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OPINIÃO


Harun Farocki, Schnittstelle/Interface, 1995.

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RE-CONFIGURAÇÕES NO SISTEMA DA ARTE CONTEMPORÂNEA - RELATO DA CONFERÊNCIA DE ROSALIND KRAUSS NO III SIMPÓSIO DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO PAÇO DAS ARTES



ANANDA CARVALHO

2011-10-12




A propósito da exposição Três duplas projecções de Harun Farocki, patente no Palácio Galveias até 6 de Novembro, publicamos o relato da conferência “Re-configurações no sistema da arte contemporânea” de Rosalind Krauss, proferida no âmbito do III Simpósio de Arte Contemporânea do Paço das Artes, São Paulo. Nesta conferência Rosalind Krauss comenta um dos mais importantes trabalhos de Farocki, Schnittstelle/Interface, em que o autor analisa o seu trabalho na mesa de montagem. Esta é uma das obras presentes na exposição organizada pelo doclisboa em colaboração com o Goethe-Institut, a Culturgest e a Escola Maumaus.

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O III Simpósio internacional de arte contemporânea do Paço das Artes foi aberto com a fala de Rosalind Krauss (crítica de arte e professora da Universidade de Columbia, NY). A palestra critica a visão pós-modernista e as grandes exposições de arte a partir da análise de artistas que pensam a própria mídia criando diferentes sentidos de recepção dentro do cubo branco, que, segundo Krauss, é o santuário adorado pelo modernismo como o espaço seguro que separa a arte do mundo.

Rosalind Krauss nos relembra de sua posição crítica às grandes exposições como as feiras de arte, bienais e também a Documenta. Cita a diretora da 10ª Documenta, Catherine David, que defende a ideia de que o cubo branco acabou. O cubo branco, espaço das galerias e dos museus, é a metáfora da arte pela arte e estabelece a analogia entre o nivelamento da tela e a continuidade das paredes brancas. Ao contrário de Catherine David, Krauss não concorda com a oposição ontológica entre arte e mídia. Para a palestrante, durante décadas, as obras modernistas usavam como base a tela, a parede ou o bloco de mármore como representação do trabalho.

Rosalind Krauss testa as afirmações de Catherine David, citadas acima, a partir do trabalho de Harum Farocki, mais especificamente a obra Schnittstelle (Interface). Essa videoinstalação é composta por dois monitores em que o artista mostra e discute seu trabalho. No início do vídeo, Farocki fala de sua produção em sua sala de edição: “Hoje em dia, eu dificilmente escrevo uma palavra sem uma imagem simultânea na tela. Na verdade, nas duas telas”.

Interface refere-se à relação entre telas duplicadas ou à conexão que Farocki chama de soft editing. Desse modo, a obra questiona um formato de assistir que depende do olhar do espectador entre um monitor e outro e as paredes que o separam. Segundo Krauss, ao contrário do que se espera nas grandes feiras e exposições, o espectador despende tempo com a obra de Farocki, ou seja, tem que entrar na sala de edição para se identificar com o artista.

Krauss contextualiza sua crítica num momento em que o pós-modernismo atacou a separação entre os meios, como a pintura da escultura. Para tal, cita a idéia de self-criticism (autocrítica) proposta por Clement Greenberg que diz que a competência de cada arte coincide com as especificidades da natureza de seus meios. Esta linha de pensamento opõe-se à Arte Conceitual, na medida em que Joseph Kosuth diz que, se um artista trabalha com a pintura ou a escultura, ele está aceitando a tradição que acompanha toda a natureza da arte.

Além de questionar as bases da configuração das paredes das galerias como “o lado da piscina”, a obra Interface evidencia a demanda de duas telas para edição de vídeos, bem como a transcodificação do analógico para o código digital. Krauss apresenta Farocki como um artista rebelde que recusa o Pós-modernismo e a tese da 10ª Documenta sobre o fim do cubo branco.

A crítica cita trabalhos de alguns artistas – Christian Marclay, William Kentridge, Sophie Calle, James Coleman e Marcel Broodthaers – que pensam a própria mídia criando diferentes sentidos de recepção dentro do cubo branco. Ao escrever sobre eles, a autora percebeu a dificuldade encontrada na oposição entre Pós-modernismo e Arte Conceitual. Neste sentido, Krauss abandonou o termo mídia e passou a utilizar o conceito de suporte técnico (technical support).

Este conceito permite ao artista concatenar a sensibilidade modernista da história de cada meio de acordo com a ideia do fim da grande narrativa defendida por Lyotard. Desse modo, Krauss retoma Walter Benjamin com o conceito do pulo do tigre (Tigersprung), que imediatamente conecta o passado com o presente. Nesse sentido, cita também a ideia de desejo ontológico proposta por Roland Barthes para pensar as paredes do cubo branco, em vez de apenas tocar suas bases com a especificidade de um meio, novo ou tradicional.

Para finalizar, Krauss expõe o desprezo das instalações em relação ao cubo branco. Para isso, retoma Stanley Cavell, que afirma que o “Modernismo apenas torna explícito o que sempre foi verdade da arte”, ou seja, “os perigos da fraude, e de confiança, são essenciais para a experiência da arte”. E sugere que esta conferência deveria enfocar a fraude da arte que agora nos rodeia, e as práticas internacionais das feiras de arte ou da Documenta que, de modo fraudulento, nos garantem sua boa fé.


NOTA
A publicação foi gentilmente autorizada por Ananda Carvalho. O original está disponível em: www.tinyurl.com/3w4vr7f