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NOTÍCIAS ARTECAPITAL


:: POGO TEATRO VÍTIMA DE PILHAGEM E VANDALISMO NO TEATRO SÃO LUIZ

Artecapital

2017-04-17



 

O Pogo Teatro, estrutura multidisciplinar formada em 1993, emitiu um comunicado de imprensa a propósito da sua participação na passada sexta-feira no evento P! Performance na Esfera Pública, um programa de pensamento crítico e de curadoria a partir da questão: "como constrói, recria e participa a performance arte na esfera pública?":

 
 

Declaração

 


Na passada sexta-feira, dia 14, participou o Pogo Teatro na iniciativa P! Performances na Esfera Pública, em que se comemorava o centenário do manifesto futurista de Almada Negreiros. Independentemente de agradecer o convite que nos dirigido e congratularmo- nos com o excelente trabalho desenvolvido pelas estruturas promotoras, cumpre-nos fazer o registo de uma incidência que, contra todas as expectativas razoáveis e sem qualquer relação com as instituições envolvidas, marcou negativamente a nossa participação e, segundo cremos, a oportuna iniciativa no seu todo. Pelo que pudemos observar, a nossa intervenção terá seguramente tocado cordas sensíveis no público presente — é o mínimo que podemos dizer. Asseguram-nos os mesmos de sempre que a nossa intervenção foi "um sucesso", mas, dada a natureza das cordas que boa parte do público quis expor ao nosso "toque", dificilmente lhe chamaríamos "sucesso". Com efeito, de modo nenhum podemos compreender um comportamento colectivo que, para nosso infortúnio, temos de classificar como absolutamente chocante e deplorável.

Ao documentarmos aqui algumas consequências desse comportamento, tencionamos não apenas dar conta de uma perplexidade que, quarenta e oito horas volvidas sobre o evento, excede ainda qualquer justificação racional que lhe procuremos, como também estimular a prevenção de episódios análogos em ocasiões futuras, nomeadamente aquelas em que, pela sua natureza, se coloque a questão de preservar a integridade de patrimónios artísticos acolhidos.

Integrando a nossa intervenção — uma instalação que simulava o ambiente de uma festa de aniversário em tempo de guerra — exibia-se um conjunto de cerca de duas centenas de peças de loiça (pratos, bules, demais apetrechos de mesa), todas com criação artística, por estamparia ou pintura directa, e tratadas autoralmente com recurso a técnicas industriais (que quisemos reabilitar para a presente intervenção) aprendidas por nós nas Caldas da Rainha. A maior parte dessas peças estava assinada. O valor de uma assinatura numa peça em exposição, segundo cremos, não precisa de ser explicado. Porque o percurso de boa parte dos membros do Pogo Teatro é relativamente conhecido, será também desnecessário referir que algumas dessas assinaturas eram de artistas representados em museus e em catálogos nacionais e internacionais.

 

 

Imgens por João Azevedo.

 

 

O público que acorreu terá achado as três horas que durou o evento excessivas para a fruição das obras expostas. Naturalmente, para preencher o tempo morto, deliberou o público destruir também o que acabava de fruir. A certa altura, pelo que se pôde observar, fruir e destruir tornaram-se indissociáveis. Com efeito, num processo que se revelou incontrolável, sentiu-se o público liberto para manipular e destruir as peças expostas. As razões que deram origem a este comportamento permanecem totalmente indecifráveis.

 

Em momentos de maior afluência, o som predominante na sala chegou a ser o de loiça a ser quebrada ou pisada no chão. Espontaneamente, formaram-se grupos em redor de pilhas de cacos que eles mesmos, rindo e confraternizando enquanto aguardavam a sua vez, avolumavam com os pratos que haviam retirado aos expositores. A certa altura tornou-se impossível percorrer o espaço que nos acolhia sem pisar ou tropeçar em cacos e estilhaços. A intervenção dos membros do Pogo Teatro, sempre que, no meio da
multidão, se pôde identificar actos deste género, não obteve qualquer efeito dissuasor. Perguntámo-nos se teriam estes compatriotas acabado de chegar de Torremolinos. Não, dizem-nos: é o qualificado público normal destas ocasiões, assíduo da agenda cultural, nacional e internacional.

 

Imagens por Nuno Rocha (1 e 2) e João Azevedo (3).

 

 

A título de exemplo, eis um casal acompanhado pela filha, cuja idade não excederá os oito anos. O pai, solicitado pela menina (sugestionada, sem dúvida, pelo comportamento própria de uma horda que observava nos adultos em redor), incentivou-a a partir um prato. A menina lançou o objecto por cima do expositor; sobrevoando afortunadamente um grupo de visitantes, a peça atingiu a parede em que pendia um painel impresso (que acompanhava a intervenção) e estilhaçou-se no chão. Solicitado a justificar-se, o pai recebeu de mau modo a interpelação — que entendeu como uma interferência intolerável na sua autoridade familiar — e declarou que estava ali para se divertir (sic).

 

Noutra ocasião, um grupo de adultos, em quem pudemos identificar artistas reconhecidas da nossa cena performativa e teatral, projectou para o chão, com violência, um prato cujos estilhaços, disparados em redor, só por acaso não atingiram crianças que por ali se movimentavam, com a gravidade que se pode antecipar. Devidamente interpeladas, e questionadas sobre a razão do comportamento, optaram por protestar contra o que, sem dúvida, sentiam ser uma "prepotência" ou "autoritarismo" que as ofendia, pelo que, recusando-se sequer a reconhecer o direito de ser interrogadas, nomeadamente pelos próprios autores das obras destruídas, isentaram-se de quaisquer responsabilidades e viraram-nos as costas. Pelo menos em duas ocasiões, e após interpelações semelhantes, repetiram outros o seu gesto destruidor, para marcar posição em atitude desafiadora.

Estes incidentes repetiram-se ao longo da tarde através das sucessivas vagas de visitantes. A destruição está documentada: decidimos registar em vídeo e fotografia os seus efeitos.

Contabilizamos em mais de metade do acervo as peças destruídas ou vandalizadas. A par do vandalismo, veio também a pilhagem. Algumas peças, segundo nos afiançam, foram roubadas, e não só as de loiça. Também a quase totalidade das obras que expusemos como alegorias de guardanapos, centros de mesa e de cupcakes desapareceu. Assim também os talheres e restantes peças decorativas. Entretanto, dispositivos tecnológicos distribuídos pela sala eram retirados aos seus lugares e passados de mão em mão. Alguém terá pensado que o imperativo de destruição não se deveria limitar aos expositores. Foi in extremis que dela resgatámos as armas cenografadas e a alegoria do The Fountain, de Duchamp, que tínhamos em exposição. Até por um pedaço de bolo as pessoas lutaram. Informam-nos que, para as outras intervenções naquele dia, ia parte do público com pratos debaixo do braço, guardanapos a espreitar dos bolsos e restos da comida que confeccionámos e pusemos à disposição. Mal podemos imaginar o significado e as consequências destes comportamentos na actividade normal de uma galeria, sala de teatro ou museu.

Que os agentes da destruição e depradação tenham incluído também pessoas com responsabilidade no meio artístico é perspectiva que muito nos custa aceitar, e esperarmos sinceramente que esta declaração as envergonhe, e muito. Não conseguimos descortinar qualquer razão, estímulo ou sanção que levasse a esta espécie de alucinação colectiva. Por outras palavras, não sabemos dizer de que criminoso casulo despontou a devastadora borboleta da percepção geral. Ainda que algum intuito indecifrável tenha produzido o seu rastilho eficaz, o que se dá sobretudo à perplexidade é que, apesar dos avisos repetidos e da pronta dissuasão, onde ela foi possível, o rastilho tenha medrado junto de um público cuja boa-educação — vemo-lo agora — é uma ilusão baseada em julgamentos prematuros, e cuja sensibilidade não tem mais fundamento do que a pura auto-proclamação. Está para além de qualquer conjectura o prazer que se pode tirar da destruição sem objectivo, o ar de satisfação após o acto lesivo, o impulso que pode levar frequentadores de iniciativas culturais, sem dúvida educados e conhecedores, a erguerem no ar peças expostas em mostradores e a projectarem-nas com a violência no soalho sem se perturbarem com a proximidade de circunstantes, nomeadamente crianças, extraindo do acto um prazer que se confunde com o orgulho. E não sabemos o que é de admirar mais: se a impressão de total impunidade com que o público, apenas e só por sê-lo, se acha no direito de exceder o seu papel, se a arrogância indescritível com que, individualmente, se demarcou de quaisquer responsabilidades, se o auto-contentamento no mimetismo infantil de destruir porque os outros também o faziam, se a participação voluntária e auto-organizada, indiferente a todo a sanção ou consentimento, numa loucura a que em nenhum momento se apelou e em nenhum momento se incentivou.

Tivemos, em 2015, a boa fortuna de ver publicada, com apoio da DG Artes, uma obra que documenta os 20 anos da nossa actividade enquanto estrutura artística. O leitor desse livro não encontrará nenhum registo de incidentes comparáveis, nenhuma nota aberrante como aquela que se recolhe dos eventos da passada Sexta-feira Santa. Para a comemoração do manifesto de Almada Negreiros, por opção própria e em coerência com o nosso percurso, os custos com a nossa intervenção excederam largamente o orçamento que nos foi atribuído. Queremos deixar claro que, com esta declaração, não estamos a invocar qualquer forma de ressarcimento de que nos achássemos credores. Trata-se apenas de repor na dimensão devida a nossa perplexidade.

Há cerca de três anos que o Pogo Teatro não intervinha em Lisboa. Na província, onde temos estado mais presentes, comportamentos deste género são de todo impensáveis. Já tínhamos observado que a capital — além de ser, de todas as partes do país, aquela em que pior se fala e pior se recebe — é também aquela em que o público de artes, apesar de mais abastado, se mostra o mais afectado, o que mais alto fala, e o que mais à vontade se projecta na comunhão com obras e artistas, como se a diferença que a ambos separa não existisse, como se todas as posições se equiparassem, como se nada houvesse já a aprender ou a fruir, como se tudo fosse sabido, como se as autorias fossem uma noção arcaica e a obra uma relíquia desprezível, como se toda a discussão artística ou filosófica se pudesse reduzir ao modelo do copo que se partilha de passagem no Bairro Alto. Em suma, o público mais entediado e, por conseguinte, o mais entediante perante a possibilidade da descoberta artística. Mas ainda não se nos tinha revelado a verdade última desta disposição adquirida: a de que o público mais informado, plausivelmente mais assíduo da oferta cultural e mais imbuído de modernidade, não hesita, quando o capricho o determina, em deleitar-se na selvajaria inconsequente.

Acreditamos, evidentemente, que não se trata de um hábito consolidado do público do São Luiz, instituição que evidentemente isentamos de toda a responsabilidade, bem como a curadoria do evento. Não concebemos, por outro lado, que o exemplo de Almada Negreiros possa ter servido com alguma nota inspiradora aos comportamentos descritos. A este respeito, limitamo-nos a desejar que os painéis da Gare de Alcântara se encontrem ainda inteiros, e fazemos votos de que a pilhagem e a destruição tenham sido circunscritas nas outras comemorações actualmente em curso. Também não concebemos que incentivos e percepções habitualmente difundidas através dos suplementos culturais, muitas vezes defensoras da fruição participativa das obras de arte, tenham incorrido no exagero de induzir formas de participação equivalentes ao vandalismo. Em todo o caso, numa altura em que tanto se fala disso, vislumbramos aqui uma oportunidade para se rever a matéria dada no que toca à "formação de públicos".

Antecipávamos, ainda para este ano, a abertura do espaço do Pogo Teatro em Lisboa: em Santos, junto às docas. Somos agora forçados a meditar a instalação de um sistema de vigilância, e talvez se torne necessário examinarmos atentamente legislação que nos permita identificar público indesejável e vedar-lhe o acesso. Constatamos, por outro lado, que, por causa desse espaço, fizemos avaliação precipitada de aliciantes propostas que nos permitiriam enraizarmo-nos vantajosamente no Porto ou nas Caldas da Rainha, locais que não dão mostras de virem a consentir que a barbárie se constituia como hábito de consumo. Evidentemente, não é tarde para aprendermos com os erros.


Pogo Teatro
Lisboa, 16 Abril 2017


::

 

Dois dias volvidas sobre os acontecimentos nele relatados, o informação contida no presente texto foi difundida — em versão mais breve e sob a forma de comunicado — junto dos meios de comunicação social. Dadas algumas circunstâncias que rodearam essa difusão, os autores do texto consideram-se na obrigação de fazer a presente nota.

Sob o primeiro impacto do comunicado, o interesse dos orgãos de comunicação orientou-se massivamente para a instituição que acolheu a nossa intervenção, o Teatro Municipal de São Luiz, solicitando-a a pronunciar-se sobre a informação divulgada. Embora ninguém se dê bem com gritos, e ainda que o nosso comunicado tenha constituído a expressão necessária de um direito que nos assiste, lá tivemos o empenho, ainda nessa tarde, de distribuir, pela Agência Lusa, uma adenda que reiterava a isenção e honorabilidade da instituição, tal como já adequadamente defendidas no comunicado.

Alguns orgãos tinham gerado já notícias em linha e anunciado a intenção de as desenvolverem em reportagens actualizadas. Tais intenções não se vieram a confirmar. Nenhum orgão de comunicação social nos contactou (apenas uma publicação em linha que, depois de contactar o São Luiz, se sumiu) e, ainda naquele dia, enlaces electrónicos inicialmente activos foram desactivados. A circunstância só podia ser compreendida nestes termos: ou esses orgãos tinham desistido voluntariamente da notícia, ou uma qualquer interferência na dinâmica noticiosa inicial tinha produzido o seu efeito silenciador. Contactados alguns jornalistas envolvidos, concluímos que vingara junto deles a noção de que o comunicado constituía tão-só uma performance do Pogo Teatro ou, mais requintadamente, uma continuação por outros meios da intervenção descrita no comunicado. Tomando essa informação como verdadeira, indignavam-se esse jornalistas com o facto de, imputadamente, estarmos a utilizá-los para fins que nada têm a ver com o exercício da sua profissão.

Qual a origem da requintada informação? Procurai sempre onde está à vista, dizia o sábio. As pessoas andam sempre com medo: mais as que estão bem sentadas, curiosamente, do que as que se aguentam de pé. Registamos que, antes de cancelarem as notícias, nenhum orgão de comunicação social procurou contraditório: a nós, ninguém perguntou nada. Perceberá o leitor o que está em causa. Dizer que tudo isto é uma performance é dizer o seguinte: que na sexta-feira passada não foram destruídas e vandalizadas peças autorais no São Luiz; que a equipa de manutenção e de limpeza ao serviço da P! Performances na Esfera Pública não levou — com a nossa ajuda — meia-hora a varrer o chão do Jardim de Inverno; que não foi roubado ou espoliado património artístico integrante da nossa intervenção; que não temos registo fotográfico dos efeitos da destruição; que se pode branquear a evidência e que quem está sob suspeita é quem a aponta; que andamos a brincar, apesar de termos sido lesados; que somos parvos e que, para descomplicar, por parvos gostamos de ser tomados.

Serve esta nota, por conseguinte, a desimpedir a leitura do ruído (ou do silêncio) parasita produzido em direcções de comunicação do Chiado e a repor o foco onde ele deve ser posto.


Lisboa, 19 /04, Pogo

 

 

 

 
 

 




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