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Jacques Rancière, Le Destin des images, Paris, La Fabrique, 2003


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Sobre o livro “Le Destin des images” do filósofo francês Jacques Rancière *


Jacques Rancière traça e analisa uma trajectória contemporânea da imagem enquanto lugar de controvérsia artística e relação com a palavra, o discurso, a frase. A sua análise parte da perspectiva textual e filosófica das relações entre arte, sociedade, produção cultural, história e política, e chega à ideia da representação contemporânea aliada a uma interrelação heterogénea. Isto contraria de certo modo a ideia preconcebida de modernidade purista, de separação entre as artes e seus meios de expressão, e também a crença numa vanguarda pulverizada. O que explica o seu ponto de vista é o conceito da montagem na perspectiva de Jean-Luc Godard – a frase-imagem que, para Godard, oscila entre montagem dialética (de herança marxista) e montagem simbolista, produtora de um sentido misterioso – o sentido próprio da produção cinematográfica. Estes dois tipos de montagem usados nas “Histoire(s) du Cinéma” de Godard criam, respectivamente, choques de sentido e uma relação produtora de sentido. Os dois métodos de representação ligam-se à ideia da imagem como causa de choque e da frase como agente pacificador, que estabelece um contínuo. Mas, na prática, a frase-imagem de Godard funciona pela associação e dissociação de textos, sons e imagens que, adaptados ou não, ecoam nos vários sentidos da nossa memória colectiva. Esta comunidade ou humanidade comum é a mesma que libertou a imagem subjugada a outro poder, o teológico, e a aproximou de si, como espelho da sua realidade burguesa.

A arte é muitas vezes tentada a representar o irrepresentável, a herança teológica, ou muitas vezes resigna-se a um mimetismo crítico e autofágico, como é o caso da pop art. A abstracção é a herança de uma revolução que visava libertar as formas de arte da figuração e subjugação burguesas. Mas esses ideais utópicos foram abandonados pela própria sociedade, que neles deixou de se rever.

Rancière distingue três tipos de imagem, já não limitada à dualidade da presença real e da presença do outro: a imagem nua, a imagem ostensiva e a imagem metamórfica. A primeira é a imagem fotográfica ou documental, ainda uma película, de realidade inquestionável. A segunda é a imagem ostensiva, presença bruta que reclama o nome de arte e visa a retórica da dissemelhança com o espectador - jogo de sombras, originalidade e semelhança original. A terceira é a imagem metamórfica, negociada entre as imagens ostensivas da arte e os sintomas sociais, culturais e políticos. De certa forma, esta imagem é o seu próprio destino e base da montagem ou frase-imagem, que não apenas se dissipará na esquizofrenia de ligar tudo a tudo, mas também no grande poder da imagem - a relação com um sentido duplamente poético e político da arte. A imagem metamórfica liga os outros tipos de imagens no campo da arte e funciona esteticamente de modo duplo: imagem como símbolo e interrupção do fluxo mediático.


Ana Cardoso



NOTA
* Jacques Rancière, Le Destin des images, Paris, La Fabrique, 2003
* Jacques Rancière, The Future of the Image, Verso, Londres, 2007

LINK
Entrevista a Jacques Rancière_ www.16beavergroup.org/mtarchive/archives/002640.php