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MÚSICA


AGORA QUE 2016 VAI A MEIO

RICARDO ESCARDUÇA

2016-08-29



Ou mais adiantado que a sua metade, mas naquele período em que entra num estado algo suspensivo, aproveitamos o ritmo abrandado para sugerir um conjunto adicional de artistas com trabalhos lançados neste ano e aos quais não havíamos ainda dado a merecida voz.

 


River Tiber – “Indigo”

 

 

Depois de dar nas vistas com os EP’s “When The Time Is Right” de 2015 e “The Star Falls” de 2013 e em parcerias com Kaytranada, Pusha T, Mac Miller e Drake, entre várias outras, em 24 de Junho passado, Tommy Paxton-Beesley, também conhecico como River Tiber, o vocalista e produtor musical de Toronto, apresenta o seu LP de estreia “Indigo” com “Acid Test” na linha da frente. É soul, pop e r&b melódicos, sentimentais e românticos, plenos de baterias, baixos e guitarras. Melancólico e introspectivo. Mas essa pureza chega-nos tão maculada quão refinada, por assim dizer. Contaminado por uma adição electrónica de teclados sintetizadores que o tornam actualizado em alguma daquela imundície urbana actual tão atractiva. Gracioso, em contrastes aqui e ali, nos apontamentos clássicos do violoncelo em que Paxton-Beesley também pega. Tão evocativo quão contemporâneo, é distinto e deixa-nos incontornável a sua marca na memória.

 


Inna Modja – “Motel Bamako”

 

 

“Water” e “Tombouctou”, duas das faixas que apresentam o LP “Motel Bamako” da franco-maliana Inna Modja – na verdade, lançado no final de 2015 mas com o qual apenas nos cruzamos no início de 2016. À semelhança dos seus trabalhos anteriores – “Everyday Is A New Day”, de 2009, e “Love Revolution”, de 2013 –, os temas são recorrentes em Inna Modja, mas não menos relevantes: todo o enquadramento social, económico e cultural do Mali, muitas vezes de dedo em riste apontado à débil condição feminina no Mali, e a voz de denúncia e de revolta – veja-se, no vídeo de “Water”, a guerrilha traduzida no guitarrista de cara encoberta ou na muralha de sacos de areia. O ecossistema sonoro de Inna Modja reflecte o seu próprio percurso pessoal de aprendizagem musical. Ao longo dos seus três longa-duração, não são raras as faixas de Inna Modja com pendor marcadamente soul-pop actual que, não desmerecedores nessa natureza musical, não evitam diluir-se nele mesmo, porventura vítimas de tanta outra música semelhante que, prestando ou não as mesmas honras ao género, perde-se por falta de individualidade sonora, tal como as de Inna Modja, sem que, contudo, no seu caso particular, o discurso deixe de estar evidente. Mas, quando Inna Modja, como em “Water” ou em Tomboctou”, apenas para mencionar algumas das suas faixas, essas sim memoráveis, vai buscar, na sua forma mais inviolada, as influências soul e blues de Ray, Ella ou Ottis em que cresceu por incentivo do pai, um pouco do rap e do hip-hop dos anos ’80 que os restantes seis dos seus irmãos escutavam e, acima de tudo, a tão valiosa aprendizagem e cultura musical que o vizinho, a marcante figura, Salif Keita e o seu colectivo de jazz e bossa-nova Rail Band of Bamako lhe trazem musicalmente enquanto cresce, oferece-nos então esta temperatura quente, esta cor ferrosa e esta personalidade genuína e despretensiosa do jazz e do blues africanos, espelhos da luz, do calor, da terra, dos olhos e dos sorrisos de África, que nos apaixonam sem hesitação assim que abrimos a porta do avião ao aterrar em Bamako, em Dakar, em Dar es Salaam, ou por essas bandas.

 


LNZNDRF – “LNZNDRF”

 

 

Diríamos que a primeira coisa a referir, para os amantes de rock, é aumentar o volume até as janelas vibrarem ou, no caso, os vitrais. Vale a pena. Remetidos a uma igreja em Cincinnati durante dois dias e meio, Ben Lanz, dos Beirut, e os irmãos Scott e Bryan Devendorf, dos The National, - resulta LNZDRF – gravam o álbum de estreia deste seu projecto paralelo, lançado em 19 de Fevereiro. Tudo gira em torno da secção rítmica de bateria e baixo, imperial e enérgica, e das guitarras, poderosas e fluidas, melódicas e percorrendo toda a panóplia de efeitos e de técnicas. É rock, rock mesmo, que vai buscar tanto aos anos ’70 como aos últimos dez anos. Tudo gira em torno do som, tudo gira em torno de texturas sonoras. Ciclos melódicos que se renovam, mas nunca iguais, sempre acrescentados de algo mais – digamos que a componente vocal e lírica não ocupa, neste caso, lugar de relevância. E se um artista musical pode (e deve) conter em si mesmo uma mensagem e um discurso traduzidos na sua prática artística – na musical e/ou na visual e, neste último caso, estamos ainda por entender o conceito do vídeo que acompanha a fenomenal “Future You” –, em LNZNDRF, é sem perder qualquer valor que a música se sintetiza em uma outra das suas valências. Sem dúvida, e sem darmos por ela, o que apenas atesta a qualidade do projecto, nos vemos a acompanhar os enérgicos e magnetizantes ritmos e melodias com o bater do pé. É tudo quanto basta, muitas vezes.

 


Mira, Un Lobo – “Heart Beats Slow”

 



Depois de M.A.U, Luís F. de Sousa agarra-nos desde os primeiros instantes num turbilhão emocional. Apresenta-se a solo em 20 de Maio com “Hearts Beats Slow” e a suas dez faixas, apresentação encabeçada por “Serotonin” e, em seguida, por “Tramado”. O ambiente sonoro é intenso e denso, tal como melancólico e libertador. Camadas e camadas, dobras e desdobras de produção electrónica ambiente distinta e personalizada. Tão obscuro quanto dreamy, é um processo musical com princípio, meio e fim, que nos leva ao purgatório para depois nos regenerar. É um verdadeiro tratado sobre a travessia do deserto, passando pelas agruras e terminando nos confortos, é o bater no fundo e o regressar consolidado e renovado. É a música tornada espelho de si próprio, e de nós próprios. Para ouvir de olhos fechados, ouvidos de ouvir, é impossível ficar indiferente à sofisticação sonora e emocional de Mira, Un Lobo.

 

 

Mansfield TYA – "La Main Gauche" e “Corpo Inferno”

 

 

A dupla francesa tem estado activa nos últimos meses. Após “June” em 2005, “Seules au bout de 23 secondes” em 2009, e “Nyx” em 2011, e quase uma mão-cheia de EP’s ao longo destes anos, chega “Corpo Inferno” no final de 2015, logo procedido por “La Main Gauche” em 29 de Abril último. “La Main Gauche” é, na verdade, uma compilação de cinco faixas de “Corpo Inferno”, remixadas por outros tantos artistas admiradores do trabalho de Mansfield TYA, de entre os quais constam Rone ou Flavien Berger, à qual se junta a faixa inédita “Dormi / Reveillé”. Entre guitarras eléctricas e acústicas, violinos, pianos, baterias, que aderem entre si numa combinação musical profunda que é tão minimalista quão complexa, ressoam os vocais de ambas, clássicos mas não menos poderosos. Sem cair em contradição, o resultado consegue ser elegante ao mesmo tempo que rebelde, sombrio ao mesmo tempo que cristalino. Não se trata de ouvirmos algo nunca antes ouvido, como algo absolutamente inovador. Mas, entre tantos cujos tiros saem ao lado e outros que não se preocupam sequer em apontar a algum alvo, trata-se de podermos disfrutar do privilégio que é ouvir Mansfield TYA.

 


Autolux – “Pussy’s Dead”

 

 

“Pussy’s Dead”, lançado em 1 de Abril e sucedâneo de “Transit Transit”, de 2010, de “Future Perfect”, de 2004, e de mais um par de EP’s, traz em 2016 o trio de LA ao Porto para integrar o cartaz do Primavera Sound. O percurso sonoro expansionista de Autolux está mais e mais marcado em “Pussy’s Dead”. O seu núcleo continua sustentado pelas rajadas trovejantes da secção rítmica – mais especificamente da personalizadíssima bateria, já alvo das preferências de Jack White – e da turbulência ruidosa das guitarras, e essa identidade está presente ao longo dos seus três álbuns. Mas, em cada um dos trabalhos, o trio não deixa nunca de agregar algo mais, uma heterogeneidade musical exploratória e contrastante em cada um dos seus álbuns, sem com isso perder personalidade e sonoridade próprias. E esse movimento de contrastes nota-se progressivamente crescente de álbum em álbum. Em “Pussy’s Dead”, não só continuamos a encontrar atmosferas musicais mais contidas e polidas em composições íntimas e suaves em que o piano e os vocais ganham presença, tal como no passado, como, voltando a aumentar os decibéis, vemos agora muito mais abraçada e expandida a vertente experimental em deambulações e manipulações nos terrenos da tecnologia electrónica que em 2010 já se faziam notar.

 


Let’s Eat Grandma – “I, Gemini”

 

 

As duas britânicas, ainda longe de completar duas dezenas de anos de idade, são mais do que merecedoras de um olhar e um escutar atentos, o que apenas confirma que a idade não traz estatuto. Mais ainda, “I, Gemini”, lançado em 17 de Junho, reúne faixas compostas já há dois anos. Posicionam-se em territórios ocupados por Coco Rosie, ou Bjork, ou Kate Bush, mas criam o seu próprio espaço. Música pop distinta que cria ambientes plenos de contrastes e que nos remete para as memórias perdidas nos tempos e envoltas nas névoas dos contos folclóricos e populares de antigamente: arrepiantes e bizarros, ao mesmo tempo que ingénuos e encantadores, ao mesmo tempo que melancólicos e acolhedores. Uma mistura elegante de inventividade e simplicidade, com melodias que, tal como esses contos do fantástico, têm tanto de assustador como de encantador. Em redor do pop, da electrónica, do folk, e da acústica, deitam a mão a teclados, saxofones, flautas, metalofones, violoncelos, guitarras e beats, mas nunca nada em demasia e nunca tudo amalgamado ao mesmo tempo. E depois sobrepõem as suas vozes de contos de fadas, angelicais e delicadas, sincronizadas quase como sendo uma só, não sem passar surpreendentemente por um pouco do rapping do hip-hop, tornado ainda mais interessante por não alterarem os seus timbres. É majestoso e simples, uma estreia que não passa despercebida.


 

 




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