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WALDEMAR BASTOS (1954 - 2020)

2020-08-10




O músico angolano Waldemar Bastos,morreu hoje, aos 66 anos. O cantor atuava com regularidade em Portugal, tendo, por exemplo, aberto, em 2017, o 34.º Festival de Teatro de Almada e tocado, nesse mesmo ano, no Festival de Músicas do Mundo de Sines.
O seu último álbum, "Classics of my Soul" (2010) apresentou-o, em 2013, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com a Orquestra Gulbenkian, num concerto que descreveu como um "encontro da música ocidental erudita com a música contemporânea de África".

Este trabalho discográfico, gravado com a Orquestra Sinfónica de Londres, sob a direção do maestro Nick Ingman, foi apontado como um dos álbuns do ano na categoria de 'world music' pelo jornal francês Libération.

Sobre a sua música, muitas vezes definida como um misto de afro-pop, fado, 'soul' e influências brasileiras, Waldemar Bastos explicou que ela tem a ver com as músicas todas que ouviu. "Porque nós, se falarmos historicamente, enquanto colonizados, ouvíamos de tudo - eu ouvia Amália Rodrigues. A minha música tem um bocado de tudo, porque tudo de bom das culturas, eu absorvo; o que é belo, eu absorvo naturalmente", disse numa entrevista à agência Lusa, em 2013.

"É lógico que sou compositor de um país que tem uma música forte e a espinha dorsal ou a alma é aquela. Mas, à volta dela, está toda a minha viagem musical e intelectual ou espiritual, por onde eu ando", sublinhou.
Na mesma entrevista, questionado sobre se os músicos, como outros artistas, devem ter um papel interventivo na sociedade, Waldemar Bastos respondeu: "Eu penso que sempre que se fala de valores, os valores são um apelo à consciência, e acolá, onde as coisas não estiverem corretas, essa música pode fazer refletir".
"Aí, sem intervenção direta política - porque eu acho que a música é música -, mas os valores que ela transporta, os sentimentos, tudo isso, pode fazer refletir e ajudar a política até a melhorar", defendeu.

"A minha música nunca foi de intervenção direta... Eu faço arte. E o belo pode ter a capacidade de transformar para melhor", enfatizou.

Waldemar Bastos nasceu em Mbanza-Kongo, ex-S. Salvador do Congo, na província do Zaire, no noroeste de Angola, e começou a cantar ainda menino. No período colonial, o músico foi preso pela PIDE, a polícia política do Estado Novo. Aos 28 anos mudou-se para Portugal onde editou o seu primeiro disco, "Estamos Juntos" (1983), ao qual se seguiu "Angola Minha Namorada" (1989) e "Pitanga Madura" (1992).

Em 1997 publicou, pela etiqueta Luaka Bop, de David Byrne, "Pretaluz[blacklight]", e dois anos depois foi distinguido, em Monte Carlo, no Mónaco, com o prémio de New Artist of the Year nos World Music Awards.

Discograficamente, editou, em 2004, "Renascence", pela etiqueta neerlandesa World Connection. Sobre este álbum, a BBC referiu a "grande maturidade e até suavidade em muitas das faixas" onde a esperança e a reconciliação estão entre os temas explorados.

"Guitarras africanas ressoam, a percussão é veloz, trompas deslizam para dentro e para fora, mas a voz de Bastos treme com contenção, como se ele quisesse medir cada pensamento e sentimento", a televisão britânica assinalava que "a fé religiosa do cantor também impregna muitas faixas com uma qualidade espiritual".

Em 2008, editou o álbum "Love Is Blindness", em que gravou em inglês.

Em 2018, o músico foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, a mais importante distinção do Estado angolano nesta área.
Waldemar Bastos vivia em Angola desde 1990, com a família, sendo pai de três filhas.



Fonte: culturaaominuto