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COMO NÃO FAZER ARTE PÚBLICA



J.J. CHARLESWORTH

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O que é que Hans Haacke e David Shrigley têm em comum? O primeiro é um dos padrinhos da arte conceptual politizada, o último um dos melhores expoentes britânicos da arte como veículo para um inexpressivo humor absurdo e existencialista não tanto, pensarão vocês. Mas ambos acabam de ser comissariados para a produção de esculturas para o ’quarto plinto’ de Trafalgar Square’s - o pedestal vago no mais conhecido espaço público da zona noroeste de Londres, que ao longo dos últimos quinze anos se tornou local para uma intervenção pública anual, financiada pelo Mayor de Londres e pelo Concelho das Artes.

As intervenções comissariadas anunciadas para 2015 e 2016, respectivamente Haacke e Shrigley, podem parecer pólos opostos, mas subjacente a elas está uma atitude que parece agora dominar a cultura da arte pública no Reino Unido: uma atitude que favorece a arte pública como uma depreciação auto-consciente do estado da arte pública - não muito séria, não muito importante - ou, reciprocamente, como uma oportunidade para um pouco de comentário social sério sobre as questões da ordem do dia.

Really Good, de Shrigley, é um grande punho caricatural fazendo o gesto ‘thumbs up’ mas em que o polegar é absurdamente alongado em direção ao céu. No que respeita às peças de Shrigley, condensa nitidamente o artifício habitual do artista – um optimismo crédulo para sempre afundado numa cruel comédia de gargalhada do falhanço humano. “É minha esperança é que esta peça faça de Trafalgar Square, de Londres, do Reino Unido e do mundo um lugar muito melhor. E seria uma forma bastante eficaz em termos de custos de o fazer", diz Shrigley, com a língua a perder-se algures na sua bochecha.

Se Shrigley mimetiza o discurso-idiota de melhoria social que agora domina a política das artes no Reino Unido, então, Gift Horse de Haacke lembra-nos que a única coisa que arte pública gosta mais do que elogiar o público através da sátira à sua própria inutilidade, é o ser condescendente para com o público por meio de sermões sobre “questões” contemporâneas sérias. Por isso o trabalho tosco, aborrecidamente didáctico de Haacke é um esqueleto de um cavalo em bronze, que é suposto contrastar com a estátua do Rei George IV montado sobre o dorso do cavalo, no lado oposto da praça. Fixo na pata dianteira do cavalo estará uma sinalética electrónico, exibindo, “live the ticker of the London Stock Exchange, completing the link between power, money and history”, segundo o monótomo texto publicitário da peça. O capitalismo vai-nos arruinar! Yeah! Toda esta pompa e esplendor que nos rodeia é construída sobre a areia do mercado bolsista! Wooh! Nós somos os 99%! E isto sob o olhar complacente do Mayor Boris Johnson...

O cavalo de Haacke não é o primeiro trabalho para o quarto plinto que pega em “questões”, com certeza. O trabalho de Marc Quinn, Alison Lapper Pregnant (2005) foi concebido para nos fazer reflectir sobre as pessoas com deficiência e a beleza; o trabalho de Yinka Shonibare, Ship in a Bottle (2010) foi realizado para nos fazer pensar sobre a história do poder imperial britânico; Powerless Structures, fig. 101 (2012), de Elmgreen & Dragset, foi concebido para fazer-nos pensar um pouco sobre a guerra, e vocês sabem, a inocência e coisas dessas. Eles são o equivalente escultural de um concerto Live Aid.

O que é que se passa nas discussões internas do grupo de comissariado do quarto plinto, composto como pelas pessoas poderosas do mundo da arte de Londres, como a directora da Whitechapel Iwona Blazwick, o artista Jeremy Deller e de Matthew Slotover da Frieze? Estas são pessoas que fazem coisas interessantes e inteligentes, nas suas funções normais, mas aqui parecem imaginar o público como uma estranha fusão de adolescente entediado e multidão enfurecida; inquieto, distraído, excitado com formas ousadas e cores fortes e trivialidades políticas negligentes sobre o estado do mundo. Ou será apenas que a prioridade é sempre para um excêntrico marco fotogénico, para fornecer algum gloss nas relações públicas para a cada vez mais estéril, cara, non-dom-friendly e excessivamente regulada cidade de Boris?

De qualquer forma, tais preocupações com gestão de público e tentativas de adivinhação têm pouco a ver com o que realmente pode ser o trabalho artístico mais interessante, em e para si mesmo, e o que é impressionante é que normalmente é o trabalho genuinamente aberto e imprevisível, que é colocado de parte na secretária. Mark Leckey propôs Larger Squat Afar, uma recombinação bizarra de elementos copiados de todas as outras estátuas da praça, que poderia ter oferecido a oportunidade ao público de reflexão sobre temas como a história da escultura, o propósito de monumentos públicos, ou uma cultura agora dominada pela recombinação e edição, ou ... ou um monte de ideias guiados por interesses e percepções de um artista, e não pela necessidade de gestão maçuda de oficiais públicos para nos agradar, aplacar e patronizar. Mas em vez disso, o grande, o ruidoso e o didático vence sempre. O que é irónico, já que tantos trabalhos para o quarto plinto são realizados para serem de alguma forma críticos dos maus velhos tempos do monumentalismo tradicional – que era grande, ruidoso e, hum, didático... [versão portuguesa do original inglês]

 

J.J. Charlesworth

É crítico de arte freelancer e editor associado da revista ArtReview.

 

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Este artigo foi originalmente publicado na ArtReview, Abril 2014.