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António Lago, “so sweet, fresh meat!”, 2006


António Lago, “so sweet, fresh meat!”, 2006


Carla Filipe, “obrigado pela conversa”, 2006


Carla Filipe, “obrigado pela conversa”, 2006


Dandy, “Totó”, 2006


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Nuno Ramalho, “noite feliz”, 2006


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ANTÓNIO PRETO

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Nos campos do norte, a conquista ideológica estava bloqueada, não pela indiferença da população, como insinuavam os republicanos, mas pela prática religiosa católica, que «politizou» as populações num sentido contrário e as tornaram imunes às propagandas livre-pensadoras. Os camponeses não eram gente simplesmente embrutecida e alienada: eram gente com outras ideias. Mas mesmo no Norte do País, os chefes republicanos tiveram uma surpresa no Verão de 1911. A população não mostrava, de facto, grande entusiasmo pela República. Quando convocaram os reservistas para enfrentar Couceiro, os oficiais lisboetas esperaram aí encontrar um «bando de insubordinados fanatizados pelos respectíveis [sic] priores». Em vez disso, os rapazes das aldeias do Minho, desde que se encontraram nas cidades, em Braga ou Viana do Castelo, dentro dos quartéis, não tiveram quaisquer repugnâncias em atar ao braço laços verdes e vermelhos, e sair pelas ruas, com a banda de música à frente, a cantar A Portuguesa e a gritar morras aos jesuítas, todos «ferozmente livre-pensadores» [...].O problema com eles não era quererem ir à missa (que evitavam): era terem ainda menos escrúpulos militares do que religiosos. Eram, segundo os oficiais, uns «porcalhões», completamente avessos a toda a disciplina, mandriões, desleixados, desordeiros, capazes de ir pedir esmola para as ruas e de roubarem nas cantinas [...]. Fora das suas aldeias, os jovens camponeses tendiam a comportar-se de uma maneira que não correspondia ao espesso vulto de timidez e superstição que os letrados de Lisboa gostavam de lhes atribuir.

Rui Ramos, “A Segunda Fundação (1890-1926)”, História de Portugal, Dir. José Mattoso

Portanto, resumindo em poucas palavras, devem os encarregados da cidade apegar-se a este sistema de educação, a fim de que não lhes passe despercebida qualquer alteração, mas que a tenham sob vigilância em todas as situações, para que não haja inovações contra as leis estabelecidas na ginástica nem na música. Acautelem-se o mais possível, com receio de, se alguém disse que “os homens apreciam acima de tudo o canto que tiver mais novidade” [Odisseia I. 351-352] se julgar talvez que o poeta quer referir-se não a cantos novos, mas a uma maneira nova de cantar, e que a elogia. Tal coisa não deve louvar-se nem entender-se assim, porquanto deve ter-se cuidado com a mudança para um novo género musical, que pode pôr tudo em risco. É que nunca se abalam géneros musicais sem abalar as mais altas leis da cidade [...].

Platão, A República (424a-b)



A Sala, i.e., a sala de estar da casa de Susana Chiocca e de António Lago é um espaço que, dados os interesses particulares e a área de intervenção dos seus inquilinos, está, desde Abril deste ano, votado ao acolhimento de performances. A abertura deste espaço no segundo andar do n.º 253 da Rua do Bonjardim, no Porto, corresponde à concretização de um projecto antigo, que os mesmos dois co-locatários haviam idealizado para ocupar o sótão de um apartamento que ambos habitavam, há alguns anos, em Lisboa, não tendo na altura conseguido reunir todas as condições para a sua realização. Dada a extinção de alguns dos projectos que compunham o panorama dos espaços independentes no Porto, bem como a inexistência, na cidade, de um sítio especificamente vocacionado para a apresentação de performances, Chiocca e Lago resolveram pois encher o frigorífico de cervejas (que oferecem) e abrir generosamente as portas de casa.

As honras de abertura d’a Sala couberam ao anfitrião, António Lago (que apresentou o trabalho “so sweet, fresh meat!”, 7 e 8 de Abril), ao qual se seguiram, à razão de uma por mês, as visitas, Carla Filipe (“obrigado pela conversa”, 12 e 13 de Maio), Dandy (“Totó”, 9 e 10 de Junho) e Nuno Ramalho (“noite feliz”, 14 de Julho), todos eles artistas residentes no Porto que, com maior ou menor regularidade, têm mostrado trabalhos performativos, nomeadamente no Pêssegoprásemana e no Salão Olímpico. Apesar das limitações do espaço, mais físicas e técnicas do que propriamente resultantes da exuberância decorativa do compartimento (na verdade, a Sala é uma sala vazia, na melhor tradição do white cube), as intervenções performativas resultaram numa grande diversidade temática – “a relação interactiva do homem com o seu espaço social, físico e psicológico”, reflectindo, através de uma prática transformista, sobre “a reconstrução do corpo, da casa, ou da personalidade”, aproximados de “conceitos e perfis estéticos em constante mutação” (A. Lago); “conversa insonora evidenciando tudo o que está para lá da oralidade”, nomeadamente o “papel primordial” do gesto (C. Filipe); um “trabalho de um ser humano”, deriva diafórica a partir de António Sala e da música popular (Dandy); a celebração da “meia-noite”, “porque o mundo é um lugar melhor do que realmente é” (N. Ramalho) – e de meios – respectivamente, a construção e reconfiguração do espaço, a projecção de um vídeo mudo e implicação da assistência na reconstituição conjectural dos conteúdos sonoros obliterados, a criação de um ambiente doméstico, a reconfiguração de uma festa de aniversário –, revelando os seus propositores-intérpretes um entendimento muito variado da especificidade contextual e das potencialidades estéticas da performance. Encontrando-se neste momento encerrada para férias, a Sala retomará as apresentações a partir de Setembro próximo.

Arrumada a casa e feita uma rápida perspectiva informativa pela ainda curta história d’a Sala, importa reflectir acerca da implantação do projecto na paisagem urbana e criativa em que se propõe, mas também no que se refere às implicações políticas das estratégias de apresentação e respectivas determinações sobre a tipologia dos espaços de produção e dinamização artísticas, bem como sobre a natureza da discussão estética e o grau sua penetração social.

Segundo Habermas, fora do universo doméstico, do Estado, das estruturas económicas e da Igreja, existe um espaço de discussão, de argumentação e de mediação entre os cidadãos (“conjunto de pessoas privadas que fazem uso público da razão”) e aqueles poderes, a esfera pública, que tem vindo a diminuir sob a influência das grandes corporações institucionais e respectiva operacionalização dos processos racionais (razão instrumental). A concepção habermasiana propõe assim uma abordagem teórica da sociedade, polarizada entre o sistema – que se refere à reprodução material, regida pela lógica instrumental (adequação de meios a fins) – e o mundo da vida – relacionado com a reprodução simbólica, rede de significados que compõem as perspectivas objectivas, normativas e subjectivas sobre o mundo. Num contexto em que, como no presente, se verifica uma colonização do mundo da vida pelo sistema, i.e., uma crescente instrumentalização que restringe o debate normativo aos técnicos e especialistas, a acção pública dos sujeitos históricos – “a retórica é republicana”, diz Nietzsche – revela-se fundamental para a consolidação da cidadania, que configura, nas sociedades democráticas e industrializadas, uma forma especial de organização do espaço político e de estruturação do Estado. Para, em termos artísticos, se conseguir um distanciamento crítico e uma verdadeira penetração na esfera pública (sem ter, para isso, de se ser minhoto ou de assinar um manifesto marxista), é pois necessário pôr termo à boa educação, desconfiar da cartilha, perverter as regras de etiqueta, arrotar a catequese institucional e assumir todas as consequências do anarquismo da criação (que não deve ser confundido com a heresia adolescente, nem com a mansa beatitude). Como refere Platão, “o pior dos castigos é ser governado por quem é pior do que nós, se não quisermos governar nós mesmos” (A República, 347c).

No Porto, o progressivo desaparecimento do espaço público converteu-se, sem contestação, em programa político. A monumentalização urbanística da ruína urbana (processo de escoramento de uma cidade-estaleiro intensificado com as obras da Porto 2001), a desertificação das ruas (baldio resultante da transferência da vida urbana para a periferia), a privatização das estruturas culturais (culminante no golpe de misericórdia no feudo moribundo que é o Rivoli dos últimos anos), a municipalização da opinião pública (fazendo depender o apoio camarário de critérios obscurantistas) e a carnavalização da política (apotegmatizada no desfile alegórico-recreativo de S. João, em que o autarca colheu inflamados aplausos, montado num autocarro panorâmico), são a sintomatologia da cancerização silenciosa e silenciadora da esfera pública, pensada na sua dimensão local e reflexo da disposição global do país: depois do urbanismo sanitarista do século XIX, o pensamento sobre a cidade deteve-se nos modelos modernistas do século XX (positivistas, baseados num ideal racional-funcionalista): o espaço público urbano – que é afinal uma categoria cultural – adveio plinto de afirmação e entronização do poder (económico), cabendo a este as decisões sobre a sua reconfiguração, proveito e desenvolvimento, o seu real uso.

Por isso, a reflexão sobre o espaço público (diferenciado do espaço comum– espaço de circulação comercial – e do espaço público virtual – rede de conexões técno-sociais) –, sem esquecer que a rua é ainda o espaço público por excelência –, a dinamização, a reinvenção e o alargamento das possibilidades de uso desse espaço, são questões que assumem uma importância fundamental: a salvaguarda do espaço público é a condição essencial para o alargamento e consolidação do espaço político.

A Sala situa-se no centro da cidade do Porto, numa rua de grande trânsito diurno, votada à prostituição à noite (intermitência entre duas práticas/modelos urbanísticos, o metabolista e o vernaculista?), entre duas praças recém-qualificadas – i.e., pavimentadas –, (Praça General Humberto Delgado/Avenida dos Aliados e Praça D. João I), enormes terreiros inóspitos que apelam à infrautilização, reduzidos à qualidade de zonas de circulação, que esporadicamente acolhem celebrações oficiais (num dos casos trata-se da “sala de visitas” da cidade, circundada por aparatosa cenografia de inspiração haussmaniana, cuja serventia se resume ao louvor das vitórias futebolísticas locais e aos festejos são-joaninos). A cidade oferece-se pois como um imenso terrain vague para a intervenção artística. A performance foi historicamente catalizadora da crise das categorias artísticas, um impulso de transgressão das fronteiras entre a arte erudita e a cultura popular e de inserção da experiência estética na vida quotidiana, indicando novas direcções invariavelmente libertárias: não foi Breton que disse que o mais radical acte gratuit surrealista seria disparar um revólver sobre uma multidão na rua? Por poder teoricamente prescindir de todos os meios técnicos e condições de exposição, podendo adaptar-se a qualquer lugar, a performance parece-nos assim um dos meios que, de um modo mais desburocratizado e eficaz, poderá interpelar o espaço público.

No entanto, a disciplinação da criação estética, confinada a modelos expositivos estabilizados e a espaços de mediação bem definidos e normalizados, confirma a operacionalização opressiva da esfera pública, o perigo de incursão num parnaseanismo teórico-formal e a urgência de uma discussão – não acreditamos, como Adorno, na improdutividade aporética da arte contemporânea e da sua crítica – sobre o apoliticismo e a guetização da criação artística. Cumpre pois questionar em que medida é que a disponibilização da sala de estar para o acolhimento da intervenções artísticas representa uma abertura ao espaço público ou, pelo contrário, um fechamento; como é que a abertura ao público e funcionamento d’a Sala interferem e se relacionam com esse espaço (que é a condensação de um processo histórico), com a prescrição de comportamentos e arcos de triunfo dos sucessivos projectos políticos (cenografias efémeras que são as figurações do poder) e com as imponderáveis possibilidades de o recriar.



a Sala
Rua do Bonjardim, 253 2º, Porto