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JORNALISMO CULTURAL: O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO PORTUGUÊS – PARTE II



ZARA SOARES

2012-10-08




Definição de Jornalismo Cultural

“Definir jornalismo cultural poderá constituir uma tarefa árdua dadas as concepções não consensuais existentes, em parte suportadas pela própria complexidade do termo “cultura” e pela carência de estudos teóricos sobre esta especialização”, explica Dora Santos Silva no seu estudo Possibilidades políticas do jornalismo cultural digital na perspetiva da democracia deliberativa. “A definição de jornalismo cultural foi evoluindo paralelamente à de cultura, ajustando-se às suas duas concepções básicas: a “ilustrada” (que se restringia ao campo das belas-artes) e a antropológica, desenvolvida por E. B. Taylor, Richard Williams e outros estudiosos dos Cultural Studies. Como Rivera salienta, a primeira concepção tendeu a privilegiar meios específicos e seletivos, enquanto a segunda se infiltrou nos media em geral, “de certa forma, como acontece hoje – através de suplementos, revistas, fascículos colecionáveis, etc. – com uma variedade de ofertas culturais antes confinadas aos órgãos do primeiro tipo ou não reconhecidas de todo por eles”. Contribui para esta complexidade e heterogeneidade a coexistência de textos jornalísticos e exclusivamente literários ou ensaísticos nas páginas culturais – tradição que levou ao aparecimento do jornalismo literário –, a vasta gama de publicações onde “existe” jornalismo cultural, desde o suplemento de um diário a uma revista académica, e, por fim, as diferentes perspetivas de cultura que os media praticam (elite vs. massa, cultural especializada vs. cultural popular, tradição vs. modernidade, etc.).

O que diferencia a atividade do jornalismo cultural? Para J. S. Faro, esta “não pode ser vista apenas como uma operação que reitera os valores e os signos da cultura de massa, meramente voltada para o entretenimento, mas deve ser vista também como um espaço público de reflexão e análise de questões que a produção intelectual (artística ou académica) suscita no conjunto da sociedade”. Este autor define o jornalismo cultural como “a produção noticiosa e analítica referente a eventos de natureza artística e editorial pautados por seções, suplementos e revistas especializadas nessa área”. Refere: “(...) O jornalismo cultural deve ser visto como um “canal de expressão pública da produção intelectual”, porque além da cobertura noticiosa das atividades artísticas editoriais, tem uma forte presença autoral, opinativa e analítico-conceptual, incluindo vozes exteriores ao universo do trabalho dos profissionais de imprensa. É, portanto, um terreno híbrido que veicula quer produtos culturais submetidos à lógica do mercado quer aqueles que escapam ao entretenimento, constituindo-se em elementos de natureza reflexiva e crítica. Há, portanto, uma dimensão ético-política, reflexiva, presente no jornalismo cultural, desde a sua origem. O advento das indústrias culturais e criativas alargou os temas de actuação do jornalismo cultural. Se, antes, tratar de cultura era discutir somente literatura, teatro, artes plásticas e música erudita, hoje, novas linguagens e campos estéticos foram colocados no alinhamento editorial dos jornais e revistas. Começou por ser o cinema, depois a música popular. Seguiram-se a gastronomia, a televisão e a moda; atualmente, qualquer edição inclui o design e a arquitetura. Há uma mudança na própria definição de cultura utilizada no jornalismo, mais próxima da vertente antropológica e afastada da concepção aristocrática”.

Segundo a investigadora, o jornalismo cultural (que neste estudo é mais focado na sua vertente digital) tem o dever e as condições não só para “revitalizar a esfera pública contemporânea como também para alargar as redes de interacção social e as possibilidades de participação de todos os cidadãos. Tal como qualquer outra área do jornalismo, o cultural tem todas as condições para explorar essas tecnologias e utilizá-las para potenciar o seu valor democrático”. Aqui se percebe a importância que deve ser atribuída ao jornalismo cultural, como potenciador de conhecimento, de pensamento crítico – de democracia. Como se comportam os meios de comunicação portugueses face a estes valores e responsabilidades do jornalismo cultural?


Caso prático: O Herói, de Zezé Gamboa

Como vem descrito num artigo de opinião do Diário de Notícias, de 28 de fevereiro de 2005: “Em janeiro, a notícia caiu nas redações e surpreendeu tudo e todos. O filme O Herói, de Zezé Gamboa, realizador angolano, ganhou o prémio de melhor filme estrangeiro no Festival de Sundance, EUA. O filme foi produzido por Fernando Vendrell, ele também realizador de filmes com raízes africanas (Fintar o Destino, por exemplo). O galardão trouxe o filme para a ribalta. Em 2004, o filme tivera uma meteórica passagem pelas salas do país com uma bilheteira de apenas algumas centenas de pessoas. Poucas referências informativas lhe foram feitas na imprensa e a crítica quase o ignorou. Após o prémio americano, o realizador foi muito solicitado pela comunicação social, sempre atenta aos vencedores galardoados em cerimónias deste tipo, mas, em geral, menos disponível para o menos visível. Uma primeira reflexão sobre este assunto insere-se na análise feita por José Gil no Portugal, Hoje – O Medo de Existir. Depois de mostrar como os alemães se negaram a inscrever, na “sua existência, como na sua história, o III Reich e o nazismo”, José Gil afirma que o “25 de Abril recusou-se, de modo completamente diferente, a inscrever no real os 48 anos de autoritarismo salazarista.” A guerra colonial seria um dos aspetos dessa não inscrição, desse nevoeiro no qual vivem as nossas consciências, segundo José Gil. Ou seja, as pessoas (e os jornalistas são pessoas) não quererão inscrever no seu quotidiano a responsabilidade pelo que hoje acontece em Angola, em parte consequência dessa guerra, do passado colonial, da descolonização. O jornalismo é um modo de inscrição, por natureza – “Inscrever implica ação, afirmação, decisão”. Não omissão. Mas muitas manifestações culturais estão (não) inscritas no reino do esquecimento dos media”.

Por outro lado, Daniel Piza – jornalista e escritor brasileiro que faleceu recentemente – conclui no seu livro Jornalismo Cultural que: “(...) o “entretenimento” não é tabu, e (...) o desafio é encontrar sempre uma abordagem especificamente cultural, ou seja, crítica, ou seja, jornalística”. “Como é difícil, tão difícil, a imprensa portuguesa entender este simples facto” – afirma Pedro Mexia, escritor e critico literário. No seu livro, Daniel Piza (segundo Pedro Mexia) “reconhece que a cultura está em perda na imprensa brasileira: perda de espaço, perda de consistência e perda de influência. Um diagnóstico comum a vários países, incluindo o nosso (...)”. Mas afirma: “Jornalismo é dosagem. Temas ditos eruditos podem ser tratados com leveza, sem populismo; e temas ditos de entretenimento podem ser tratados com sutileza, sem elitismo”. Piza salienta que esse espaço comum de informação e debate tem um valor natural: “Quantas vezes não lemos a resenha de um filme que terminamos não vendo? Mas aquela resenha em si é um veículo de informação e reflexão para o leitor. Você pode querer ler bastante sobre a mostra Picasso e Matisse que é tema de debates em vários lugares influentes, até mesmo para se informar sobre a existência desse debate e de seus termos, ainda que não vá ver a mostra (…)”.

As problemáticas afluem também de outros locais do mundo. Douglas McLennan, diretor do ArtsJournal.com e do National Arts Journalism Program, reflete sobre o futuro do jornalismo cultural nos Estados Unidos da América e sobre “a necessidade de novos modelos de negócio nesta área. (...) O desaparecimento da função do editor nas seções culturais dos media, a cobertura mais comercial e menos reflexiva da cultura e a inexistência (ainda) de artigos sobre outros fenómenos culturais que não os usuais são algumas das razões apontadas para a crise do modelo usado até agora (...)”, revela o blogue de Dora Santos Silva, Culturascópio. E na jornada inaugural do primeiro Encontro Internacional de Jornalismo Cultural, realizado este ano, o diretor do jornal espanhol El País – Gumersindo Lafuente – advertiu para o “grande perigo” de reduzir os gastos em seções como a de cultura dentro de um diário grande em tempos de crise, “porque agora há muitos outros lugares onde procurá-la e o leitor irá a eles”. Questões que também se podem aplicar à realidade de cobertura cultural portuguesa.

Ígor Pereira Lopes, na sua dissertação de Mestrado em Comunicação e Jornalismo, sob o tema Jornalismo Cultural nas Redações: Um olhar sobre a actuação dos jornalistas no Brasil e em Portugal , aborda outra preocupação: “Uma discussão que merece ser levada adiante é sobre o benefício de se ter ou não, nas redações, profissionais exclusivos da área de cultura. Essa é uma realidade que atinge de forma específica as publicações dedicadas à cultura. Mas no dia a dia das publicações generalistas, que contam com cadernos culturais, essa não é uma vertente tão valorizada. Ou seja, profissionais com experiência em mais de uma editoria preenchem o quadro de jornalistas culturais. Não que isso seja um indício de falta de qualidade nos trabalhos apresentados. O que importa aqui é saber se esses jornalistas possuem um embasamento teórico – se necessário – sobre o tema. Alguns dos nossos entrevistados apoiam a ideia. Outros preferem acreditar que essa especialização torna a editoria redundante, sem variedade de pensamento”. Como resposta possível a esta discussão, “a jornalista Clara Ferreira Alves, o fotógrafo António Pedro Ferreira e o musicólogo Rui Vieira Nery integram o corpo docente da primeira Pós-Gradução em Jornalismo Cultural lançada pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa”, no ano passado. “Os oito módulos de formação, que compreendem 192 horas no total, vão permitir aos alunos adquirir competências na crítica de livros, artes performativas, musicais, visuais e cinematográficas, teoria e prática de jornalismo cultural, reportagem, entrevista e artigo de opinião e história e técnicas do fotojornalismo”, divulgou a Universidade Católica Portuguesa.


Estudo de caso: Diário de Notícias, Público e Jornal de Notícias

“Informação, agenda de serviços, crítica e orientação ao consumo cultural, através da edição de matérias de análise sobre determinados aspetos, setores e atividades do campo artístico-cultural. Essas são as principais características do periodismo cultural lusitano, conforme o estudo de caso, realizado a partir da observação e análise de 16 edições dos três principais diários impressos portugueses (Diário de Notícias, Público e Jornal de Notícias), tendo como amostra o período de 1 a 16 de novembro de 2001”, apresenta o jornalista Sérgio Luiz Gadini no seu estudo Tematização e Agendamento Cultural nas páginas dos diários portugueses.

“A adjetivação presente no discurso da cobertura jornalística da cultura portuguesa configura uma visível marca do modo de dizer/fazer dos diários lusitanos na tematização, agendamento e informação cultural. Paralelo ao pouco uso de fontes diversas, capazes de imprimir uma maior pluralidade ao olhar jornalístico veiculado pelos respetivos diários, os constantes elogios ou eventuais críticas encontradas na cobertura cultural parecem se prestar mais à divulgação e apelo ao consumo cultural do que propriamente ao esclarecimento público com base na informação e análise crítica de produtos do campo cultural. Um exemplo típico é o caso do cinema: que aposta nos frequentes elogios que repórteres, editores e críticos fazem de filmes em lançamento para “convidar” ou atrair o leitor ou consumidor às salas de projeção. A impressão de frases de efeito em peças publicitárias (...) de filmes parece, de certo modo, justificar ou remeter a um círculo habitual (ou, talvez, vicioso?) que tematiza produtos, serviços e atividades de arte e cultura mais pela lógica de efeito de sentido do que propriamente pelo que se entenderia por uma informação jornalística estruturada com base em características como pluralidade, universalidade, serviço, atualidade, proximidade, etc. A identificação dos principais assuntos abordados nas páginas culturais dos diários portugueses, com base nas categorias setorizadas do campo de interesse, sugere por fim a existência de uma autonomia relativa do jornalismo sobre o que é informado, por um lado, e pela presença visível e frequente das inúmeras e constantes produções lançadas no mercado pelas indústrias da cultura, que em função de estratégias de marketing e busca de uma maior adesão de consumo conseguem se fazer presentes nas páginas culturais dos diários, quase que em simultâneo aos lançamentos sistemáticos e orquestrados que se processam em nível internacional (...). Circuito esse que o setor ou os espaços jornalísticos, também em função de relações de mercado que orienta leitores para as compras e produtos da moda, não pode ignorar e tampouco simplesmente deixar de informar, discutir ou agendar. Se essas são relações intra e extra imprensa que perpassam e marcam o modo jornalístico de pautar e dizer no campo cultural lusitano, por outro lado, a análise da amostra considerada indica que existe pouca interação efetiva de leitores, consumidores ou usuários nas páginas culturais dos principais diários portugueses. O que não significa e tampouco autoriza a dizer que, também desse modo, os jornais deixariam de participar da instituição cotidiana do campo cultural, através de suas estratégias e dispositivos de informar, discutir e pautar determinados assuntos – ao invés de outros, por exemplo – que passam a ser mais presentes e virtualmente “motivadores” do consumo e adesão por parte do público ou mesmo pela “apropriação” de técnicas de edição publicitária sobre um determinado produto”.

Não nos esquecendo que o jornal é também um produto, Armando Teixeira Carneiro revela que “um comportamento interessante está ocorrendo hoje como efeito colateral da crise económica. A diminuição da atividade publicitária e, ao mesmo tempo, alguma retração no número de exemplares vendidos reflete-se de um modo considerável na rentabilidade das publicações. O objetivo de longo prazo de ações promocionais é sempre o alcançar novos leitores ou a fidelização do leitor existente, conducente a uma maior rentabilidade ou a um aumento de audiência. A curto prazo obtém-se um incremento de vendas, nem sempre sustentável per se, e o incremento de vendas de produtos diferenciados. Anos atrás, o procedimento tradicional era a oferta, sem custos ou com custos muito reduzidos, de produtos para o lar – peças soltas de serviços de louça, de talheres, instrumentos de cozinha, etc. – ou de jogos. A estratégia de marketing desta vez está sendo original e cheia de interessantes resultados de segunda ordem. Ocorrem, desde há cerca de dois anos, uma série de campanhas de promoção com a venda associada de livros ou, mais recentemente, de DVD’s. (...) – que não se podem vender separados dos jornais ou revistas, mas que representam um mercado colateral muito interessante. (...) É um resultado interessante para analisar mais profundamente no futuro, sobretudo para comprovar se foi uma mudança significativa e sustentável no longo prazo”.


Conclusões finais

Dora Santos Silva conclui, no seu estudo Tendências do Jornalismo Cultural em Portugal, que “partindo do pressuposto de que o jornalismo cultural impresso aposta num conceito de cultura limitado (oscilando entre a cultura de elite e as tendências da cultura urbana e as disciplinas criativas, mas nunca conseguindo albergar pacificamente todas), há espaço para conter uma definição mais alargada. Os próprios títulos das seções não são intuitivos e geram confusão. É inquestionável a importância que a cultura, as artes e o entretenimento têm, a longo prazo, para qualquer tipo de publicação generalista. Além de fidelizarem leitores, o desenvolvimento das indústrias criativas e culturais fornece cada vez mais conteúdo; os eventos culturais locais e as subculturas estão em desenvolvimento e captam a atenção do público. Além disso, os temas culturais permitem um tratamento mais aprofundado que pode ser utilizado pelos blogues e publicações (realidade que ultrapassa, por exemplo, a televisão). Cada vez mais, as páginas de cultura atraem nichos de mercado (leitores com determinado perfil), o que se torna muito eficaz para os anunciantes, que sabem exatamente para “quem” estão a comunicar. Com a cobertura dos grandes eventos culturais por qualquer site, torna-se diferenciador a cobertura de acontecimentos específicos e a abordagem diferenciadora daqueles que podem ser divulgados por todos os media. A cultura está também cada vez mais “criativa” e os jornalistas têm de procurar novas formas de divulgar informação: com teasers, infografias, caixas e listas originais. O próprio alinhamento da publicação tem de ser mais inovador e criativo (...)”.

“As publicações portuguesas focalizam-se muito na obra do artista. Ora, a cultura tem de começar a ser utilizada num sentido mais lato – aquilo que somos, em constante mudança. Por outro lado, mediatizar a cultura é muito mais do que cobrir entretenimento. Os jornalistas culturais têm também de se aperceber de que a cultura é uma indústria e portanto também deve ser abordada do ponto de vista económico e político (e não apenas criação artística ou entretenimento). Por sua vez, há também que cobrir os assuntos variados de um ponto de vista cultural. Se uma medida governamental pode ser abordada do ponto de vista político ou económico por que não fazê-lo também do ponto de vista cultural? Se a fadista Mariza vai atuar no Japão, será importante não só divulgar o que vai lá fazer, quando e onde, mas também, a partir daí, refletir sobre como esse evento é importante para o turismo português, e economicamente, como é a cultura portuguesa vista lá fora ou porque é que os japoneses se interessam pela Mariza. A adopção de um conceito sócio-antropológico da cultura traria mais conteúdos e riqueza às publicações, integrada nas indústrias culturais e criativas”. Em linhas gerais, que podem mesmo ser apresentadas como uma lista:

- Há uma grande diferença no tratamento da cultura nas diversas publicações;
- As indústrias cinematográfica e discográfica dominam as páginas culturais da imprensa diária e semanal;
- Há espaço para uma ampliação da definição de jornalismo cultural;
- A cultura está “subordinada” à agenda de eventos e às indústrias culturais;
- Está a crescer e a consolidar-se o jornalismo de “divulgação”;
- As revistas de tendências (NEO2,N*Style, Umbigo e DIF) são o novo fenómeno editorial na cultura portuguesa, seguidas das revistas provenientes do custom publishing (conceito criado no âmbito do marketing para se referir às publicações criadas por marcas. Nestes casos específicos, o objetivo não é somente informar, mas informar persuadindo);
- Os blogues transformaram-se em meios e fontes no jornalismo cultural.

Impressões trocadas por vários pensadores sobre o vasto e intrincado mundo do jornalismo cultural, levam à conclusão de que em Portugal – assim como noutros países –, há falhas para colmatar. Por diversas razões, de económicas, a conceptuais, a simplesmente humanas. Contudo, velhas e novas boas práticas mantém-se e reproduzem-se. O respeito e valor dado ao jornalismo cultural, assim como ao jornalismo ao geral, parece-me ser o mais importante ainda nesta tentativa de investigar outras formas de fazer jornalismo cultural. Principalmente num país, e num mundo, em que mesmo numa época de censura se deu voz às palavras do Mestre Almada: “Não é o teatro que me interessa, não é a pintura que me interessa, não é a escultura, não é nenhuma arte especial. O que me interessa, a mim, é o espetáculo. O espetáculo quer dizer ver, ver. O espetáculo pode estar onde quiserem. Mas que esteja e que seja visto. Olhe que isto de haver no mundo a possibilidade de haver espetáculo que todos saibam ver, é sério”.



Zara Soares


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Bibliografia

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