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OPINIÃO


Imagem cortesia de Planeta Tangerina / Inês Viegas Oliveira.


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APONTAMENTOS A PARTIR DE, SOB E SOBRE O DUELO DE INÊS VIEGAS OLIVEIRA



CATARINA REAL

2022-10-08




 

 

Sobre duelo, a palavra, diz-nos o dicionário on-line priberam que se trata de um combate premeditado entre dois adversários, com armas iguais e, ou, num sentido figurado, uma contenda entre dois.

[ Gosto de recomeçar a pensar as palavras verificando-as pela norma, não vá o meu uso pessoal das mesmas tê-las feito corromper-se por outros caminhos - o que não raramente acontece - e também o meu entendimento do que se diz deixar de ser referente à norma. Aproveito e espreito no mesmo dicionário. Nor-ma; estado habitual, conforme à regra estabelecida. Mas também, dois de quatro; critério, princípio ao qual se refere todo o juízo de valor moral ou estético. ]

Um qualquer duelo, não o título, apesar de confrontativo, é uma figura justa. Um embate entre iguais com cenários de velha guarda. Sempre um confronto, mas com outra harmonia que não a de um combate. No duelo dá-se a cara. Por causa, ou honra, dependerá.

Em O Duelo, de Inês Viegas Oliveira, publicado na Planeta Tangerina não faz ainda dois meses, uma carta é endereçada ao Excelentíssimo Doutor Rodin Rostov, que habita o nº 17, de algures muito longe e muito frio, tão longe e frio quanto o uso de 11 selos diferentes - o que se supõe caro e portanto importante. É não só importante que o Doutor receba a missiva, como que a receba por via postal, onde a materialidade não está esquecida mas também o tempo - entre a certeza do endereçamento e a entrega do correio, passando pelas mãos experientes e calejadas dos vários carteiros que, como numa corrida de estafetas, vão entregando papel de mão em mão até alcançarem o frio e longe suficiente - da demora do trajecto, e então, embora Rostov não soubesse, pelo tempo da espera.

O endereçamento toma início no primeiro E., caligrafado com excelsa prontidão (sonho eu num rascunho deste livro). E desde o primeiro E. que Rostov espera, marcado, como um alvo que o convoca a este O Duelo.

Não sei, neste cá, não tão frio e relativamente perto, se ainda existem duelos. Apesar da desarmonia e caos em que encontramos a saúde do mundo, a desigualdade marca qualquer confronto.

Ganhou-se outro vocabulário para as quezílias que, de escala a escala, deixaram a justeza (mais do que a justiça, tão pouco justa na sua medida à letra) de lado em prol de uma falta de compromisso.

Não é por acaso, nem a escolha, nem as palavras. A nostalgia de algo que desapareceu do léxico - determinados valores e tempo para antipatias empenhadas (engajadas mesmo que viradas para dentro), em que vale apostar tudo ou nada - também não é ocasional. A vontade de permanência, segurança, confiança e de todas as construções que são sólidas e que vale defender numa luta de tudo ou nada. Acreditar ainda no que se nos valha a reboque deste toque nostálgico.

À prontidão do duelo, da latência do sangue contra as veias para que alguma coisa valha a pena, ao tum-tum nos ouvidos; depois de uma afronta à qual não se poderá abrir mão segue-se um longo caminho sempre em frente, para que a certeza do golpe final nos valha. Tantos passos quantos os pensamentos de incerteza quanto às convicções. Será justa a convicção sobre a qual me levanto da cadeira para seguir caminho? De costas voltadas, passo após passo, esses pensamentos de incerteza - os nossos que “Aqui estamos” - quanto a nós e nossos oponentes, levantam-se mais prementes questões que temos de resolver. Como subir e descer este degrau? Da convicção, não me esqueço pelas pernas que continuam, mas primeiro, como não padecer da brisa, do sol, das aves que tagarelam em línguas inventadas, da mistura das formas que as nuvens formam lentamente.

No final, pergunto-me se todo este caminho terá sido feito para que o duelo interno se possa dar: e que nos chegue a carta a casa, passado todo o tempo do primeiro E. ao “Bom dia, como está?” do último carteiro. Afinal por cá está também muito frio. E pensando bem, estamos ainda muito longe.

O que leio, no sucinto e certeiro texto de Inês, não se deixa ver nas imagens do mesmo livro.

Antes, as imagens dão-nos este trajecto que não poderemos ver sem as pernas que nos farão andar as diferentes paisagens até que se acalmem as erradas fúrias de mudar mundo à imagem de uma só figura (o desenho com que se inicia). Depois de o vermos todo, duelos poderão efectivamente ser convocados. Só assim, largando as primeiras armas e seguindo em frente. Cada virar de página acrescenta-nos inesperadas viragens. O início do duelo dá-se a ver nos desenhos abertos em que figuras caminham em direcções opostas. Perdemos uma de vista e continuamos com as visões de outra. Repetições de figuras, exércitos, bandas filarmónicas de soldadinhos de chumbo, malabaristas e exibicionistas. Novos prédios que crescem, e mais cores. Ao virar da página estamos num outro lugar; uma corte, cineteatros, lustres de Murano. Novas danças, novas velocidades, o acelerado novo mundo. A circulação incontrolável dos veículos nocturnos, a mudança dos dias e das horas, das luzes do espectro. Paisagens campestres. Ilhas de animais. Pastoreio não amestrado. Espreitadelas para o céu, constelações, cartas astrológicas, divinações. Mudanças de temperatura e de condições meteorológicas. Viagens navais para atravessar o nada. Deslizares de pôr-do-sol. E flores, muitas flores. E muitos pássaros, aves migratórias, que levam a missiva de novo a seu lugar.

Estes desenhos precisam de ser vistos para que a viagem se dê. Ou, a tecer algum outro apontamento, que sejam desenhos das paisagens que ainda não vimos.

O Duelo apresenta-nos uma travessia de um início onde “Aqui estamos.” - será este personagem e nós que o vemos? - até às paisagens exaltantes, recortadas, detalhadas, que poderiam ser de uma outra metade do hemisfério. Se aqui estamos mas ainda não vimos meio mundo, talvez aqui ainda não estejamos realmente. No final do livro, aconselho o seu recomeço. E aí sim: “Aqui estamos”!

* só no final deste texto li a sinopse de apresentação deste livro. Talvez me tenha deixado levar pelas paisagens: no início há mesmo dois homens que discutem e não sei se somos nós ou não.

** Os desenhos originais deste livro estão em exibição na livraria “It's a Book” na Rua Forno do Tijolo número 30, Lisboa até 22 de Outubro.

 

 

Catarina Real
(Barcelos, 1992) Trabalha na intersecção entre a prática artística e a investigação teórica nos campos expandidos da pintura, escrita e coreografia; maioritariamente em projectos colaborativos de longa duração. É doutoranda do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho com uma investigação que cruza arte, amor e capital. Encontra-se em desenvolvimento da Terapia da Cor, prática aplicada entre teoria da cor, arte postal e intuição coreográfica. 

 

Inês Viegas Oliveira nasceu em Tavira em 1995. 
Numa cassete gravada quando criança, há uma frase que repete incessantemente para a câmara: “E agora mãe, o que é que eu faço?”. Numa tentativa de fazer tudo, entre bolas de basquete, mãos pintadas, passeios de bicicleta, panelas queimadas e cadernos rabiscados forma-se em Física e deixa pelo caminho um mestrado em Matemática. Tem uma pós-graduação em ilustração da Universidade Autónoma de Lisboa. Continua a fazer muitas perguntas, mas de vez em quando pára para desenhar. www.ivoliveira.com