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OPINIÃO


Por vezes os artistas e os historiadores em Artória estão em BRANES diferentes e a escultura confunde-se com a pintura. (Visualização feita por Horta do Rosário, 2006. Artes Visuais, Univ. Évora)




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ARTÓRIA - ARS LONGA VITA BREVIS



PEDRO PORTUGAL

2007-01-03




Artória é no futuro. Em Artória os críticos de arte não têm poder e os historiadores de arte são artistas. Em Artória existem classificações estranhas para os funcionários e participantes do fenómeno a que chamamos arte: há Mutantistas, Critistas, Artoradores, Artistores, Colectoradores e Mutancríticos, há Critoriadores, Artistómanos e Historíacos.

O que há de diferente na economia da produção artística e de prestígio em Artória?

Em primeiro lugar os crÍticos da/e arte. A figura romantic-pop que nós conhecemos do crítico de arte que descobre o jovem artista quando ainda pastor de cabras, que faz talentosos drippings com xixi, esculturas com vacas prenhas cortadas ao meio ou interacção com coiotes dentro de espaços fechados, pertence a uma fase que em Artória é classificada de arcaica. A fase clássica em que o pastor-artista-filho-de-moleiro é condicionado a fazer um caminho de artisticidade pura, onde o crítico, pelas suas qualificações académicas, está mais habilitado a induzir a produção do “artiste protégée”, deixou de ser necessária em Artória. Tão impensável como o artista-manager aka PJ-artist (Portfolio Jockey-artist).

[Gostava de evitar exemplos para não tornar a coisa nacional, mas é inevitável para perceber esta bi-homoteoria:
1. O homem que queria ser Julião Sarmento e acabou sendo Delfim Sardo e a mãe disse: “Também está bem!”.
E 2., já agora, “porque é que o Rendeiro está nos 100 + e o Berardo não? Porque o Rendeiro tem uma colecção Lapidar…”].

Em rigor a única fase de progressão histórica conhecida em Artória é uma espécie de barroco. Uma inexorabilidade histórica (um meteorito?) remeteu os críticos para funções menores. São, com júbilo e competência, júris dos prémios mais obscuros, atribuídos nos territórios mais remotos. Há prémios intergalácticos para crítica de arte, tipo: escrever uma micro-recensão, paga em créditos existenciais, para um caderno menor de uma importante revista de arte universal.

É certo que os Prémios alteraram radicalmente a determinação do valor cultural e a formação do gosto público em Artória. Os prémios tornaram-se na unidade de sucesso cultural. Há 10 vezes mais prémios do que artistas e todos os artistas já receberam prémios. O sistema de valorização artística já não tem a ver com secularização (passado cristalizável) mas com premiação (acção histórica directa).
“Todo o sistema de atribuição de prémios pertence a uma época acrítica; é um acto de pessoas que, tendo aprendido o alfabeto se recusam a aprender como soletrar.” Esta afirmação feita em Artória em 1928 por um primitivo chamado Ezra Pound é incompreensível.


Em segundo lugar, os historiadores da/e arte. Quando se diz “História da Arte” ou “História de Arte” é sempre encenado um choque histórico. Não está à partida decidida uma hierarquia e também não se pode dizer que exista uma arte da história.
O facto dos historiadores em Artória estarem mais bem equipados do que os artistas para serem artistas deve-se ao facto das escolas de arte darem um treino técnico focado na ideia do artista-artífice que constrói artefactos que se ajustam mimeticamente e com estatuto honorífico à descrição de arte. Por outro lado, os historiadores reclamam superioridade de decisão baseada na proximidade física e na cultura visual relacional. É óbvio que os artistas perdem porque a auto-determinação reclamada sem argumentos de especialização no passado não tem futuro.

Porquê? Porque os planificadores da história em Artória descobriram que os “objectos de Arte” quando são feitos falam no e do presente. O que está dentro da categoria de objectos de desejo são objectos que pertencem ao estudo da história. A arte pertence à história e não à arte. Esta condescendência permitiu que a composição teórica da história/arte se consolidasse com uma aura de glamour interdisciplinar auto-suficiente e sem a moral de “arquivo” ou “imaginação” sintética do artista-artista.

Outro primitivo chamado Baxendall, dizia que a arte-de-segunda não tinha utilidade histórica. Porque é que isto parece tão verdade?
A grande demanda artística Artoriana consiste em determinar se a quantidade de arte que ainda não foi feita é maior ou menor do que a arte que desapareceu ou é desconhecida.
Em Artória viajar no tempo é um exercício técnico. Os historiadores-de-arte-artistas (historistas) que fazem imersões na história para encontrar “deciphers” ou “combinators”, sobretudo a partir do contemporâneo (1960), necessitam de usar cada vez mais competências num território em grande parte inexplorado. O número de exploradores tem de ser cada vez maior para cobrir cada vez melhor todas as parcelas de registo artístico (filmes, vídeo, instalação, performance, peças efémeras ou baseadas no tempo). O inevitável equívoco que se estabelece, mas totalmente desconsiderado pelos artorianos, é que a amostragem dos objectos de estudo da história da arte constituem um universo simbólico de expressão que não foi feito para ser interpretado no futuro… Os artistoriadores só possuem uma imaginação treinada para poder ver coerência, separar lixo e inserir artificialmente um momento histórico documentado que valide falhas históricas futuras.

As regras artísticas em Artória são simples: É proíbido a existência de artistas anónimos e todo o capital cultural subestimado por negligência profissional é punido com o degredo retro-histórico. Um dos resultados surpreeendentes desta legislação é a obrigação que condiciona os dirigentes artísticos a fazer sessões confessionais semanais, perante os membros do Observatório Interpretativo da Actividade Artística, onde expõem as suas perversões e fraquezas. Todas estas aberrações são convertidas obrigatoriamente e instantaneamente pelas produtoras dos artistas oficiais em grandiosas esculturas de titânio, hiper-performances, “tableaux vivants” e vídeo-arte. A coisa mais próxima com um Museu em Artória é um mega-parque temático da arte onde são expostas todas essas monstruosidades para apedrejamento e vandalização criativa de toda a população.


Pedro Portugal
Artista