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MÚSICA


SAUL WILLIAMS – A FORÇA E A ARTE DA PALAVRA ALIADA À MÚSICA

RICARDO ESCARDUÇA

2016-03-22



 

 

“Martyr Loser King”, o mais recente álbum de Saul Williams, é tão melhor entendido, e apreciado, quanto mais profundamente se conhece o seu vasto e assinalável percurso pessoal e artístico.

Antes de músico, ao contrário de muitos outros que encontra nas novas e nas veteranas gerações, que entende exclusiva e egocentricamente concentrados no seu sucesso comercial produzindo sucessivos trabalhos de mero entretenimento que entende artística e socialmente pouco relevantes com o objectivo único de atingir os lugares cimeiros das tabelas de vendas, enunciando até exemplos de artistas que, em singulares confissões, chegaram já a afirmar sobre si mesmos “I dumbed down my lyrics and doubled my sales.”, nos quais detecta uma consciência frívola e superficial, inactiva e amputada de qualquer móbil socialmente profundo e significativo, e uma voz oca e vazia de qualquer substância, que se limita a emitir insípidas e sensaboronas banalidades que lhes garanta notoriedade social, ou por vezes e até mesmo quando, intitulando-se como socialmente conscientes, constata confinarem-se afinal a pontuais e diminutas acções, posições e discursos de intervenção social que requerem um reduzido e inconsistente envolvimento, que não consegue deixar de sentir como uma calculada estratégia promocional não aderente a honestos e reais intentos ou, se não tanto, como uma intencional mas inconsequente postura que se extingue antes de chegar a iniciar-se, e juntando-se a alguns outros que, opostos àqueles, não evitam olhar, desconstruir e analisar o mundo e a comunidade na qual se sentem inseridos, da qual sentem ser um mais entre todos, e, conduzidos pelo seu ímpeto intrínseco que não refreiam, real e activamente preocupados e mobilizados na conquista pelo bem-estar geral, não abdicam da revolta e da denúncia perante o que condenam e o que reprovam e de expressar a sua mensagem através dos mais variados meios que sentem ser os mais coerentes com a sua natureza pessoal e artística, Saul Williams é um desafiador, um denunciador e um contestador.


(música com letra de conteúdo explícito)

 

Antes de músico, Saul Williams é, por vezes quase incendiário sem sujeições condicionadoras impostas e sem cedências concedidas a grupos, conceitos, sistemas ou paradigmas sociais, políticos e económicos, um activista comprometido numa incessante e incansável luta pela sua verdade vista pelos seus olhos, pela igualdade e pela justiça sociais, cuja palavra insurgente, questionadora e insubordinada, sempre relevante e pertinente na qual não cabem baças trivialidades, é apontada a temas como a forma como o combate ao terrorismo é promovido através de conflitos armados e posteriores “colonizações pacíficas” no Médio Oriente e os interesses vários nelas escondidos, a disparidade social e económica que se faz sentir seja num determinado país ou à escala mundial entre o primeiro e o terceiro mundo, exercida pela minoria financeira e governamental ditadora e controladora do 1% que, em favor dos seus interesses pessoais, comanda e subjuga os restantes 99% sob o manto disfarçado dos valores democráticos e sociais mais elevados tal qual o Occupy Movement expõe, a violência e a brutalidade policiais exercidas ao abrigo de uma autoridade explorada em abuso à qual estão implícita ou explicitamente associadas heranças de segregação racial ainda não extintas, a luxúria consumista ininterruptamente crescente e possibilitada pelos ininterruptos avanços tecnológicos que os grandes poderes económicos encorajam, a natureza dual da internet que, por um lado, possibilita mais abrangentes e mais rápidas comunicação e informação e, por outro, inibe, restringe e oprime o pensamento e o juízo próprios, livres e pessoais independentes de mensagens massificadas e influenciadoras e distorce e manipula opiniões e convicções ao difundir não-verdades, meias-verdades que, repetidas infinitamente, acabam transformadas em verdades, ou as fraquezas e debilidades de personalidade individual quando subjugada à exagerada e obcecada necessidade de aceitação e de visibilidade que os social media provocam e que, por sua vez, num ciclo que se alimenta a si mesmo, geram crescente perda de privacidade e de intimidade.

 

 

Seja levantando o olhar sobre o mundo em que caminha e com o qual interage ou mergulhando na profundidade do seu núcleo emocional, acutilante, penetrante, profundo e invulgar, Saul Williams pretende incomodar e forçar para lá da zona de conforto, desequilibrar e desafiar o status-quo e provocar respostas e reacções, em si mesmo e em quem o ouve – uma ameaça rebelde e radical da qual se pode esperar afirmações como “I want the politicians, police, and all who stand in the face of democracy with overzealous self-interest to know that their candle is burning at both ends and that the collective WE will never be silenced, and the more they try, the more our voices will be heard. The technology of awareness is solar powered and cannot be turned off.”

Mais do que músico, Saul Williams é um artista firme e inabalavelmente dedicado à temática social da geração contemporânea: um actor, compositor, cantor, rapper, escritor, envolvido em cada uma destas práticas artísticas com igual empenho e compromisso e cuja missão contínua, enquanto artista, é desafiar-se criativamente a si mesmo no conteúdo e na forma de qualquer uma destas expressões na perseguição de uma determinada lucidez e consciência artística que almeja e, ao mesmo tempo, aceder e atingir de facto a sensibilidade das pessoas que o escutam de uma forma efectivamente inspiradora e mobilizadora que transcenda e se eleve acima da mera crítica ou reconhecimento artísticos, privilégio concedido em ’10 aquando da sua já demasiado distante passagem pelos palcos de Lisboa.

 

 

Natural de Newburgh, nos arredores de NY, já escrevendo poesia enquanto criança e adolescente em resultado dos seus estudos de arte dramática que o empurraram para a poesia e a literatura – a letra de “Black Stacey”, que consta do seu segundo LP “Saul Williams” de 2004, remete para os complexos e inseguranças que cedo desenvolveu enquanto criança e jovem devido à cor de pele, sentimentos que inquestionavelmente marcaram e marcam a sua vida –, formado em filosofia e pós-graduado em arte dramática, período de estudos durante o qual desperta para a política, Williams deixa a sua individualizada, pessoal e tocante marca na cena open-mic nova-iorquina dos anos ’90 dos íntimos cafés literários de spoken-word e poesia free-style original e de autor em performances memoráveis, arrepiantes e vibrantes, que rapidamente o fazem caminhar lado-a-lado com os nomes maiores desse universo urbano literário e pensador. A par de Amiri Baraka, Jessica Care Moore ou Beau Sia, entre inúmeros outros, contribui para que o Nuyorican Poets Café, uma organização sem fins lucrativos localizada em Lower East Side, fórum de poesia, Hip-Hop, artes visuais, teatro e outras formas de expressão artística, se tornasse numa verdadeira instituição cultural e, integrando um colectivo representativo da instituição, vence em ’98 um concurso nacional anual de open-mic poetry, o que o leva a ser recebido já nos anos ’00 por Mos Def no palco do Def Poetry Jam, uma série de programas da HBO dedicada à poesia spoken-word por onde passavam poetas e autores já reconhecidos e ainda emergentes, a par de músicos e actores estabelecidos que aí se apresentavam sob a batuta do produtor Russel Simmons, dinâmico empresário co-fundador da editora musical Def Jam Recordings dedicada à promoção do Hip-Hop e diversos outros empreendimentos de negócio e não-lucrativos, mas também um proeminente activista já reconhecido e galardoado por diversas universidades e por cargos em Fundações e nas Nações Unidas. Antes ainda, em ’98, a carreira de Williams enquanto actor recebe um efectivo impulso em resultado da sua participação no filme independente “Slam”, dirigido e produzido por Marc Levin, produtor e realizador cinematográfico independente já premiado por diversas ocasiões, que recebeu o Grand Jury Prize for a Dramatic Film no Sundance Film Festival e o Camera d’Or em Cannes. Em “Salm”, Williams participa não só como co-argumentista mas desempenha também o papel de Ray Joshua, um dos principais personagens, um poeta urbano desconhecido mas com esperança no seu futuro e que, em resultado de infortúnios vários, se vê encarcerado sob acusações relacionadas com drogas e que inspira os outros prisioneiros a quebrar o ciclo viciado e sem-fim de injustiça / segregação / violência / crime através da sua oratória feroz mas pura a respeito do sistema judicial e criminal. Seguem-se colaborações ainda em ’98 no filme documental “Slam Nation”, apresentado no SXSW Film Festival de ’98, que exibe a arte apresentada na edição de ’96 do concurso National Poetry Slam de récita de poesia original de autor em que participou a equipa de poetry slam do Nuyorican Poets Café de cujos integrantes constou Williams, em ’00 numa participação vocal da reedição desse ano do filme “Downtown 81” que retrata a vivência no Village nova-iorquino da cultura post-punk encabeçada por Jean-Michel Basquiat, em ’04 enquanto personalidade entrevistada no documentário “The N-Word” que aborda o histórico emprego da palavra nigger, entre várias outras participações até ’12, ano em que encabeça novamente um elenco no filme “Aujourd’hui” de produção franco-senegalesa, premiado na edição de ‘13 do Venice Film Festival, encarnando Satché, o personagem principal de uma sucessão de acontecimentos em Dakar, local onde cresceu e ao qual regressa após deixar a América, decidido a tornar memorável e significativo o seu último dia de vida numa interpretação que o fez merecedor do prémio de Melhor Actor no FESPACO, o mais relevante festival de cinema africano que acontece no Burkina Faso; em ’14 e ainda enquanto actor, mas desta feita nos palcos da Broadway no musical “Holler If Ya Hear Me”, um dos raros musicais Hip-Hop da Broadway, com guião original de ficção de autoria de Todd Kreidler, inspirado na música e letra do consagrado e malogrado Tupac Shakur, que oferece uma perspectiva sobre diversas realidades, sobrevivências, adaptações, conflitos e busca por redenção na selva cruel das grandes urbes em constantes mutações, Williams figura no papel de John, personagem principal, um ex-condenado que procura reconstruir a sua vida numa cidade pequena. Longe dos palcos e dos écrans, e além da presença regular em publicações como a New York Magazine, a Esquire ou a African Voices, a sua constante irrequietude criativa já lhe granjeou posição de relevo no universo literário da poesia após a publicação de seis livros de poesia, dos quais se destacam como melhor recebidos os títulos “Said the Shotgun to the Head” de 2003, “The Dead Emcee Scrolls, The Lost Teachings Of Hip-Hop” de 2006 ou o mais recente “US(a)” em Setembro passado.

 

 

Mais do que músico, ou do que qualquer uma das outras formas de expressão artística que integram o seu diversificado vocabulário artístico, o espírito permanentemente desassossegado, sensível, atento, permeável, opinativo, insubmisso, insurgente, de Saul Williams é o de um poeta, despojado de vaidades e de egos mas aguerrido e temerário nas suas convicções, e a sua linguagem e a sua expressão, plenas de referências, metáforas, imagens e alusões, ora subtis, perspicazes e engenhosas, ora perfurantes, mordazes e corrosivas, ora humoradas, sarcásticas e cáusticas, estão sempre intimamente impregnadas de uma densa mensagem interventiva na dimensão social e política. Mais do que músico, Williams é um dinâmico e multifacetado explorador, um orgânico e criativo experimentador da música, da palavra e da representação, com uma significativa carreira erguida sobre profundo e relevante conteúdo de protesto rebelde e de contestação revolucionária que rejeita adornos comerciais, na qual cada uma das formas de expressão artística, para si continuamente insuficientes por elas mesmas, espontaneamente conduz à outra e todas se entrecruzam afinal, transcendendo o mero engavetamento nesta ou naquela prática, num cruzamento multidisciplinar onde encontra o seu equilíbrio artístico, ligado e cimentado pela sua inteligente e poética prática de spoken-word que, destacando-se ainda além de vários outros artistas líricos e músicos, já por si mesmos pertinentes mensageiros activistas e contestatários (e da imensa mole de músicos desinteressados de qualquer intervenção que os desvie do sucesso massificado mas desprovido de conteúdo), alarga e estende o âmbito da sua genuína, sincera e personalizada palavra contestatária a uma perspectiva mais vasta que, estendendo a mão, evoca e proclama a compaixão e a empatia com igual ênfase.

Enquanto músico, é natural serem os diversos terrenos do Hip-Hop que Williams pisa. Absorvendo os fenómenos de Hip-Hop que explodiam durante os anos ’90, é neste género musical que funde a sua poesia com a música, explorando a musicalidade do seu rap e da sua spoken-word. O Hip-Hop é, afinal, não em exclusivo face a outros registos musicais, mas em resultado das suas origens na década de ’70 enquanto movimento cultural de música, poesia e outras expressões artísticas nascido nas block-parties das comunidades e dos guetos afro-americanos, latinos e jamaicanos com inúmeros problemas de integração social e económica, onde os sound-systems dos DJ’s e dos MC’s eram as cordas dos ringues e as luvas das suas battles contestadoras mas pacificadoras, um género musical que tendencialmente acolhe tantos músicos e artistas cuja consciência e postura activas se demarcam de todos aqueles neutros, desinteressados e passivos politicamente e socialmente. Na música, Williams encontra o veículo mais eficiente para a sua voz, consciente da capacidade da música em agrupar pessoas e gerar potentes dinâmicas.

 

 

‘01 é o ano em que Williams abre o pulmão e, sem contemplações ou hesitações, crava o seu estandarte musical com uma marcante estreia de longa-duração em “Amethyst Rock Star”, um conjunto de doze faixas com música e letra de sua autoria (salvo colaborações pontuais na composição de algumas faixas e o emprego pontual de samples de Nine Inch Nails e de Rage Against The Machine) das quais destacamos “Robeson”, “Fearless” e “Our Father”. Produzido pelo histórico Rick Rubin, cujo coldre produtivo já disparou dezenas de tiros certeiros em álbuns de LL Cool J, Run DMC, System Of A Down, Rage Against The Machine, The Cult, Linkin Park ou The Smashing Pumpkins, para nomear apenas alguns dos inúmeros e sonantes nomes que constam nas suas produções, o álbum desvenda e revela de rompante os diferenciados e singulares ecletismo e diversidade musicais de Williams que, às suas significativas letras proclamadas em áspero e anguloso Rhythm And Poetry e em spoken-word, sobrepõe as correntes inovadoras dos anos ’80 de ambas as margens do oceano recorrendo a sequências de sombrios samples ritmados e quebrados do Breakbeat do leste americano na sua característica técnica back to back e, ao mesmo tempo, indo ao encontro do Jungle e do Drum & Bass britânicos nas linhas de bateria fortes, rápidas e quebradas, e das frases de baixo graves e encorpadas, que mais tarde contribuem para o surgimento do Trip-Hop cujas nuances também encontramos aqui e ali em “AMR”, agregando ainda elementos de Punk-Rock em abrasivas guitarras, estabelece o seu estilo absolutamente individualizado e personalizado de Hip-Hop e sobressai enquanto primordial e poderoso letrista e poeta, apesar de, na altura, o álbum ter desmerecidamente recebido críticas mistas por parte da imprensa, entre louvor e indiferença, e ter passado algo despercebido do público, ainda que esses contratempos não viessem a apagar as incontornáveis geniais pegada artística e postura interventiva reconhecidas mais tarde.

 

 

Em ’03, em protesto contra a política americana de guerra no Iraque, Williams lança o EP “Not Im My Name”, composto por originais e remixes, ao qual se sucede em ’04 o segundo LP de carreira “Saul Williams”, novamente em protesto lírico e vocal explícito contra a dominante e monopolizadora predominância americana em acções onde não vê preservados os seus valores comunitários e sociais. “Grippo” e “List of Demands” são dois distintos e destacados exemplos que ilustram o carácter reivindicativo e insurrecto do trabalho para cuja estética sónica, sempre amplamente desdobrada em novos territórios do Hip-Hop com acrescida personalidade Punk-Rock, Industrial Electro e Industrial Metal em acelerados ritmos duros e rugosos, estridentes guitarras plenas de distorção e uma série de elementos electrónicos sintetizados, não serão indiferentes, neste caso, as participações de Zach de la Rocha, dos Rage Against The Machine, e de Serj Tankian, dos System Of a Down, entre outros, apesar de se encontrarem, na globalidade das doze faixas do álbum, algumas outras que, talvez tornando-se melodicamente apelativas a um público mais vasto e diluído, não evitam ver a sua personalidade sonora algo diminuída e descaracterizada.

 

 

Um dos mais elevados marcos da carreira de Williams enquanto músico surge em ’07 com as vinte faixas de “The Inevitable Rise and Liberation of Niggy Tardust”, das quais extraímos “Convict Colony”, “Break”, “WTF!” e “Banged And Blown Through”. Inspirado nas publicações de poesia de Williams, o álbum resulta de uma proeminente e estreita parceria criativa com o músico e produtor Trent Reznor, figura de proa da consolidada banda de Industrial Rock Nine Inch Nails, uma outra voz e consciência socialmente activas e indomáveis. As naturezas musicais complementares dos dois artistas produzem um electrizante e enérgico ambiente musical pleno de camadas maciças e densas, carregado de sobreposições sonoras de pesadas guitarras de Industrial-Rock esticadas em extensas distorções, fortíssimos beats de natureza tribal, inúmeros e variados samples musicados e graves linhas melódicas de sintetizadores ásperos e pedregosos, sobre os quais Williams, cantando e falando, descarrega os seus versos reaccionários e libertadores, que, sem entrar em embates conflituosos ou anulações dissonantes entre si mesmas, dão, pelo contrário, origem a uma genial sonoridade híbrida e equilibrada que poucos artistas conseguem alcançar em que o Hip-Hop, o Punk, o Industrial e o Electro convivem e interagem. Em “The Inevitable Rise and Liberation of Niggy Tardust”, Williams estabelece ainda indirectas pontes de contacto com dois outros artistas: o personagem Niggy Tardust corresponde à sua homenagem a David Bowie, um artista que respeita e admira pela coerência, integridade e genuinidade artísticas com que conduziu a sua carreira, tomando unicamente as opções e os caminhos criativos em que acreditava sem complacências perante as leis do mercado e perante os temas e conteúdos envenenados com que, segundo crê, muitos media poluem a sociedade; também, em protesto contra os excessivos intermediários que interesseiramente se colocam entre o artista e o seu público, e à semelhança do que os Radiohead haviam feito pouco tempo antes com o seu “In Rainbows” do mesmo ano, Williams comercializa o álbum para download com três opções de pagamento – sem custos até um número limite de 100.000 downloads, com o custo de US $5 ou sob o regime name-your-price coomo forma de suporte do público ao artista é à criação artística em geral; dispensando comentários adicionais, regista-se que, de entre os trabalhos lançados até ao momento, este foi álbum de Williams que recebeu maior número de downloads e de valor adquirido.

Intencional ou casualmente, e após o considerável cunho deixado na estreia de ‘01 por “Amethyst Rock Star”, sedimentado pelo mais assinalável “The Inevitable Rise and Liberation of Niggy Tardust” de ’07, “Volcanic Sunlight”, lançado em 2011, regressa, inesperadamente e em certa medida, aos ambientes sonoros menos ousados e menos vanguardistas que se fazem sentir pontualmente em “Saul Williams”. Recebido e intitulado como o seu trabalho Pop, as facetas Industrial, Rock e Punk dos outros trabalhos e a sua aliança ao sempre presente traço Hip-Hop de Williams que tanto o torna distinto são abandonadas, e são inegáveis as presenças de elementos Disco e Dance-Pop na batida up-tempo ritmada e homogénea, e no Funk dos grooves de estrutura simples e unidimensional do piano eléctrico e dos riff’s e linhas de guitarra lineares de “Dance” e de “Give It Up” ou na personalidade Pop de “Diagram”, entre várias outras, que os poucos exemplos, como “Explain My Heart”, uma distante aproximação ao que se espera de Williams, ou o carácter Pop-Rock meramente agradável de “Innocence” e de “New Day”, não evitam que a globalidade do álbum se esfume e desvaneça sem deixar memória, salvo a ilustração da contínua e ampla diversidade musical de Williams que, neste caso, entendemos ter perdido o controlo da sua torrente criativa.

 

 

Após a edição de “Volcanic Sunlight”, que já o havia levado a Paris, Williams estabelece-se na capital francesa durante quatro anos, de onde regressa para integrar o elenco de “Holler If Ya Hear Me” e dedicar-se à escrita de “US(a)”, não sem tornar-se durante este período um verdadeiro andarilho, procurando outros ambientes e percorrendo países com populações com fracas possibilidades económicas e com inexistentes ou deficitárias estruturas sociais, marginalizadas, controladas e asfixiadas por sistemas políticos corroídos e classes autoritárias minoritárias infectadas pelos seus interesses, em sociedades frágeis e instáveis onde, ainda assim, as ruas se enchem em multidões revoltadas e reclamantes dos direitos mais fundamentais, como o Senegal, ocupado na filmagem de “Aujourd’hui”, o Haiti, a Swazilândia ou as Ilhas Reunião, nos quais as estadias prolongadas e o tempo livre lhe permitiam efectivamente mergulhar e absorver as dinâmicas culturais e sociais e o fértil exotismo criativo e artístico sempre eruptivo, e aperceber-se que a pirâmide etária desses países tem uma enorme e alargada base de jovens que exibem os seus inúmeros gadgets e aparelhos electrónicos e tecnológicos, alguns deles utilizados na produção de melodias ritmadas e beats que enchem as ruas, ao mesmo tempo que, maravilhado, os vê esticar uma pele de animal sobre uma moldura rústica e, regressando às tradições e valorizando-as, produzir sons e ritmos.

“Martyr Loser King”, quinto LP de carreira de Williams, lançado em 29 de Janeiro último pela nova-iorquina Fader Label, nasce das fortes impressões retidas e assimiladas neste período: das viagens tão inspiradoras quanto perturbadoras, da clara noção de que é com a jovem geração tecnológica que pretende comunicar e difundir a mensagem da voz levantada, do punho erguido e da necessidade de uma radical mudança, do seu envolvimento no Occupy Movement em Paris, ao mesmo tempo que assiste à distância aos sucessivos episódios com conotação racial e repercussão social entre a polícia americana e cidadãos.

Em “Martyr Loser King”, Williams aborda e condena a dinâmica das redes sociais à escala global que, em lugar de revelar a verdades contra as quais se manifesta – a exploração económica dos recursos do Terceiro Mundo pelo Primeiro Mundo, a violência policial que acontece simultaneamente em diferentes regiões do planeta e diferentes sociedades motivada por opressão social e política ou por racismo – a expressão geral do abstracto e invisível poder instalado, hipócrita e não comunitário, que vê acontecer em todo o lado e ao mesmo tempo –, difundir informação e formar conhecimento e opinião crítica, é inundada e manipulada por desinformação e vazio entretenimento com o objectivo de atordoar, adormecer e até mesmo assustar as mentes apáticas, ignorantes e dominadas. Mas Williams entende a internet e as redes sociais também como uma nova fronteira a ultrapassar, libertadora e plena de potencial se bem direcionada, e usa a sua música e a sua palavra como a sua contribuição para inspirar as vozes e os movimentos de revolta contra esse poder que pretendem quebrar o ciclo vicioso global.

Williams opta por contar a sua história através de personagens imaginados, plenos de imagens conceptuais e simbólicas da realidade, que cria como forma de incorporar a sua mensagem, de realçar a beleza e a poesia inerentes à sua revolução. Para Williams, o actor sedento e revoltado, estes personagens são aqueles cujo papel mais deseja interpretar e representar, ao mesmo tempo que lhe concedem a liberdade adicional, se é que dela carece, para expressar toda a sua irreverência e rebeldia nessa realidade paralela e fictícia. À semelhança de Niggy Tardust, cria agora Martyr Loser King como apelo à energia rebelde que acredita existir nas gerações jovens: um habitante de uma povoação empobrecida do Burundi que é destruída e transformada numa mina dedicada à extracção de um específico minério que provém, à escala mundial, na sua maioria dessa região do continente africano composta pelo Burundi, Rwanda e Congo, e fundamental para o fabrico dos componentes dos telemóveis e dos computadore pelas empresas do Primeiro Mundo e que, deambulando pelos campos de detritos e lixo tecnológico obsoleto varrido para o Terceiro Mundo, junta peça a peça e constrói um novo abrigo com teclados, fios, monitores, discos rígidos e, vivendo dentro de um computador e aprendendo sozinho programação, transforma-se num incógnito e virtual hacker à escala mundial que, personificando o espírito rebelde mas puro que Williams pretende inspirar contra o capitalismo imperialista e colonialista actual, aplica o hacking com finalidades distintas das dos criminosos informáticos ou dos próprios governos contemporâneos, invade várias instituições governamentais, militares e corporativas, mas também as consciências individuais adormecidas, com mensagens denunciadoras das atrocidades que acontecem nas minas e também conteúdos artísticos e reaccionários aos paradigmas e às regras impostas, despoletando um culto e uma revolução e transformando-se num terrorista procurado pelos governos. O álbum é um dos pilares de um ambicioso projecto multimedia mais vasto: o lançamento do álbum foi precedido de uma digressão de performances musicais e líricas nos Estados Unidos em que o conceito de “Martyr Loser King” foi encenado, prepara o lançamento em ’16 de um livro ilustrado com o designer gráfico Ronald Wimberly e com a editora First Second Books e, possivelmente, a rodagem de um filme.

 

 

O nome do álbum, e do respectivo personagem, surge, por mera coincidência, em conversas casuais com a sua mulher, francófona e natural do Rwanda, e outros amigos, que pronunciam incorrectamente o nome do mítico líder e lutador dos direitos civis americano mas, reflectindo sobre o mesmo, rapidamente Williams estabelece paralelismos com a sua mensagem repletos de simbologia: Martyr refere-se aos poucos que Williams pretende honrar e evocar, à pequena fatia de 1%, às personalidades ou aos anónimos, assassinados, aprisionados ou condicionados numa liberdade encapotada e fraudulenta, que, como mártires, se entregam corajosa e desinteressadamente ao serviço da humanidade; Loser presta tributo aos que entende como reais vencedores, aos que, mesmo não eleitos como vencedores à luz da visão e do mundo capitalista e mainstream, são, para Williams, que afirma “You just need to look at how often Donald Trump uses the word ‘loser’ to understand what he means”, os reais vencedores por não subscreverem os valores deturpados dessa sociedade desumanizada e competitiva; King, apesar de não intencionar possuir qualquer valor patriarcal ou monárquico, é, na verdade, com ironia, interpretado e aplicado por Williams devido à hipocrisia que encontra no próprio conceito – a Swazilândia, único regime de sangue real em África, é um dos países que regista maiores níveis de infecção do sangue da sua população por Sida e onde existem mais órfãos em resultado da doença, o que para Williams diz muito dos líderes, reais ou republicanos, naquele país ou em qualquer outro, que se protegem e defendem do que não protegem e defendem a comunidade que supostamente conduzem; Williams vai mais longe e, abordando a temática das diferentes religiões, afirma que o Cristianismo permite que apenas um único crente terreno tenha alguma vez atingido a qualidade divina quando, por seu lado, qualquer budista pode atingir a iluminação de Budha.

Ainda que tão cedo em ’16, não sentimos correr nenhum risco ao colocar “Martyr Loser King” como um dos mais relevantes álbuns de Hip-Hop do ano, e um dos mais coesos e conseguidos da carreira de Williams. A sonoridade de “MLK” é um regresso ao ovacionado e aclamado ambiente musical de “The Inevitable Rise and Liberation of Niggy Tardust”, ambos consagrando Williams enquanto um muito interessante e relevante artista, apesar de discreto perante o grande público, porventura devido à diversidade das suas diferentes práticas artísticas, à sua convicta e firme mensagem de protesto e, sem dúvida, à sua voluntária postura marginal e alheia a visibilidade comercial e social.

Desta feita associado ao músico e produtor Justin Warfield, cuja contribuição sentimos evidente, conhecido de entre os seus vários projectos e colaborações como o frontman do duo She Wants Revenge, que agrega a sua combinação de Electro-Rock, Industrial Rock e Darkwave inspirada em bandas M83, Depeche Mode, Joy Division ou Bauhaus, justapondo irregularidades assimétricas num insólito e bem conseguido equilíbrio, Williams continua a forjar a sua excepcional música singular, exclusiva e original de um Hip-Hop progressista que, expandido largamente nas suas fronteiras, integra e funde em si mesmo intensas sonoridades de samples e sintetizadores Electro, harmoniosas melodias de piano clássico e de violino, estruturas de bombardeadoras percussões rítmicas em sucessões minimalistas e alternadas de beats de música tribal africana e breaks interruptores, e a atmosfera irreverente do Punk-Rock e Industrial-Rock, tão facilmente quanto a sua voz, que constitui um fundamental instrumento adicional ora musculado ora suavizado, dispara as rajadas da sua poesia em spoken-word fortemente ritmada, cadenciada e musicada, repleta de mensagens e conteúdos políticos e sociais inter-relacionados tão relevantes e provocadores quanto as suas melodias vocais, numa ímpar ponte entre a contemporaneidade digital electrónica e a ancestralidade primitiva tribal. À semelhança do trabalho de ’07, nas suas letras e na sua música, o extraordinário conjunto das doze faixas de “Martyr Loser King” cria uma atmosfera sonora incómoda mas inspiradora, tão perturbante e intoxicante quanto magnetizante e inebriante, afinal o estimulante mote artístico de Williams.

Destacamos a notável “Think Like They Book Say”: após as rítmicas linhas introdutórias de beats e baixo com apontamentos de cordas, que ao início não fazem adivinhar o que se lhes segue mas começam gradualmente a encorpar, o break pontual e marcante abre espaço para o frenetismo descontrolado da bateria e dos címbalos e dos powerchords inflamadores e de breves frases estridentes da guitarra eléctrica que acompanham a voz de Williams, que nos metralha o seu Rap bélico debitando versos “… They cannot imagine if they do not see it in a book / Even when they see it it's their book that tell them how to look / … / Met a girl on Friday and I did not see her in no book / Ain't no Vogue or Cosmo that can tell me how she supposed to look / … / Truth is not a theory that can be imprisoned in any book…”, ou em “…Think black them think gay / Think like they book say / … / Think white them think straight / Think like they book say / … / She was once a he, was once an argument against the book / Mommy and her daddy loved her she became the form the took…” com a mira apontada simultaneamente aos media que se ditam critérios, “eles”, os que que abdicam de opinião e pensamento próprio, às doutrinas restritivas da transsexualidade intersectada com notas de temática racial.

Igualmente impressionante é “All Coltrane Solos At Once”, um protesto e um apelo hipnóticos e corrosivos partilhados com o rapper Hallek Maul, em que Williams e Warfield produzem um Hip-Hop sombrio, contaminante e ignóbil, pleno de distorções e efeitos sonoros, que acompanha o simples mas incisivo refrão “F*** You, Understand Me” repetido vezes e vezes com que Williams, revoltado, afronta os agentes opressores das comunidades raciais e da sua dignidade humana, os que entende cinicamente proclamarem e defenderem a cultura inter-racial mas não defendem as reais pessoas, ao mesmo tempo que apela a eles mesmos, e aos oprimidos, que o escutem e o entendam nas suas referências raciais e esclavagistas que denuncia em “Nigga get out of here, unanimous goldmine / … / To be honest I was used to the shackles / Religious upbringing, patriarchal manchild in the promised land / My identity was encrusted with the myth of having been chosen / … / We were crowded in the shitbins of a floating toilet / Dreaming of an afterlife / Memory stored in a cloud”.

Em “Horn Of The Clock-Bike”, Williams cria um dos surpreendentes contrastes musicais do álbum e remove todo e qualquer ritmo e instrumentação, limitando-se quase em exclusivo ao loop de duas frases sequenciais de piano clássico em arpeggio melódico às quais, ainda que sem instrumentos rítmicos presentes, está implícito e inerente um ritmo e um beat que Williams deixa a cargo de cada um encontrar, inspirado pelos rituais e sonoridades de percussão africanos, nos quais a presença da percussão alternada pela sua ausência, conduz a um estado sensorial em transe que pretende provocar no ouvinte como forma de conduzir a sua consciência para a mensagem da letra, enunciando "Statues of martyrs / Hackers as artists" como forma de romper a parcela condenável e depreciativa do conceito comum de hacker, e valorizando-o como um atalho, um caminho rápido, para aceder às pessoas e comunicar a sua mensagem autónoma e independente – ele, e “MLK”: os novos hackers de ideias e de pensamento, cujo manifesto e mensagem estão contidos no fantástico excerto em spoken-word da faixa “Coltan and Cotton”.

De entre as faixas que nos são mais memoráveis, mencionamos ainda “Burundi”, na qual figura vocalmente Emily Kokal dos Warpaint, que conta a história do hacker do Burundi em “I’m a hacker, I’m a hacker in your hard drive!”, uma faixa cuja orquestração clássica crescente irrompe num frenesim rítmico de beats tribais que acompanham Williams a plenos pulmões em “I’m a candle / Chop my neck a million times / I still burn bright and stand”.

É um facto que a narrativa e a personagem “Martyr Loser King”, enquanto álbum conceptual que neles assenta, se torna repetitiva, pois resume-me a um único conceito. Por outro lado, essa narrativa e esse personagem são, mais do que isso mesmo, o veículo de Williams para aceder e contactar com as pessoas, e transmitir os seus pensamentos e as suas emoções enquanto convicto e irreverente activista fértil em mensagem que se limita, honesta e modestamente, a tentar despoletar energia revolucionária e pacificadora e que o faz através de letras e versos, concretos ou simbólicos, mas de profundos e arrebatadores impacto e significado – afinal, o que mais lhe é importante.

“Martyr Loser King”, e a globalidade diversa do projecto de Williams, é a mais recente materialização de uma carreira longa, da qual emerge a sua incontornável personalidade, sustentada por amplos e múltiplos talentos artísticos que aplica com a liberdade de quem não mede o que pode ganhar ou perder e não receia contrariar os caminhos artísticos mais seguros ou tradicionais que lhe granjeiem um sucesso comercial e massificado que não lhe é prioritário, mantendo-se continuamente disponível e mobilizado em aventurar-se em novas colaborações e em produções musicais não enformadas, revelando-se consistentemente um sensacional artista absolutamente relevante e inovador, cuja personalizada música, que sofisticadamente funde o Hip-Hop e inúmeros outros géneros, sem dúvida desafiante e “difícil”, mas claramente distinta e individualizada, aliada à sua postura pessoal, nos deixa uma memorável marca.


Tracklist :

1. Groundwork
2. Horn Of The Clock-Bike
3. Ashes
4. Think Like They Book Say
5. The Bear / Coltan as Cotton
6. Burundi feat. Emily Kokal
7. The Noise Came From Here
8. Down For Some Ignorance
9. Roach Eggs
10. All Coltrane Solos At Once feat. Hallek Maul
11. No Different
12. Homes / Drones / Poems / Drums

 




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