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OPINIÃO


Victor Palla, “Auto-retrato”, 1989

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VICTOR PALLA (1922 - 2006)



LÍGIA AFONSO

2006-05-17




Felizes os que não sabem o que vão fazer. Procuram apreender as relações essenciais entre o meio que os formou e os circunda, e a linguagem que têm ao seu dispôr. (Victor Palla in “Arquitectura”, 1949)

Artista completo, arquitecto, fotógrafo, pintor, ceramista, escritor, tradutor, designer gráfico, editor e galerista, Victor Palla, protagonista de um dos mais importantes e versáteis percursos do século XX português, desapareceu, a 28 de Abril, com 84 anos, sem que a dimensão da sua obra global tenha sido verdadeiramente entendida. A originalidade e o carácter inédito do seu percurso documenta uma sensibilidade profundamente plástica que reinventa, reinterpreta e cruza sucessivamente os diferentes media, sem determinação hierárquica, numa experimental vontade de contaminação e consequência.

Ingressa, em Lisboa, o curso de Arquitectura (1939) mas é no Porto que se diploma (1948). Associa-se a Bento de Almeida, com quem partilha atelier durante 25 anos e o seu trabalho, projectado em conjunto, é realizado à nova escala da Cidade. Neste sentido, a dupla foi responsável pelo surgimento dos primeiros snack-bares em Portugal (“Términus”, “Pique-Nique”, “Noite e Dia”, “Galeto” entre outros), criando uma nova e deliberada imagem comercial para Lisboa, forjada nos novos valores modernos e funcionalistas da arquitectura internacional. Estes novos espaços pretendiam associar, em simultâneo, refeições rápidas, preços acessíveis e espaços agradáveis.

No Porto, funda e dirige a “Galeria Portugália” (1944) e organiza, em conjunto com Fernando Lanhas, Júlio Pomar e outros as “Exposições Independentes” (1943-1950). Outra vez em Lisboa, integra assiduamente o colectivo de artistas das “Exposições Gerais de Artes Plásticas” (1946-1956), das quais é importante dinamizador e às quais apresenta trabalhos em todas as secções. Escreve artigos e textos de ficção para várias publicações, técnicas e literárias e trabalha sistematicamente como designer gráfico de inúmeras obras que simultaneamente dirige, traduz, ou em cuja edição colabora. É neste âmbito que realiza, em Londres, o “Publishing and Book Production Course” (1952).

Figura interventiva e referencial no panorama cultural da época, os seus primeiros desenhos e enquadramentos fotográficos evidenciam uma proximidade às enunciações da crítica neo-realista. Atribui protagonismo à simplicidade das manifestações quotidianas e familiares das gentes com quem, na rua, se cruza e encontra. São esses intervalos que fixa em inúmeros instantâneos desenhados, inventariando, em forma de exercício informal, a Lisboa da época. As suas primeiras experiências como assistente do pai, caracterizador de teatro e fotógrafo amador, derivaram num entendimento da fotografia como um meio auxiliar às diferentes disciplinas. Victor Palla nunca se considerou fotógrafo, mas a história determinou a sobrevalorização dessa actividade relativamente às restantes, nomeadamente à de Arquitecto, que o próprio assumiu como canalizadora de todos os outros interesses.

Contrariando a formulação da imagem fotográfica no contexto do Estado Novo do pós-guerra, cujo programa celebratório, estereotipado e propagandístico esvaziou a cidade da possibilidade da representação das suas dinâmicas sociais profundas, Victor Palla, agora em conjunto com o também arquitecto Costa Martins, desenvolvem, auto-financiados, um poema gráfico exemplar de uma paradigmática ruptura e de um moderno entendimento da cidade e da possibilidade da sua nova representação imagética, simultaneamente plástica e informativa. “Lisboa, Cidade Triste e Alegre” apresenta uma inédita permeabilidade do género fotográfico ao cruzamento com outros universos artísticos como o grafismo (que enforma a obra); o cinema (do qual importa a lógica compositiva, o ritmo e a temática, que remete para o Neo-Realismo Italiano); as artes visuais (na sensibilidade profundamente plástica dos planos e da própria impressão); a arquitectura (na definição dos enquadramentos) e a poesia (na ilustração remissiva, tantas vezes a partir de poemas inéditos). Fracasso editorial na época, consequência da dificuldade da compreensão da modernidade da obra mas também da fragilidade da estratégia de divulgação (fascículos distribuídos ao longo de sete meses) a obra foi recuperada, redistribuída e revalorizada nos anos 80, por iniciativa de António Sena na “Galeria Ether” (Lisboa, 1982), numa exposição inaugural da mesma intitulada “Lisboa e Tejo e Tudo”. O seu carácter absolutamente inovador atribuiu-lhe um lugar ímpar no panorama da história da fotografia nacional e internacional tendo sido citada por Martin Parr e Gerry Badger em “The Photobook: A History”.

Em 1992 o CAM-JAP/FCG organizou uma grande exposição retrospectiva da sua obra fotográfica e, em 1999, recebeu o Prémio Nacional de Fotografia pelo Centro Português de Fotografia.

Em 2003/2004 foi desenvolvida, por Lúcia Marques (bolsa FCG), uma pesquisa que parte de “Lisboa, Cidade Triste e Alegre” como estudo de caso para a problematização da fotografia como imagem da cidade no contexto do pós-guerra. Coordenou ainda um curso a partir da mesma temática (CAM-JAP/FCG, 2005) onde Luís Camanho estreou o filme-documentário homónimo (“Lisboa, Cidade Triste e Alegre”. DVDCAM, Cor, 2005), no âmbito de cuja investigação recolheu uma série de testemunhos inéditos sobre o exercício editorial da obra, motivando e reforçando o interesse e a urgência da sua reedição.

Encontram-se actualmente em desenvolvimento duas monografias académicas, de Patrícia Bento de Almeida, neta de Joaquim Bento de Almeida (FCSH-UNL) e de João Palla, neto de Victor Palla (IADE), cuja investigação incide, respectivamente, no estudo do atelier conjunto de Victor Palla e Bento de Almeida e na transversalidade e importância do desenho na estruturação da obra global de Victor Palla.

Até ao fim do mês de Maio estão patentes as exposições colectivas “Em Foco: Fotógrafos Portugueses do Pós-Guerra” (encerra a 28 no Museu da Cidade, Lisboa) e “XX – Visões do Feminino na Colecção dos Encontros de Fotografia de Coimbra” (encerra a 29 no Centro de Artes Visuais, Coimbra), nas quais se exibem alguns dos seus trabalhos que procuram “ver e exprimir o mundo”.


Lígia Afonso
Licenciada em História da Arte
Mestranda do curso Museologia e Património (FCSH-UNL)


Fontes:
AFONSO, Lígia, “Victor Palla” in “Um Tempo e um Lugar. Dos anos quarenta aos anos sessenta. Dez exposições gerais de artes plásticas”, Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo / Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 2005.
AA.VV., “Victor Palla”, Lisboa, Centro de Arte Moderna / Fundação Calouste Gulbenkian, 1992.
MAH, Sérgio, “Victor Palla: Procurar, Ver e Exprimir o Mundo” in “Arte Ibérica”, ano 4, nº 40, Out/Nov 2000.
MARQUES, Lúcia, “Victor Palla” in “Roteiro da Colecção do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão”, Lisboa, Centro de Arte Moderna/Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
PALLA, Victor, “O lugar da Tradição” in “Arquitectura”, 2ª série, nº 28, Jan. 1949.
PALLA, Victor; MARTINS, Costa – “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, Lisboa, ed. autores, [1959].
Idem, “Lisboa e Tejo e Tudo” (1956/1959), Lisboa, Ether, [1989].
POMAR, Alexandre, “Victor Palla (1922-2006)” in “Expresso” – Revista “Actual”, 06.05.06.
SENA, António, “História da Imagem Fotográfica em Portugal (1839-1997)”, Porto, Porto Editora, 1998.