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OPINIÃO


Brian Mackern, “Maquina Podrida (la Desdentada)”


marcosandmarjan, “E-vernadero”


Marta de Menezes, “Nature?”


MEIAC – Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporáneo. Vista aérea


MEIAC – Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporáneo

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Num outro texto que escrevi para a ARTECAPITAL, “Vídeografia”, sobre a exposição de E. M. de Melo e Castro no Museu de Serralves, coloco uma questão que volto a reformular nesta proposta: quais os indicadores que definem melhor a dinâmica da criação na contemporaneidade? Movimento, velocidade e transformação? Decerto um trinómio, não por certo este, uma conjectura que se pretende afinar. Contudo, movimento reflecte um corpo que não é estático e que sofre deslocamento, velocidade, uma característica intrínseca ao movimento (recordo o conceito momentum — massa x velocidade – mass in motion do princípio da incerteza de Heisenberg), e transformação, um estado metamorfosis.

“META.morfosis - el museo y el arte en la era digital”, comissariado por António Cerveira Pinto para o MEIAC – Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporáneo em Badajoz assiste a um inteligível prolongamento pelos meses de Verão com desfecho programado para Setembro. Dado esta hipótese, apesar de já ter inaugurado em Janeiro de 2006 e com encerramento previsto a Junho, é inevitável mencionar neste formato a relevância da proposta e da problemática que manifesta. António Cerveira Pinto é artista, escritor e consultor de cultura. O que apresenta em resposta a uma iniciativa lançada pelo MEIAC é consideravelmente mais do que uma vulgar exposição: um ensaio teórico-prático sobre a disseminação da arte designada pós-contemporânea.

A articulação entre arte, ciência e tecnologia (outro trinómio), sugere umas quantas questões sobre o lugar da arte (talvez um não-lugar), ou mesmo, sobre o lugar da ciência, por convocar em auxílio a especulação teórica centrada na ontologia das próprias ligações. Ou seja, ainda num território indefinido que tende a solucionar e a apresentar um futuro já presente, as artes tecnológicas e digitais criam dissonâncias que destabilizam por deslocamento, perturbação e desvio os componentes culturais criador/criação/público. A bioarte, intimamente ligada à investigação biotecnológica, é exemplo de um plano simbiótico onde a arte coincide ponto por ponto com a vida. Uma disfunção crítica, porém, consciente, que nos traz o artefacto vivo exigindo outros atributos da experiência estética: pelo menos um enquadramento tecno-estético. Por sua vez, as artes digitais como a net art, arte virtual, etc., conectam-se com “...a duplicação digital do mundo, quer dizer, a substituição de uma boa parte da agitação macroscópica actual em interactividade electrónica e digital,...”, retirando as palavras do comissário. A performance artística é neste meio mais centrada em “estratégias sociais de conexão de redes de acesso livre” do que na viabilidade económica — reitera um espaço de “criatividade democrática”. Não se trata do tecno-fetiche por vezes proclamado nos media e no cinema, mas de uma tecnosfera à qual nos adaptamos que desesteticiza essa aparência, exigindo mais consciência e inteligibilidade. Como (re)definir e (re)organizar o museu segundo estas novas práticas? Recomendo a leitura dos texto “Inteligência Colectiva y Redes Creativas, El Museo Inmaterial” e “La Condición Postcontemporáne” de A.C. Pinto, base conceptual do projecto, disponível no site.

A exposição/ensaio elabora uma proposta que se coordena em três, outra vez um trinómio, metamorfoses necessárias para a adaptação institucional, passo a citar: alterações museológicas na passagem do “museu material para um imaterial (bio-museu)”; integração e deslocamento do público “elevado à categoria de actor curatorial”, por último “a transformação do enquadramento arquitectónico numa topologia avançada de democracia, urbanidade e vida multimodal”. O argumento prático enquadra uma reflexão sobre arquitectura, 17 propostas para o bio-museu, museu do século XXI, e 26 obras de artistas adquiridas para a colecção do MEIAC. Acredito que este ensaio é uma urgência de reconfiguração do museu, da arte, do seu meio, do pensamento, face a esta disseminação. Nisso esta hipótese atribui à arte uma entidade dinâmica, imaterial e múltipla para não cair no anunciado decadentismo do capitalismo tardio. Obras como “E-vernadero” de macosandmarjan, um coral à medida arquitectónica que se agrega ao edifício protegendo uma área, a “máquina desdentada” de Brian Mackern, um dos primeiros restos arqueológicos conservado e exposto sobre a matéria que depende o mundo imaterial, ou “Nature?” onde assistimos às fases da metamorfose de borboletas, nascimento/vida/morte, com a particularidade de uma das asas ser artificialmente alterada/pintada, representação da artista portuguesa Marta de Menezes, até ver caso único da bioarte em Portugal, são soluções para a problemática aberta no campo teórico. Decerto uma resposta válida pela sua eficiência intelectual à minha primeira questão.

A arquitectura cede e entrelaça as obras de arte e o público, ele próprio mutável na rede. O Bio-museu é uma plataforma, no mínimo, triplomórfica, que debate os paradigmas modernos da cultura ocidental.


Referências:
META.morfosis - www.metamorfosis.risco.pt