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PERSPETIVA ATUAL


VIII Edição do Festival de Oberhausen em 1962


Alexander Kugle discursa na apresentação do Manifesto de Oberhausen a 28 de Fevereiro de 1962


Walter Krüttner, Isto deve ser um pedaço de ‘Hitler’ (Es muß ein Stück vom ‘Hitler’ sein), 1963


Alain Resnais, Le chant du Styrène, 1957


Alexander Kluge e Peter Schamoni, Brutalidade em Pedra (Brutalität in Stein), 1961

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PROVOCAR A REALIDADE: RETRATO DE UMA HISTÓRIA RECENTE EM OBERHAUSEN



JOÃO LAIA

2012-08-06




FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTA-METRAGEM DE OBERHAUSEN

O aniversário do Manifesto de Oberhausen (1962) serviu de pano de fundo ao programa temático deste ano, que constituiu uma ferramenta para repensar a história recente da Alemanha e da Europa.


O Festival Internacional de Curta-Metragem de Oberhausen celebrou em abril deste ano a sua 58ª edição. O certame é conhecido por uma programação onde se cruzam as linguagens mais experimentais do cinema e produções de artistas visuais, apresentando anualmente uma seleção inovadora, que se tornou uma das mais importantes mostras do panorama da imagem em movimento internacional. Este posicionamento permite ao festival participar nas movimentações cinemáticas atuais, onde as produções de categorização mais complexa são excluídas do circuito cinematográfico e se refugiam no interior do museu e da galeria. Em simultâneo, esta perspetiva abrangente permite também incluir no contexto do festival, locus da indústria cinematográfica por excelência, produções de artistas que trabalham com o medium, e que são dificilmente experienciadas fora do contexto da arte contemporânea. Esta singularidade é um dos motivos que explica a relevância do evento que atrai públicos heterogéneos e agentes profissionais de todo o mundo. As diversas competições do festival (estado da Renânia do Norte-Vestefália, alemã e internacional), onde Miguel Gomes ou Sandro Aguilar já receberam o primeiro prémio, representam o ponto central do evento ao qual se juntam retrospetivas e um programa temático. O aniversário do manifesto de Oberhausen, onde um grupo de jovens realizadores proclamou a necessidade de um novo cinema alemão, serviu de pano de fundo ao programa temático deste ano, que constituiu uma forma de homenagear este momento seminal e, em paralelo, uma ferramenta para repensar a história recente do país, em especial o período do nacional- socialismo, os seus antecedentes e o pós-guerra.


O cinema velho está morto. Nós acreditamos no novo. [1]

Em 1962, no festival de curtas-metragens de Oberhausen, vinte seis realizadores defendem a necessidade de um novo cinema alemão em oposição ao que consideram ser a irrelevância do panorama cinematográfico da época. Hoje este manifesto e os realizadores que o criaram têm pouca visibilidade. É com a segunda geração de realizadores do pós-guerra, onde se incluem Werner Herzog, Wim Wenders ou Rainer Werner Fassbinder, que o cinema alemão se reposiciona como uma peça central da cinematografia internacional. Embora o manifesto se centrasse em questões de caráter predominantemente económico relacionadas com o sistema de produção cinematográfica alemã, é clara a vontade desta nova geração em representar a sociedade contemporânea e em repensar o seu passado recente. Em conjunto com o retrato das mudanças em curso, os temas centrais dos filmes deste grupo foram, de forma mais ou menos subtil, o trauma da Segunda Guerra Mundial e o período de ascensão e queda do nacional-socialismo, etapas que se encontravam reprimidas nos discursos vigentes. Vivia-se um período de amnésia forçada e, ao mesmo tempo, voluntária, que este movimento pretendia desestabilizar. O programa que o Festival de Oberhausen dedicou ao manifesto, intitulado Dissidentes, Movimentos e Manifestos, propõs uma análise deste momento histórico e apresentou catorze sessões, exibindo cerca de oitenta filmes. Ele pertence ainda ao projeto maior Provocar a realidade: o manifesto de Oberhausen e as suas consequências, que se prolonga durante vários meses em diferentes espaços. Dissidentes, Movimentos e Manifestos constituiu uma ferramenta de intensa revisitacão histórica que se estendeu dos anos 30 até ao início da década de 60.

O programa dedicado ao manifesto esteve dividido em duas áreas. A primeira apontou para interesses estilísticos e/ou de conteúdo comuns entre os filmes, enquanto que o outro agrupamento foi construído de acordo com as origens geográficas dos filmes e realizadores. O primeiro grupo de sessões apresentou títulos como Fição Científica; Pessoas: o velho e o novo ou Sem Interrupção. São temas gerais, construídos de forma a não submeter os filmes a linhas de leitura demasiadamente restritivas. Fição Científica, por exemplo, analisa o pilar ideológico do pós-guerra: a ideia de progresso baseado na inovação tecnológica, que, paradoxalmente, era uma continuação do imaginário entre-guerras explorado por algumas vanguardas da época. Esta ideologia de progresso é questionada em filmes como Auto-estrada (1957) de Herbert Vesely, que abre com imagens otimistas e laivos propagandísticos, para posteriormente se tornar numa paisagem apocalíptica de morte e desespero. O segundo bloco programático incluiu filmes produzidos por grupos e/ou movimentos contemporâneos ao Manifesto de Oberhausen que nascem durante a década de 50 e início da década de 60 como o Grupo dos Trinta em França, o Image Art Society (Eizo Geijutsy No Kai) no Japão, Novo Cinema Americano: The Group, Svensk Experimental Film Studio, na Suécia, e o Balázs Béla Studio na Hungria. Este segundo momento inclui filmes onde são expostas diferentes dimensões das sociedades onde são produzidos, como Le Chant du Styrène (1957) de Alain Resnais, documento poético de uma fábrica petroquímica, The Isolation of Two Long-Distance Runners (1966) de Noda Shinkichi, meditação silenciosa sobre o nacionalismo japonês, O.K. End Here (1963) de Robert Frank, retrato da alienação moderna próximo de Antonioni, ou Gypsies (1962) de Drebuch e Schitt, retrato das condições de vida da comunidade cigana húngara. Houve ainda um terceiro bloco intitulado simplesmente Filmes dos signatários do manifesto de Oberhausen. Este foi, possivelmente, o programa central de todo o tema do festival, cujas imagens contaminaram e enquadraram o resto da proposta.


Isso deve ser um pedaço de ‘Hitler’ [2]

Filmes dos signatários do manifesto de Oberhausen esteve marcado pelo fantasma omnipresente do ditador e do seu regime. As quatro sessões deste programa especial apresentaram, em ordem não-cronológica, retratos do estado alemão, atravessando o período de ascensão ao poder do nacional-socialismo, da destruição do país durante a guerra, do processo de reconstrução, da vida quotidiana na Alemanha Ocidental (RFA), do seu milagre económico e rearmamento, incluindo, ainda, algumas alusões à Alemanha Oriental (RDA). Os programadores referiram a “Arqueologia Aplicada” ou “Arqueologia do Media” de Siegfried Zielinski no desenvolvimento de toda a proposta. Segundo esta perspetiva, desenvolvida pelo especialista da relação e utilização do cinema pelo Terceiro Reich, o passado e o futuro foram apresentados em simultâneo como um projeto presente de pesquisa. O medium cinema é uma ferramenta ideal para este tipo de análise por incorporar na sua matéria diferentes temporalidades: o presente documentado torna-se passado visionado, que é, inversamente, o futuro da gravação. Dissidentes, Movimentos e Manifestos pode ser entendido como um desenvolvimento desta perspetiva, adicionando uma nova dimensão temporal, o presente em 2012, à coexistência assinalada. A apresentação hoje deste conjunto de filmes leva a um interrogar da relação entre o presente e o passado, a uma interrogação arqueológica onde se identificam linhas de continuidade e rutura, e a um entendimento orgânico do processo de construção histórico, que se torna uma plataforma aberta de pesquisa.

É relevante notar que os restantes movimentos incluídos no programa pertencem a países que participaram ativamente na Segunda Guerra Mundial. O chamado Terceiro Cinema, centrado na América Latina e teorizado por Solanas e Getino, não foi incluído. O seu cariz internacionalista, com integrantes pertencentes a diversos países, bem como a inexistência de um centro bem definido, um estúdio, um anúncio público ou um coletivo coeso, como acontece nos outros exemplos, talvez expliquem a sua exclusão, mas o provocar da realidade proposto em Oberhausen parece retomar o interesse dos filmes da geração do manifesto em questionar a sociedade alemã. Brutalidade em Pedra (1962) realizado por Peter Schamoni e Alexander Kluge e Isso deve ser um pedaço de Hitler (1963) de Walter Krüttner foram filmes paradigmáticos de todo o programa. Schamoni e Kluge retratam os edifícios de Nuremberga sublinhando a sua imponência mortífera e sobrepondo as vistas arquitetónicas com discursos que Hitler aí proclamou. A ferocidade da voz e os vestígios de combate nos edifícios, bem como a decadência inerente ao abandono a que o complexo foi destinado, criam uma poderosa dialética de pensamento histórico. Isso deve ser um pedaço de Hitler toma uma posição mais humorística para abordar uma temática semelhante. O filme retrata a indústria turística que se formou em Obersalzberg, zona montanhosa onde Hitler constrói o seu refúgio bucólico, a Berghof. Turistas de todo o mundo acorriam ao local para visitar a casa, o bunker, as casernas militares, ou tomar um café no terraço pisado pelo ditador. O filme termina com um dos guias a descrever as companhias de autocarros, que conduzem os turistas ao local, como “transportes”... O programa construído por Ralph Eue e Olaf Möller apresentou uma quantidade impressionante de magníficos filmes onde se incluem trabalhos de Straub Huillet, Harun Farocki, Matsumoto Toshio, Pet-Olof Ultvedt, Robert Breer , Shirley Clarke e uma colaboração entre François Roland Truffaut e Jean-Luc Godard, entre outros.

O exercício proposto pelos programadores representou uma reflexão sobre o significado deste período no presente e sobre o próprio presente, não uma homenagem nostálgica. O programa recuperou os interesses do manifesto e decidiu não os mumificar através de uma atualização eficaz das suas perguntas. O interesse dos realizadores da época em retratar a sociedade em que viviam e os acontecimentos responsáveis pela sua produção, encontra paralelo na vontade dos programadores em pensarem sobre esse período na Alemanha de hoje. O público do festival tem a tradição de aplaudir todos os filmes de cada programa, enquanto que na generalidade dos festivais isso apenas acontece dentro de blocos competitivos ou quando o realizador se encontra presente na sala. Foi surpreendente testemunhar o silêncio após filmes mais diretamente relacionados com o período nacional- socialista como Brutalidade em Pedra ou Isso deve ser um pedaço de Hitler. A ausência de aplauso, entre outras coisas, significa, provavelmente, a repulsa pelo regime nacional-socialista, mas, em essência, personifica o desconforto em lidar com o tema, e, consequentemente, a coragem do festival e dos programadores em apresentarem este conjunto de filmes. As interrogações de Eue e Möller são, assim, não só direcionadas ao ontem mas também ao agora, à Alemanha herdeira deste período e a todo o continente europeu, que também é resultado desta época. O contexto de crise em que o continente se encontra, ao apresentar ecos do passado, forma um cenário fecundo para este tipo de inquérito. Dissidentes, Movimentos e Manifestos é um exemplo de programação raro e urgente, ao conseguir manter a tensão política dos filmes através da sua articulação com o presente. A provocação da realidade proposta no título do programa apontou para um estudo social através do cinema, e torna-se filmologia à Oberhausen.


João Laia



NOTAS

[1] Frases finais do Manifesto de Oberhausen, 1962
[2] Título do filme de 1963 realizado por Walter Krüttner.