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MÚSICA


AGORA QUE 2016 TERMINOU

RICARDO ESCARDUÇA

2017-01-13



Com 2017 já aberto, recuamos ainda a 2016 para recuperar um conjunto de trabalhos lançados durante o ano terminado, aos quais ainda não havíamos dedicado a merecida referência mas dos quais não nos mantemos afastados por período significativo.

 

 

Yeti Lane – “L’Aurore”

 


 

Desde 2008 e após inúmeras alterações da formação da banda, o duo parisiense parece estar estável, e de saúde assinalável, nos últimos anos com Cédric Benyoucef a cargo dos vocais e guitarras e Charlie Boyer responsável pela bateria e electrónica.
“L’Aurore” sai em Março de 2016, lançado pela parisiense Clapping Music, e procede ao álbum de 2012 ”The Echo Show”, este último merecedor de excelente recepção. “L’Aurore” não lhe fica atrás. Mas no caminho entre “The Echo Show” e “L’Aurore”, Yeti Lane foram aliviando o peso da bagagem, por assim dizer.
Vários dos concertos de promoção de “The Echo Show”, um álbum de sonoridade mais trabalhada, vestida e estruturada, foram sustentados em muita improvisação em palco. E o duo não gosta de ficar estagnado em hábitos antigos no mesmo formato. Umas temporadas em Berlim oferecem a oportunidade de experimentar livremente e de despir alguma da roupagem anterior. O resultado em “L’Aurore” está mais cru, mais despido e mais obscuro. Mas o psych-rock mantém-se em alto nível, sustentado por espessas camadas de guitarra e teclados sintetizados.

 

 

Sunns – “Hold / Still”

 


 

Suuns e o seu álbum “Hold / Still” lançado em Abril de 2016 pela editora Secretly Canadian, sucedâneo de “Images du Futur”, de “Zeroes QC”, do EP “Zeroes” e do álbum colaborativo com o produtor libanês Radwan Ghazi Moumneh “Suuns and Jerusalem In My Heart”, foram noticiados pela Artecapital previamente ao lançamento do álbum, mas a expectativa formada na altura é confirmada posteriormente e justifica plenamente nova chamada para este registo mais perene.
A par dos trabalhos anteriores, o fiel da balança sonora de “Hold / Still” mantêm-se contraído e instável entre os hemisférios Post-Punk e do Electro-Rock compostos com minúcia por uma densa produção electrónica de teclados sintetizados e uma série de outros efeitos, pelo enérgico instrumental da guitarra, baixo e bateria e pelos vocais lânguidos e arejados. O habitual experimentalismo minimalista e contorcido de Suuns dá origem uma vez mais as fusões sonoras tão contrastadas e alucinadas, quão encapsuladas e austeras, quão suaves e envolventes. Sugere-se a visita a faixas de trabalhos anteriores, tais como “2020”, “Minor Work”, “Mirror Mirror”, “Eddies’s Dream”, “Bambi”, “Holocene City”, “Music Won’t Save You”, “Armed For Speace”, “Gaze”, “Arena” ou “Up Past The Nursery”.

 

 

Pfarmers – “Our Puram”

 


 

Em Agosto, com o selo Joyful Noise, sai o segundo álbum do trio formado por Bryan Devendorf, baterista dos The National, pelo vocalista e multi-instrumentalista Danny Seim, dos Menomena, e pelo compositor e multi-instrumentalista Dave Nelson, que conta no seu passaporte com carimbos de colaborações com St. Vincent e David Byrne, por exemplo.
A bateria de Bryan Devendorf é facilmente reconhecível pela excelente impressão rítmica com que marca cada faixa em que surge, aliás. Bateria essa que parece ter tendência para se desmultiplicar em inúmeros projectos, tais como LNZDRF, referenciados pela Artecapital recentemente. A ela juntam-se arranjos instrumentais indie-rock bem elaborados de guitarra eléctrica, teclados, sintetizadores e metais de sopro. Há uma marca psicadélica evidente, o que não é de estranhar, uma vez que o álbum narra a história de uma comunidade espiritual dos anos ’80 no estado do Oregon.
Tal como o álbum de estreia “Gunnera”, “Our Puram” consegue destacar-se, feito digno de registo considerando o género musical em que se enquadra, no qual é fácil cair em banalidades que são facilmente esquecidas.

 

 

Anna Homler & Steve Moshier – “Breadwoman & Other Tales”

 


 

A etiqueta nova-iorquina RVNG Intl., adepta da experimentação ao colocar frente a frente artistas de sonoridades contrastantes, pega numa cassete com tinta anos e, em Fevereiro de 2016, reedita “Breadwoman & Other Tales”.
Anna Homler é uma artista e performer. Nos inícios dos anos ’60, conduzia sem destino pelo deserto quando uma melodia inesperada lhe aflora à mente. É uma melodia tão inusitada e inesperada quão ancestral e enraizada na história. Anna Homler não procurava essa melodia, foi a melodia que a encontrou. Enfeitiçada por essa, cria uma série de outras. Em 1985 junta-se ao artista sonoro, compositor e produtor de música electrónica Steve Moshier em sessões que dão origem à cassete em que RVNG Intl. pega em 2016.
A mistura tem tanto de espectral como de majestosa. Os cânticos anciãos e tribais de Homler transportam um dos nossos pés de regresso ao genesis humano. A densidade e espessura dos sintetizadores e percussões de Moshier mantêm o nosso outro pé na era actual. No meio dessa passada parece caber tudo. Inclusivamente a sonoridade quase alienígena de “Breadwoman & Other Tales”.

 

 

The KVB – “Of Desire”

 


 

Editado pela Invada Records em Março de 2016, a casa de Bristol onde Geoff Barrow, dos Portishead comanda as operações, o quinto álbum do duo Nicholas Wood e Kat Day traz The KVB a Lisboa no final desse mês para uma noite de música electrónica afiada e áspera de memória e de evocação das sonoridades dos inícios dos anos ’80 que andavam ali à volta do new-wave, do post-punk e do gothic rock com uma atmosfera a pairar de shoegaze.
Não é música para nos arregalar os olhos face à última descoberta mais inovadora. Mas, considerando que Nicholas Wood começou há uns anos a fazer umas experiências no quarto, de álbum em álbum The KVB nunca desiludem e garantem a fórmula certa.




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