das quais retiramos incontestável prazer e autores de letras que tocam em temas que, ainda que cativando-nos, abordam conceitos mais subjectivos, abstractos ou generalizados mas que achamos algo desligados da existência prática e factual. Encontramos também artistas e as suas obras aos quais, embora podendo não entender ou sequer encontrar um significado e apreciar a estética da forma musical em que se expressam e a dimensão do intrincado mundo em que habitam, reconhecemos e respeitamos o mérito técnico e conceptual da sua expressão artística e de quem os aprecia e, inevitavelmente, não conseguimos fugir a cruzarmo-nos com alguns dos produtos “plastificados e embalados” debitados pelas máquinas industrializadas em cujos valores e objectivos nos é impossível, segundo o nosso critério, encontrar qualquer alma e sentido artístico. Ainda que os primeiros ocupem largas horas das que dedicamos a ouvir música sem que as sintamos desperdiçadas, a pergunta dirigida a todos eles emerge-se-nos quase autónoma, como se com vida própria: onde estão e quais são as bandeiras empunhadas enquanto artistas que olham para esta realidade, a realidade?

De entre os diversos géneros musicais da história da música, é em vários dos originados pela cultura afro-americana que encontramos absolutamente latente e intimamente relacionada com a sociedade uma mensagem de denúncia e de revolta, ou de valorização e de engrandecimento, e que visa questionar, alertar, sugerir, e ir mais além desequilibrando o status quo para encontrar novos equilíbrios.

De facto, e sem prejuízo dos inúmeros artistas de intervenção política e social, músicos e poetas, que se levantaram na década de 60 do século passado na música popular americana e francesa ou, dentro de portas na década seguinte em Portugal, ou na mesma década de 70 no punk inglês, entre tantos outros exemplos de contestação e de afirmação da história do mundo e da música passíveis de enunciarmos, encontramos evidentes bandeiras sociais nas origens do jazz associadas às work-songs das várias comunidades negras ainda muito marcadas pela sua identidadede de raízes oeste-africanas e da sua cultura popular e criatividade que se misturavam em New Orleans no final do séc. XIX e que na altura encontravam nas bandas fúnebres a forma encapotada de exprimir as suas frustrações, indignações e rebeldias face às injustiças sociais esclavagistas de que eram ainda vítimas; igualmente nos artistas americanos fundadores da música soul das décadas de 50 e 60 alvo de segregação racial não só na sua expressão artística mas também, e principalmente, na sua vida civil a par do resto da comunidade de raça negra e que, como os referidos porta-estandartes que mencionamos ao início, se manifestavam e tomavam posições de contestação contra as políticas racistas americanas; ou ainda na década de 70 e início da década de 80 nas ruas do Bronx em Nova Iorque que albergava comunidades latinas e afro-americanas pobres e carentes de dignidade social que conviviam lado a lado com a violência dos gangues, com racismo e com tráfico de droga e que, tomando as ruas como único espaço de lazer acessível, fizeram nascer das suas block-parties e dos seus sound-systems toda uma cultura hip-hop e uma forma de expressão artística multidimensional que mistura, funde e se expressa através da música, da poesia, da dança e da pintura mural urbana e cujas músicas, acompanhadas das bem contruídas rimas fortemente ritmadas e contendo mensagens politizadas fortes e violentas do rap (rythm and poetry), continham na realidade um objectivo reivindicador e pacificador pretendido atingir através do poder da transformação das injustiças sofridas por essas classes sociais desfavorecidas.

Não confundamos a personalidade e a presença alegres e descontraídas, expressivas e autênticas, enérgicas e extrovertidas do nova-iorquino original de Filadélfia Bilal Sayeed Oliver, melhor conhecido entre os seus fãs apenas por Bilal, e a sonoridade melódica e easy-listening soul do seu quinto LP de carreira “In Another Life” lançado em 30 de Junho último pela editora Entertainment One Music do grupo Purpose Music Group, que sucede ao já longínquo “1st Born Second” de 2001, a “Airtight’s Revenge” de 2010, a “A Love Surreal” de 2013 e a “Love for Sale” de 2006 que nunca chegou a ser comercializado uma vez que foi disponibilizado on-line previamente ao seu lançamento oficial sem autorização do artista e da editora, com a ausência de voz que não hesita em levantar-se em inúmeras mensagens de protesto explícitas relacionadas com a justiça social e os valores humanos mais basilares, puros e honestos de que, aos olhos do artista, o mundo actual está vincadamente carente e que utiliza como a matéria prima na qual se sente mais confortável e inspirado para abordar temas que entende reflectirem os dias de hoje e que nunca é demais denunciar como a violência policial, o racismo, o materialismo, a pobreza, a doença mental em que o mundo cai vítima de si mesmo, e também o amor, a solidariedade e a liberdade, ou a falta deles em detrimento de outras prioridades que o mundo decide preferir, e oferecer novas perspectivas de reacção, dedicando o álbum a todas as vítimas de injustiças em todo o mundo.

Impressionado com os avanços tecnológicos informáticos e as inesgotáveis redes sociais e a facilidade com que permitem à distância de uns meros clicks alheios perscrutar e invadir a privacidade individual de forma involuntária a quem é vítima dessa violação ou, de forma oposta, de forma voluntária e tantas vezes ignorante e inconsciente pelos próprios a quem bastam uns meros clicks para expor em demasia a sua privacidade como (talvez, entre tantos outros motivos?...) mecanismos de compensação de outras lacunas, basta-nos começar pelo título do álbum no qual Bilal, encarnando um personagem diferente em cada uma das faixas que o compõe que lhe permite experimentar uma outra vida, vira do avesso a vida individual que é acessível e susceptível à curiosidade alheia sugerindo outras perspectivas sobre a vida de cada um desses personagens.

O enredo que nos é contado na letra da faixa “Satellites”, primeiro single do álbum a ser disponibilizado e que ocupa a sexta posição entre as doze faixas que compõem a tracklist indicada abaixo, é encenado num significativo vídeo em que cada cena é inteligentemente concebida e que põe a nu a decadência e o falhanço de uma sociedade que não dedica tempo e espaço à compaixão e que, desconfortável perante o que não conhece e não controla, reage agressivamente e abate a tentativa de recuperação dessa compaixão. Enquanto nos canta "Just another day, in another life / I'm a satellite, watching the world watch people / As they do what they do to people / So what did we do? And what can we do? And how did this happened? / ‘Cause it’s not what I remember when I left you from the other time”, Bilal representa uma entidade divina ou extra-terrestre operadora de milagres em desconhecidos, começando por observar a cidade à distância para regressar ao nosso mundo após um período de ausência para, chocado, desiludido e entristecido enquanto percorre ruas e lugares degradados, se deparar com inúmeros personagens que vivem situações desesperantes a quem ajuda e ampara.

 

 

Impondo um contraste propositado e intencional numa transição súbita para uma atmosfera sonora e uma mensagem mais agressivas, o final do vídeo de “Satellites” estabelece uma ligação directa com a faixa “Lunatic” que lhe sucede na ordem da tracklist e que foi composta após o tiroteio policial de 2012 num cinema em Aurora, Colorado, em mais um entre tantos casos de civis doentes psicológicos que abrem fogo sobre inocentes e que levanta, entre outras, a questão do fácil acesso a arma de fogo nos Estados Unidos, apesar de que a mensagem que Bilal nos pretende transmitir nesta parte final do vídeo de “Satellites” já ao som de “Lunatic” não ser directamente relacionada com esse episódio. No vídeo, em referência aos inúmeros casos de violência policial exagerada e desnecessária que também são comuns na sociedade muitas vezes de forma injustificada, da ineficácia do sistema judicial e também como ilustração da ignorância e abusos de poder tão disseminados e traduzidos para a prática na forma como a sociedade anula e destrói o que receia e a intimida por lhe ser desconhecido, incompreensível e misterioso ou por simplesmente não seguir as normas estabelecidas ainda que não exerça qualquer ameaça sobre ninguém, o mesmo personagem místico e curador interpretador por Bilal nos versos “Looking for the medicine man / They say he’s not too far to find/ They say he’s giving site to the blind/ They say his every act is divine” invocando os feiticeiros das tribos africanas e nativo-americanas e as suas práticas curandeiras é atacado sem razão por uma patrulha policial que o imobiliza brutalmente, acabando o personagem por padecer e sucumbir. A repressão histórica sobre a comunidade negra também é subtilmente mencionada através da cor da pele do bem-intencionado “medicine man” e do injusto e injustificado desfecho que sofre na trama e através das mensagens que Bilal nos transmite nos cartazes com as inscrições “I am not an animal” e “Black Lives Matter” que não passam despercebidos.

 

 

Num outro vídeo igualmente relevante e emocionalmente violento criado para a faixa “Money Over Love”, Bilal realça a subjugação aos valores materiais e ao consumo levada a um extremo tal em que a ganância desmorona uma história de amor começando por corromper a dignidade humana na perseguição obcecada por dinheiro para, no final, de forma extremada e brutal, destruir a própria vida. Antes de nos cantar os versos “Money over love / You know how much you love the finer things / … / If ladies don't need what I got / I'm just a late night fix / Cost too much to settle down / I'd rather be alone/ Chasin' the life of a rich man / … / The best things in life ain’t free / … / I don't wanna love (love) / Until I can afford to love (love)”, Bilal encena um corrompido pastor perverso, maquiavélico e manipulador que prega à sua assembleia o desejo e ambição por abundante dinheiro e sugere que os meios adoptados para atingir esse objectivo não são pecado.

 

 

Porque Bilal entende importante não se restringir a realçar o que entende como negativo no mundo em que o rodeia e também destacar o positivo que observa ao seu redor, em “Holding It Back”, Bilal transporta-nos para o extremo emocional oposto das faixas que já referimos e celebra o amor romântico quando vivido puro e inocente como quando entre dois adolescentes apaixonados que descobrem um arrebatador mundo de sentimentos em versos de natureza marcadamente (e demasiadamente) ligeira como “… / This is big as a heart can get / Can you give it to me before I die, girl? / … / We just flowing, and we're cooling / And we're loving, stripped down / … / And I never felt this way before”.

 

 

Percorremos as outras faixas do álbum e em todas elas nos deparamos com mensagens específicas que Bilal exalta: a faixa “Star Now” e os seus versos “… / She closed her eyes and called his name / The oceans crashed, the thunder came / She fell into his arms / … / You shine like a star now / Your skin will glow like a star now/ Your eyes will glitter like a star now…” segue a mesma linha temática de “Holding It Back” e fala-nos sobre a adoração a uma amada de natureza mitológica que o seu amor faz ascender ao desconhecido; “Open Up The Door” aborda os ciclos de renovação e de renascimento para os quais é indispensável perseverança e tenacidade em "… / It’s a long cold winter, with no real place to go / … / It came so close to giving, but come too far to give it up / Steel sharpens steel, two strong wills / … / But when it rains we grow / … / Lay your seed into the ground and see if it will grow / Now the spring is here, I’m so happy everything is clear, to me / …”; “Pleasure Toy” é talvez a faixa cujo tema é mais trivial, reduzindo-se a uma faixa divertida, descontraída e de cariz sensual.

 

 

Se é incontornável que a obra de Bilal está liricamente impregnada de conteúdo social, político e humano ilustrado nas imagens que desenha na nossa mente através das histórias que nos conta e com que pretende agitar, sacudir e despertar as mentalidades tépidas, estagnadas, adormecidas e viciadas com que se depara nas realidades actuais não sendo invulgar introduzir densos e controversos discursos activistas e de protesto no início dos seus concertos ou em acções de promoção do álbum, não é menos verdade que acrescenta a esse conteúdo temático uma extraordinária musicalidade, rica e eclética com uma espinha dorsal evidente na soul music clássica mas que se move, insinua e infiltra ágil, dinâmica e sem esforço nas sonoridades do jazz, do funk sintetizado dos anos 80, do R&B dos anos 90, do hip-hop actual e ainda passa tangente ao rock psicadélico e progressivo dos anos 70, fiel a si mesmo e à sua carreira enquanto artista que transcende e dissolve as fronteiras rígidas dos géneros musicais e à sua qualidade de membro integrante da comunidade musical Soulquarians ao lado de outros artistas como D’Angelo, Talib Kweli, Mos Def, Pino Palladino, Common, Erykah Badu, Raphael Saadiq, Lauryn Hill, Questlove e o falecido J Dilla, entre outros membros rotativos do colectivo, particularmente activo nos últimos anos da década de 90 e iniciais da década de 00 ao longo dos quais, nunca tendo editado um álbum formal e oficial sob a assinatura criativa unificada do colectivo, participavam e colaboravam nos trabalhos individuais de cada um, na maior parte das ocasiões sob a batuta da produção musical do baterista do The Roots, por encontrarem em comum e comungarem de inspiração musical em nomes icónicos como Otis Reding, Marvin Gaye, Jimi Hendrix, All Green, Bob Marley ou George Clinton, que actualizam e revitalizam com uma composição musical e técnicas de produção actuais sem deixar de marcar e distinguir cada um dos seus álbuns com a sua impressão individual e também por partilharem os mesmos pensamentos e ideias dedicando os seus poemos e as suas letras a questões sociais, políticas, humanas e espirituais que para eles tomam bem mais importância do que os ocos temas relacionados com sexo, drogas ou violência grátis por que muitos outros artistas que pisam os mesmos territórios musicais optam.

Nessa diversidade sonora que colecciona em “In Another Life”, Bilal consegue atingir uma identidade única e individual, coesa e coerente ao longo do álbum ainda que orgânica e flexível por nos fazer viajar de faixa em faixa e atravessar todas esses géneros musicais, em resultado de uma brilhante produção musical com uma característica particular latente e consistente old-school que é absolutamente evocativa da sonoridade clássica soul e funk dos anos 60 e 70. Os créditos da autoria, composição e produção musical são devidos em exclusivo ao talento supremo de Adrian Younge, que toca a maior parte dos instrumentos, conhecido pela sua afinidade e inclinação revivalistas para com essas atmosferas sonoras e a estética retro-vintage que imprime aos seus vários trabalhos que se têm destacado desde 2009 na composição e produção da banda sonora original do filme “Black Dynamite” em 2009, do álbum de 2011 “Something About April” com a sua banda habitual Venice Dawn onde, na décima segunda posição da tracklist, encontramos a faixa “Sirens” que em 2013 surge samplada na faixa “Picasso Baby” do álbum “Magna Carta… Holy Grail” de Jay-Z e que veio a ter sequência na faixa “Sirens II” deste álbum de Bilal, do álbum a solo “Twelve Reasons To Die” de 2012 do rapper Ghostface Killah, membro do grupo hip-hop Wu-Tang Clan, do álbum “There Is Only Now” da banda Souls of Mischief, do álbum de 2013 “Adrian Younge Presents The Delfonics” desta banda, entre várias outras parcerias e autorias.

Ainda que a parceria de Bilal com Younge tenha resultado de uma absoluta coincidência, este último revelou-se o parceiro ideal em que Bilal encontrou o criador da sonoridade que pretendia para este capítulo musical da sua carreira. Não só Younge o libertou permitindo-lhe dedicar-se por inteiro à autoria das letras e das melodias vocais como também, ao olhar em retrospectiva para os seus álbuns anteriores, mais especificamente para “A Love Surreal” de 2013, e até mesmo durante a gravação deste, Bilal frequentemente comentava que a instrumentação com recurso a alguns aparelhos electrónicos e a pós-produção tornavam o som demasiado limpo, como que incolor, e Younge trouxe para “In Another Life” o groove e a vibe bafienta e empoeirada, menos transparente e mais suja que invoca o som de há quatro décadas atrás que a produção musical totalmente analógica de Younge gera e na qual não há lugar para instrumentos digitais e electrónicos, que correspondeu inteiramente ao que Bilal buscava para que extraísse algo mais dele próprio e de que apenas se apercebeu ser o que procurava após começarem a trabalhar juntos nas primeiras faixas do álbum.

 

 

Como se estivéssemos a assistir a uma jam-session descontraída entre músicos amigos numa típica four-piece band a gravar primeiros takes sem recurso a tecnologia, é-nos automaticamente óbvia no som de Younge a instrumentação crua, autêntica e sem tratamento mas, ao mesmo tempo, amena, elegante e polida que Bilal desejava e que lhe confere um minimalismo envelhecido que segue uma direcção oposta à dos trabalhos recentes mais elaborados de outros artistas contemporâneos, mas que está longe de ser um retrocesso desactualizado e não deixa de estar carregado de vitalidade numa combinação sólida em que a secção rítmica da bateria áspera e sem filtro e das linhas de baixo ritmadas e pulsantes marca lugar na primeira fila e se destaca sobre um leito mais macio, ondulado e fluido trazido pelo teclado analógico que a complementa, deixando a guitarra eléctrica para segundo plano apenas dedilhada em acordes discretos ou em alguns efeitos wah-wah que notamos aqui e ali, aos quais se juntam muito pontualmente outros efeitos sintetizados do teclado e até uma flauta, completando um arranjo instrumental cuja beleza encontramos precisamente na sua simplicidade sem que, ao percorrer faixa a faixa, a globalidade do álbum nos deixe de oferecer uma diversidade e variedade contínuas entre os vários géneros que a identidade musical da dupla cruza.

 

 

De facto, ao longo dos quase quarenta minutos de “In Another Life”, a multidimensionalidade musical de Bilal e Younge é construída sobre uma base plena de jazz e soul de ritmos calmos e brandos criando atmosferas cálidas de intensidade e sensibilidade poéticas e dramáticas constantes ao longo de todo o álbum que mais notamos na excepcional “Satellites”, em “Star Now”, em “I Really Don’t Care” ou outras mais lânguidos, românticas e envolventes como na fantástica “Bury Me Next To You”, em “Holding It Back” e em “Spiraling”, acrescentadas por aquela sonoridade retro e ao mesmo tempo elegante seguramente capaz de agradar a inúmeros ouvidos nos dias de hoje que se possam sentir privados desta visita a essas sonoridades originais do passado em resultado de outras produções musicais recentes mais modernizadas, e à qual são alternada e pontualmente acrescentados grooves dos anos 70 leves, arejados e animados e ritmos de vitalidade up-beat em faixas como “Open Up The Door”, tons evidentes de hip-hop em “Pleasure Toy” e em “Money Over Love”, alguns efeitos sonoros de ficção científica que acrescentam uma impressão enigmática em “Sirens II” ou secções rítmicas abruptas e aceleradas de rock com algo de psicadélico e experimental na contrastante “Lunatic”.

Younge fornece o enquadramento perfeito para o melhor instrumento que o álbum nos traz: a elástica amplidão dos magníficos e expressivos tom e timbre da voz de Bilal que a moldam e alteram em função da emoção que nos pretende transmitir e que, de um instante para o outro, viaja desde as camadas superiores, leves e quase imateriais do seu falsetto suave e vibrante e descende à densidade dos tons mais graves, sérios, rugosos e profundos em que parece segredar-nos, não deixando de juntar outras nuances quando quase nos grita acutilante e perturbante.

O cruzamento artístico e criativo de Bilal e Younge surge inteiramente do acaso e da coincidência. Ao contrário dos seus outros álbuns, que foram planeados e serviam um propósito previamente estabelecido, após o lançamento de “A Love Surreal” em 2013, a sua condição Soulsquarian trazia-o envolvido em projectos pontuais de outros artistas, como Robert Glasper, Kimbra, Otis Brown III ou Kendrick Lamar, e o lançamento de um álbum não estava nos seus planos mais imediatos. Os dois artistas haviam sido apresentados dois anos antes numa roots jam session no Brooklyn Bowl pelo amigo comum Andrew Lojero, na altura produtor executivo da editora Plug Research que editou “Airtight’s Revenge”, e a empatia entre ambos foi imediata num clima descontraído e divertido onde as gargalhadas eram constantes. Mais tarde, durante a edição de 2014 do festival SXSW onde Younge actuava com a sua banda Venice Dawn, voltam a cruzar-se e, enquanto essa empatia cresce e descobrem gostos musicais em comum no soul clássico e no rock progressivo e psicadélico, antes de regressar a NY, Bilal decide passar alguns dias em Los Angeles onde Younge estava a trabalhar com Ali Shaheed Muhammad, que dispensa apresentações enquanto membro de A Tribe Called Quest. A conversa flui e Bilal descobre com surpresa que é Younge o autor da b.s.o. de “Black Dynamite” que já conhecia e cuja identidade sonora típica de Younge já o atraía e respeitava. Na primeira visita a casa de Younge e, sem que nada o anunciasse, compuseram uma música. No dia seguinte, surge outra e Bilal vai descobrindo em Younge o compositor musical que não sabia que sequer procurava e a quem dava liberdade para evoluir musicalmente na composição da música. No final da semana, com várias faixas já esboçadas, tomam consciência que, sem reparar e sem qualquer plano ou esforço, têm algo entre mãos. Uma visita a casa de Raphael Saadiq, outro nome de peso em toda esta comunidade de renomeados artistas que gravitam em redor do soul, do jazz, do R&B e do hip-hop, onde mostraram as maquetes de algumas faixas deu a estocada final na decisão: gravar o álbum em LA no estúdio de Younge onde Bilal se encantou com a panóplia de instrumentos e equipamentos analógicos de Younge e por ser em LA que havia escrito e gravado os seus álbuns anteriores por encontrar nas suas idas matinais diárias à praia e na restante rotina diária mais calma a que aí acede ao contrário do bulício acelerado de NY a tranquilidade mental em que se sente mais inspirado para escrever.

É também na esteira da comunidade musical que o álbum é ainda enriquecido com a presença e colaboração do rapper Big K.R.I.T em “Pleasure Toy” e de Kendrick Lamar em “Money Over Love”, que vêm valorizar e trazer uma ligeira modernização à sonoridade destas faixas com os seus versos enérgicos em rap contribuindo ainda mais para a rica diversidade musical do LP, e da neo-zelandesa Kimbra em “Holding It Back” num dueto vocal com Bilal que encaixa na perfeição na atmosfera da música.

Estas participações não resultam de outra coisa que não os mesmos acasos e coincidências que começaram por dar origem a “In Another Life”, o que só nos diz que este fantástico álbum aconteceu porque tinha realmente que acontecer. Bilal foi um dos vários convidados de Lamar no aclamadíssimo “To Pimp A Butterfly” lançado também este ano no qual encontramos a sua participação vocal em “Institutionalized” e em “These Walls” e, numa sessão de estúdio, Lamar ouve “Money Over Love” e toda a carga e mensagem social e humana nela contida não resistindo a quase auto-convidar-se para participar na faixa, sendo acolhido por Bilal com o prazer de partilhar uma faixa com outro artista que não só admira como, acima de tudo, com quem encontra em comum a mesma linha de pensamento e de discurso. Do mesmo modo, o rapper, músico e produtor K.R.I.T cujo trabalho e mensagem Bilal também admira, estava a trabalhar com Saadiq no estúdio deste como seu produtor numa das faixas do seu disco mais recente aquando da primeira visita de Bilal e Younge e essa visita rapidamente se transformou numa animada jam-session; assim que K.R.I.T ouviu “Pleasure Toy” não havia mais forma de o demover, ainda que essa não fosse a intenção de nenhum dos artistas. Kimbra surge a convite de Bilal na continuidade da participação deste no mais recente álbum da cantora durante a qual Bilal se surpreendeu com a sua personalidade exuberante, surpreendente e rebelde que deu origem a uma estreita amizade e carinho entre ambos.

Ao longo dos quinze anos de carreira e dos vários álbuns que lançou, Bilal beneficia do privilégio de conviver e trabalhar com os nomes grandes da indústria, entre os quais se destacam não só os que colaboram em “In Another Life” como também as suas participações em trabalhos de Common, Jay-Z, Erykah Badu, Dr. Dre ou J Dilla, apesar de que nunca enveredou por uma busca obcecada em juntar estes nomes à sua carreira como meras medalhas que lhe rendam visibilidade comercial, e encara humildemente estas experiências que lhe surgiram de forma natural ao longo destes anos como valiosas oportunidades de contínua aprendizagem. Sem prejuízo dessa permeabilidade a essa aprendizagem que tanto preza, Bilal tem plena consciência de quem é e do que pretende enquanto músico e artista e, fiel e genuíno perante os seus conceitos e visões artísticos, afirma não se desviar do percurso que planeia para si mesmo antecipadamente ou que lhe surge espontaneamente e sente ser o acertado na desconstrução e reinvenção de uma sonoridade mutante e em constante progressão que gira em redor dos tradicionais estilos da música negra, mesmo que muitas decisões tomadas no passado mais distante ou mais próximo o tenham conduzido a algumas vitórias mas também a outras explorações mais aventureiras que, por não corresponderem exactamente às tendências que o mercado segue, não o tenham feito ascender aos patamares cimeiros da indústria e a um grau de divulgação tão alastrado como os de outros artistas como o do catedrático D’Angelo ou os dos mais recentes Miguel, Frank Ocean ou The Weeknd (ou, corrigindo-nos; de facto, entendemos que os atingiu no seu valor musical e artístico). Sem prejuízo da inegável validade e qualidade musical e artística destes nomes que nos é impossível questionar (ou da referência a outros fenómenos comerciais como o recente trabalho de Leon Bridges que nos parece ausente de individualidade e originalidade revelando-se-nos como uma reprodução sonora imediata do som antigo e que pouco (ou nada) lhe acrescenta), o recurso a instrumentações e a pós-produções de masterização e mistura mais electrónicas e digitalizadas que resultam em sonoridades mais limpas, aguçadas e modernizadas que, talvez, mais facilmente colhem adeptos em maior escala e têm resgatado uma posição de destaque e de valor comercial nos últimos cinco anos a estes autores e às suas interpretações e reinvenções da música soul, funk e R&B clássica o que, em si mesmo, traz inúmeras vantagens para a indústria da música e todos os seus agentes que começam nos artistas e terminam no público, “In Another Life” e o conceito sonoro por que Bilal opta é mais uma prova que nos deixa de como não pestaneja e não hesita em seguir uma direcção oposta à que, em cada momento, dê provas de valor comercial se essa direcção for a que sente honrar a sua convicção de que os verdadeiros artistas seguem o seu impulso e o seu instinto motivados exclusivamente pela sua criatividade e independentes do resultado comercial que daí advenha.

 

 

Regressando a 2013 e a “A Love Surreal”, a sua característica individual de compor e criar projectos pessoais que não observam requisitos comerciais é evidente. Neste álbum também gravado em takes espontâneos gravados ao vivo de atmosfera intensamente romântica e muito menos interventiva social e politicamente, as guitarras acústicas e eléctricas, com e sem efeitos, ganham relevância em longas passagens instrumentais liquefeitas que conduzem inevitavelmente a uma identidade mais rock acompanhadas de mais um brilhante desempenho vocal com impressionante presença que alterna entre extensas estrofes de versos cantados quase em agonia emocional e longos murmúrios e trauteios ondulantes em que Bilal não emite uma única palavra. Tomemos como exemplo a balada “Slipping Away” que poderia ter saído directamente do repertório de uma banda rock dos anos 80, ou “Lost For Now” onde chegamos a sentir não tão discretos certos ambientes folk-rock provenientes da guitarra acústica e da sua voz que canta algo nasalada, enquanto a sonoridade jazz e o soul do ADN de Bilal de “Never Be The Same” e de “Back To Love” já nos aproximam da identidade sonora de “In Another Life” ainda que não se encontre qualquer referência sonora ao hip-hop e ao rap nestas faixas o que, afinal, corresponde apenas a mais uma surpresa que Bilal nos habitua a não estranhar, a par da ausência de qualquer convidado.

 



 

“Cake and Eat It Too”, “Little One” e “Levels”, extraídas de “Airtight’s Revenge de 2010, ilustram também o seu talento para criar música soul clássica e, ao mesmo tempo, experimentalista, numa época em que o mercado em quase toda a sua globalidade inflectia na direcção contrária.

Após trezentas mil cópias vendidas do álbum de 2001 “1st Born Second”, mais de quinhentos mil downloads do álbum nunca editado Love For Sale de 2006, uma nomeação para Grammy pela faixa “Little Ones” de “Airtight’s Revenge” e o bem recebido “A Love Surreal” no top-ten albuns of the year da People’s Magazine e, bem mais importante para si, após os seus anos de carreira e da sua consciência artística, Bilal sente-se em total sintonia consigo mesmo e não necessita de provar nada mais a não ser a si mesmo, perante as opiniões dos outros que não deixando de valorizar pouco ou nada o fazem desviar do trajecto artístico em que acredita.

Para uma personalidade como a de Bilal e os seus ideias, não existiria melhor cenário para uma entrevista que a exposição de Basquiat no Brooklyn Museum, onde o artista fala à revista Complex da sua carreira, da sua música e das suas letras, da bandeira que empunha e da insistência do mercado em rotulá-lo como como artista do movimento neo-soul dos anos 00 e que rejeita veemente afirmando que é um músico de jazz.

 

 

Em tempos em que muitos artistas esvaziam os seus discursos e posições, calam quaisquer palavras de ordem que assomem à sua boca e baixam os braços que poderiam erguer alguma bandeira, seja ela a de Bilal ou qualquer outra, Bilal representa um exemplo perfeito de quem se expressa através da música, enquanto forma de arte, segundo o que acredita que deve ser ouvido, mesmo que tal não seja o que é mais fácil de ser ouvido. Sem abdicar da coerência consigo mesmo e da sua visão artística, “In Another Life” é um sensacional álbum de música que nos faz mergulhar numa estética jazz e soul plena de autenticidade e reinvenção.

 

 

 

 

Tracklist:

1. Sirens II
2. Star Now
3. Open Up The Door
4. I Really Don’t Care
5. Pleasure Toy feat. Big K.R.I.T
6. Satellites
7. Lunatic
8. Money Over Love feat. Kendrick Lamar
9. Love Child
10. Holding It Back feat. Kimbra
11. Spiralling

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




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2016-10-03


GONJASUFI – DESCIDA À CAVE REAL E PSICOLÓGICA
 

2016-08-29


AGORA QUE 2016 VAI A MEIO
 

2016-07-27


ODONIS ODONIS – A QUESTÃO TECNOLÓGICA
 

2016-06-27


GAIKA – ENTRE POLÍTICA E MÚSICA
 

2016-05-25


PUBLIC MEMORY – A TRANSFORMAÇÃO PASSO A PASSO
 

2016-04-23


JOHN CALE – O REECONTRO COM O PASSADO EM MAIS UMA FACE DO POLIMORFISMO
 

2016-03-22


SAUL WILLIAMS – A FORÇA E A ARTE DA PALAVRA ALIADA À MÚSICA
 

2016-02-11


BIANCA CASADY & THE C.I.A – SINGULARES EXPERIMENTALISMO E IMAGINÁRIO
 

2015-12-29


AGORA QUE 2015 TERMINOU
 

2015-12-15


LANTERNS ON THE LAKE – SOBRE FORÇA E FRAGILIDADE
 

2015-11-11


BLUE DAISY – UM VÓRTEX DE OBSCURA REALIDADE E HONESTA REVOLTA
 

2015-10-06


MORLY – EM REDOR DE REVOLUÇÕES, REFORMULAÇÕES E REINVENÇÕES
 

2015-09-04


ABRA – PONTO DE EXCLAMAÇÃO, PONTO DE EXCLAMAÇÃO!! PONTO DE INTERROGAÇÃO?...
 

2015-08-05


BILAL – A BANDEIRA EMPUNHADA POR QUEM SABE QUEM É
 

2015-07-05


ANNABEL (LEE) – NA PRESENÇA SUPERIOR DA PROFUNDIDADE E DA EXCELÊNCIA
 

2015-06-03


ZIMOWA – A SURPREENDENTE ORIGEM DO FUTURO
 

2015-05-04


FRANCESCA BELMONTE – A EMERGÊNCIA DE UMA ALMA VELHA JOVEM
 

2015-04-06


CHOCOLAT – A RELEVANTE EXTRAVAGÂNCIA DO VERDADEIRO ROCK
 

2015-03-03


DELHIA DE FRANCE, PENTATONES E O LIRISMO NA ERA ELECTRÓNICA
 

2015-02-02


TĀLĀ – VOLTA AO MUNDO EM DOIS EP’S
 

2014-12-30


SILK RHODES - Viagem no Tempo
 

2014-12-02


ARCA – O SURREALISMO FUTURISTA
 

2014-10-30


MONEY – É TEMPO DE PARAR
 

2014-09-30


MOTHXR – O PRAZER DA SIMPLICIDADE
 

2014-08-21


CARLA BOZULICH E NÓS, SOZINHOS NUMA SALA SOTURNA
 

2014-07-14


SHAMIR: MULTI-CAMADA AOS 19
 

2014-06-18


COURTNEY BARNETT
 

2014-05-19


KENDRA MORRIS
 

2014-04-15


!VON CALHAU!
 

2014-03-18


VANCE JOY
 

2014-02-17


FKA Twigs
 

2014-01-15


SKY FERREIRA – MORE THAN MY IMAGE
 

2013-09-24


ENTRE O MAL E A INOCÊNCIA: RUTH WHITE E AS SUAS FLOWERS OF EVIL
 

2013-07-05


GENESIS P-ORRIDGE: ALMA PANDRÓGINA (PARTE 2)
 

2013-06-03


GENESIS P-ORRIDGE: ALMA PANDRÓGINA (PARTE 1)
 

2013-04-03


BERNARDO DEVLIN: SEGREDO EXÓTICO
 

2013-02-05


TOD DOCKSTADER: O HOMEM QUE VIA O SOM
 

2012-11-27


TROPA MACACA: O SOM DO MISTÉRIO
 

2012-10-19


RECOLLECTION GRM: DAS MÁQUINAS E DOS HOMENS
 

2012-09-10


BRANCHES: DOS AFECTOS E DAS MEMÓRIAS
 

2012-07-19


DEVON FOLKLORE TAPES (II): SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA COM DAVID CHATTON BARKER
 

2012-06-11


DEVON FOLKLORE TAPES - PESQUISAS DE CAMPO, FANTASMAS FOLCLÓRICOS E LANÇAMENTOS EM CASSETE
 

2012-04-11


FC JUDD: AMADOR DA ELETRÓNICA
 

2012-02-06


SPETTRO FAMILY: OCULTISMO PSICADÉLICO ITALIANO
 

2011-11-25


ONEOHTRIX POINT NEVER: DA IMPLOSÃO DOS FANTASMAS
 

2011-10-06


O SOM E O SENTIDO – PÁGINAS DA MEMÓRIA DO RADIOPHONIC WORKSHOP
 

2011-09-01


ZOMBY. PARA LÁ DO DUBSTEP
 

2011-07-08


ASTROBOY: SONHOS ANALÓGICOS MADE IN PORTUGAL
 

2011-06-02


DELIA DERBYSHIRE: O SOM E A MATEMÁTICA
 

2011-05-06


DAPHNE ORAM: PIONEIRA ELECTRÓNICA E INVENTORA DO FUTURO
 

2011-03-29


TERREIRO DAS BRUXAS: ELECTRÓNICA FANTASMAGÓRICA, WITCH HOUSE E MATER SUSPIRIA VISION
 

2010-09-04


ARTE E INOVAÇÃO: A ELECTRODIVA PAMELA Z
 

2010-06-28


YOKO PLASTIC ONO BAND – BETWEEN MY HEAD AND THE SKY: MÚLTIPLA FANTASIA EM MÚLTIPLOS ESTILOS