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QUEER LISBOA APRESENTA PROGRAMAÇÃO PARA A 21ª EDIÇÃO

2017-09-06




O Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer apresentou ontem a programação para a sua 21ª edição, que se realiza de 15 a 23 de setembro no Cinema São Jorge, com atividades paralelas no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.

Em 2017, o Queer Lisboa entra na sua terceira década de existência com a exibição de 90 filmes de 32 países. Além da retrospetiva dedicada à artista multimédia Shu Lea Cheang, a ter lugar no Cinema São Jorge e no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, e da muito aguardada estreia do filme God’s Own Country, do britânico Francis Lee, na Noite de Abertura, o Queer Lisboa 21 vai acolher muitas mais surpresas e convidados internacionais. Colby Keller estará no festival para apresentar o seu projeto Colby Does America e para dar uma master class de entrada gratuita. O festival recebe ainda o cineasta canadiano Yan England, que vem apresentar o filme 1:54, protagonizado por Antoine-Olivier Pilon, e a antestreia nacional de Quand On A 17 Ans, de André Téchiné. A atual crise política brasileira também estará em destaque através do retrato feito do político Jean Wyllys, no documentário Entre os Homens de Bem, enquanto a Noite de Encerramento será celebrada com o muito aplaudido Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert.

Dos 32 países presentes, os EUA são o mais representado, com 21 filmes. A Alemanha e a França estão representados, em ex-aequo, com 12 filmes cada, seguindo-se o Brasil, com 10 filmes.

As competições do Queer Lisboa 21 são compostas não só pelas narrativas e temas “clássicos” do cinema queer, mas também por filmes que falam de religião, migrações, racismo, fronteiras, deficiência, política, ao mesmo tempo em que arriscam transdisciplinaridades, rompem cânones do cinema de género, abraçam novas linguagens audiovisuais e novos modelos de relação do espectador com essas linguagens.

Na Competição de Longas-Metragens tanto podemos encontrar histórias de coming of age – em As You Are (que em 2016 valeu a Miles Joris-Peyrafitte o prémio Especial do Júri em Sundance, sendo o filme protagonizado pela it girl, Amandla Stenberg; Charlie Heaton, da série Stranger Things; e Owen Campbell) e em Beach Rats (que este ano deu à cineasta Eliza Hittman o prémio de Melhor Realização, também em Sundance); como discussões sobre o Médio Oriente e o racismo crescente na Europa – em The Beach House, primeira longa-metragem do libanês Roy Dib. O tema das migrações e das identidades sexuais na Europa de hoje ganha especial destaque em Los Objetos Amorosos, de Adrián Silvestre. Já a forma como a aparência física nos condiciona na sociedade ganha contornos verdadeiramente estilizados e esquizofrénicos em Pieles, de Eduardo Casanova. A história de três mulheres que se encontram numa altura crucial das suas vidas num cenário inusitado, é retratada por Leonie Krippendorf em Looping; enquanto em Close-Knit a japonesa Naoko Ogigami reflete sobre questões identitárias e de preconceito, remetendo-nos para o estilo visual e narrativo do cinema de Hirokazu Koreeda. Destaque ainda para Corpo Elétrico, primeira longa do brasileiro Marcelo Caetano, que se centra em Elias, um jovem de 23 anos que nas suas relações desafia as normas hétero e homonormativas. O cineasta estará presente no festival.

(A exibição de Los Objetos Amorosos e Pieles e a presença do realizador Adrián Silvestre foram possíveis graças ao apoio do Programa de Internacionalización de la Cultura Española (PICE) de Acción Cultural Española (AC/E) na sua modalidade de Movilidad.)

Para a Competição de Documentários, a autorrepresentação da família fragmentada de um cineasta muçulmano, paquistanês e gay, Arshad Khan, é-nos mostrada em Abu; somos levados até ao atual cenário de crise política no Brasil através do retrato do deputado Jean Wyllys em Entre os Homens de Bem, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, que estarão em Lisboa; é-nos apresentada uma visão queer das realidades sociais e politicas da Tailândia em Homogeneous, Empty Time, de Thunska Pansittivorakul e Harit Srikhao; enquanto em Au-delà de l’Ombre, de Mezni Hafaiedh, é-nos exposta a realidade tunisina e os efeitos de uma sociedade homofóbica num grupo de jovens. Já em Small Talk, de Hui-Chen Huang, temos acesso às mudanças ocorridas na vida de três gerações de mulheres do Taiwan. My Mother is Pink, primeiro documentário da jornalista Cecilie Debell, que também estará no festival, é um tocante road movie sobre uma relação conturbada entre um filho e a sua mãe. Em The Strangest Stranger, de Magnus Bärtås, conhecemos melhor o homem que inspirou Haruki Murakami no seu popular romance Kafka à Beira Mar. Jo Sol regressa este ano ao festival para apresentar Vivir y Otras Ficciones sobre o tema da assistência sexual a pessoas com diversidades funcionais.

Este ano, a produção nacional é reforçada na Competição de Curtas-Metragens, com filmes de João Pedro Rodrigues – Où En Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues? –, Carlos Conceição – Coelho Mau –, Gabriel Abrantes – Os Humores Artificiais –, e Gonçalo Almeida – Phantom. A Competição inclui ainda títulos como My Gay Sister, que valeu à realizadora Lia Hietala o Teddy Award para Melhor Curta-Metragem na Berlinale (sendo que a cineasta estará em Lisboa) ou Les Îles, a última curta de Yann Gonzalez.

Camila José Donoso, a autora de Casa Roshell, um filme sobre este autêntico espaço de liberdade individual, estará em Lisboa para apresentar a sua obra, que integra a Competição Queer Art. O festival contará ainda com a cineasta Samira Elagoz, que traz à Competição o documentário Craigslist Allstars, que explora até ao limite a relação do corpo com os media, físicos e virtuais. Pablo Esbert Lilienfeld, correalizador de Introducing the Star: The Choir Girls’ Diaries, também vem ao festival apresentar este misto de ficção com documentário que é um passo em frente na construção de novas metáforas ligadas ao VIH/Sida. A Competição Queer Art conta ainda com o mais recente filme do célebre Bruce LaBruce, Ulrike’s Brain, uma sequela de The Raspberry Reich; Cuentos de Chacales, um exercício experimental sobre a fragmentação da memória, realizado por Martín Farina; A Destruição de Bernardet, documentário de Claudia Priscilla e Pedro Marques que nos revela a personalidade ímpar de Jean-Claude Bernardet, uma referência do cinema brasileiro desde os anos 1960; ou Occidental, uma parábola sobre a atual paranoia ocidental, protagonizada por Paul Hamy (protagonista de O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues), do franco-argelino Neïl Beloufa. A temática do VIH/Sida, os seus sobreviventes, bem como a relação entre a indústria farmacêutica, o mercado da droga, o poder estatal e as biopolíticas ganha corpo em Fluidø, o manifesto transfeminista de Shu Lea Cheang, artista que este ano é homenageada pelo Queer Lisboa.


QUEER FOCUS – SHU LEA CHEANG

Desde os anos 1980 que Shu Lea Cheang tem criado um trabalho multimédia focado em visões de corpos e relações a partir do cruzamento de tecnologias, biopolíticas, sexualidade, conflitos sociais e ambientais. Nesta retrospetiva vamos exibir não só as suas longas-metragens, Fresh Kill, de 1994, I.K.U., de 2000, e o referido Fluidø, mas também duas instalações: Brandon, inspirada na história de vida de Brandon Teena (conhecido do grande público no filme Boys Don’t Cry), e que em 1998 foi concebida para ser vista na Internet, comissariada e restaurada em 2017 pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque e que agora será exibida no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado; e Those Fluttering Objects of Desire, que reúne as figuras de ativistas e artistas que narram o seu encontro com o sexo e a política. Esta homenagem conta ainda com um programa de curtas-metragens com diferentes abordagens ao tema da sexualidade, bem como a estreia internacional do projeto Wonders Wander, concebido propositadamente para o Madrid Pride 2017 e que explora uma nova geração queer, que inclui refugiados, migrantes e transfeministas. Shu Lea Cheang dará ainda uma master class no MNAC.


FORA DE COMPETIÇÃO

A secção Panorama ganha este ano um novo fôlego com a exibição de oito filmes: quatro ficções e quatro documentários. Destaque para 1:54, do canadiano Yan England, que estará em Lisboa, numa colaboração com a Embaixada do Canadá em Portugal. O filme é protagonizado por Antoine-Olivier Pilon (o protagonista de Mommy, de Xavier Dolan). Quand On A 17 Ans, de André Téchiné, um dos mais aclamados realizadores do cinema pós-Nouvelle Vague, terá a sua antestreia nacional no Queer Lisboa.

Já a secção Hard Nights terá em destaque Colby Keller, um dos mais populares atores porno da atualidade, que se define como comunista nos EUA, que apresentará no festival Colby Does America, projeto em curso desde 2014 que explora a representação e a mercantilização da sexualidade na sociedade atual. O ator estará em Portugal a propósito da sua participação no novo filme de Miguel Gonçalves Mendes, O Sentido da Vida. Colby Keller dará ainda, no festival, uma master class focada no seu projeto.

A secção conta ainda com os filmes: Berlin Drifters, de Koichi Imaizumi; Enactone, da cineasta, ativista e DJ Sky Deep, sobre Marie Scott, uma antiga escrava dos EUA que, depois de ser tornar numa vampira, ganha uma nova oportunidade para se vingar e viver para sempre; When We Are Together We Can Be Everywhere, uma carta de amor da realizadora Marit Östberg para a sua estrela, Liz; e a curta Coming Out of Space, de Francy Fabritz, sobre a relação entre duas mulheres que colidem na Terra.

A música volta com a secção Queer Pop, com um programa centrado na obra de George Michael, Ver Sem Preconceito, composto por telediscos que traduzem o processo de progressivo afastamento dos modelos da pop star juvenil que marcaram o seu início de carreira; e outro focado nos novos valores da música queer do Brasil, denominado Brasil, século XXI: o canto da diversidade, onde pontuam nomes como Jaloo, Banda Uó, No Porn, McLinn da Quebrada ou Thiago Pethit.

O Queer Lisboa 21 terminará com a exibição do muito aplaudido Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, premiado na Berlinale em 2016.

Durante o festival vão ainda realizar-se várias festas. A Festa de Abertura terá lugar no clube Fontória e contará com a música do trio Asneira (António Almada Guerra, João Villas-Boas e Tiago Pinhal Costa). No dia 21, o Queer Lisboa associa-se ao coletivo Groove Ball para uma festa no Rive-Rouge, enquanto um dia depois a festa será feita no clube Construction, onde estará presente Colby Keller. A Festa de Encerramento realiza-se no Titanic Sur Mer e nela vão passar música Sky Deep e Simºne.

JÚRI

O Júri do Queer Lisboa 21 é composto por:

Competição de Longas-Metragens:
Isabel Abreu (atriz);
Marcos Rocha (Diretor do festival Curta O Gênero – Mostra Internacional Audiovisual, Fortaleza, Brasil);
Yann Gonzalez (realizador, França).

Competição de Documentários:
Luísa Homem (realizadora);
Rui Filipe Oliveira (produtor da RTP);
Sérgio Tréfaut (realizador).

Competição de Curtas-Metragens:
Ana Moreira (atriz);
Francisco Moreira (montador);
Jorge Jácome (realizador).

Competição In My Shorts:
João Villas-Boas (ator);
Nádia Henriques (diretora de arte);
Ricardo Vieira Lisboa (realizador).

Competição Queer Art
Carlota Lagido (coreógrafa);
Colby Keller (ator, EUA);
João Onofre (artista).



Fonte: Queer Lisboa