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PERSPETIVA ATUAL


Fig. 1 - Michelangelo Pistoletto, Love Difference, Mar Mediterrâneo (2003-2005), Fondazione Pistoletto, Biella. Photo: P. Terzi


Fig. 2 - Marco Martins, Still do vídeo Twenty One Twelve, The Day The World Didn’t End, Noriko Morita, Kamisua Nagan (Japão), 12min.

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AMAR AS DIFERENÇAS: MICHELANGELO PISTOLETTO E MARCO MARTINS



FILIPA COIMBRA

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“Uma grande parte das nossas interacções quotidianas com os nossos companheiros de humanidade são empáticas, porque essa é a nossa verdadeira natureza. É pela empatia que criamos a vida social e fazemos progredir a civilização”. [1]
Jeremy Rifkin

Um experimentado artista italiano, pioneiro da arte povera, teórico e activista; um cineasta português, internacionalmente premiado; duas nacionalidades; duas gerações; duas formações e territórios disciplinares distintos: não há dúvida que é pela diferença que somos convocados a participar neste diálogo. Não será de estranhar, neste sentido, que o percurso bifurque logo de início: à esquerda, Vinte e Um Doze, O dia em que o mundo não acabou, de Marco Martins; separadamente, à direita , Love Difference – Mar Mediterrâneo, de Michelangelo Pistoletto. Um convoca-nos para o intimismo da sala escura apenas iluminada pelo ecrã; no outro, a luz invade uma ampla nave ocupada por uma instalação que atrai imediatamente o nosso olhar e dita o início do nosso percurso. Deparamo-nos, então, com duas dezenas de assentos – cadeiras, bancos e tapetes – todos diferentes e dispostos em redor de uma mesa espelhada cuja forma representa a hidrografia do Mar Mediterrâneo, sendo estes correspondente ao número de países banhados pelo respectivo mar. Num primeiro olhar, esta diversidade é evidenciada pela própria estética do sentar.
Sentar e assentar são palavras que derivam do latim, de sedere (i. e. estar sentado) e significam, ter assento, participar, registar, firmar, fixar, aplicar, pousar ou, sossegar. Já a palavra latina Sedes, significa cadeira, assento e está na origem da palavra sede, lugar de encontro, de convergência, de diplomacia, e de decisão. Sentarmo-nos com outros pressupõe proximidade física e a partilha de um momento, esbate as hierarquias e promove a horizontalidade.

A instalação Love Difference, Mar Mediterrâneo [Fig.1] é, de facto, uma mesa de conferências que, pela sua itinerância, tem sido palco de vários debates . Resulta do projecto promovido pela Fondazione Pistoletto, Love Difference – Artistic Movement for an InterMediterranean Politic, criado em 2002 em Biella, Itália, terra natal de Michelangelo Pistoletto, que procura promover a transformação social responsável e mediar conflitos entre os países do Mediterrâneo, nesse lugar de confluência de vários continentes (Europa, Ásia e África a sul).

As obras de Pistoletto, têm este duplo carácter, reflexivo (literalmente) e participativo, ou seja, a arte enquanto metáfora do mundo e que incita à mudança de comportamentos e de mentalidades. No seu tratado sobre a empatia, o teórico Jeremy Rifkin, evidencia bem esta importância da metáfora enquanto metodologia na construção da empatia entre indivíduos:

É através de metáforas(...)que imaginamos e construímos o essencial da nossa realidade. Elas enriquecem a nossa experiência física e nos fornecem um elemento narrativo que os outros podem utilizar e compreender tão bem quanto nós, porque estas fundamentam a nossa consciência da vida sob orientações corporais, espaciais e temporais, comum a todos os humanos.[2]

Jeremy Rifkin, defende que nesta nova era, o homo aeconomicus, herdeiro das teorias darwinianas, freudianas e utilitaristas, cede cada vez mais o lugar ao homo empathicus. Esta revolução no modo de pensar e agir, passará necessariamente pelo estabelecimento de novas formas de sociabilidade e interacção entre os indivíduos, cada vez mais capazes de entender a diferença, de tolerar e tentar articular-se com os outros. A empatia possibilita que se esbatam as hierarquias e diferenças de estatuto social ou cultural, ocorrendo «numa instância espaço-temporal» de entendimento, igualdade e reconhecimento em que o «meu e o teu se confundem».

O exotismo das diferenças estéticas e culturais cede lugar ao universal, ao que é comum a todos os povos. A imagem da diversidade é reflectida pelo espelho – processo, jogo, engenho, que, indirectamente, multiplica e desdobra – cujo recorte e reentrâncias afirmam a sua especificidade atestando, simultaneamente, a heterogeneidade das suas margens. [3] Mas é ainda o espelho que transmite uma imagem de representação de conjunto, de pertença a um espaço comum, de participação, da superação da visão (panóptica), ao sairmos de nós próprios enquanto elemento central que observa os outros e vermo-nos representados numa imagem de conjunto, sem hierarquias de perspectiva.

Ao revelar as emoções dos outros, o espelho, desencadeia ainda o mimetismo inconsciente, ou seja, a resposta dada pelos nossos neurónios-espelho mediante estímulo directo. A descoberta dos neurónios-espelho ocorreu em 1996 pela equipa liderada por neurocientista, Giacomo Rizzolatti constatando que: “(...) os neurónios espelho permitem, aos humanos – e a outros animais – apreender o espírito dos outros como se os seus pensamentos e comportamentos fossem os nossos”. [4] Amar as diferenças é enriquecermos colectivamente, é aproximarmo-nos na nossa humanidade, no nosso sentir o outro e ser sentido pelo outro.

Esta ideia de pluralismo, dos vários olhares e possibilidades é reafirmada na própria concepção da exposição, onde um mesmo formato pode ser apresentado de diferentes formas e temporalidades, como o filme de Marco Martins, Vinte e Um Doze. Podemos vê-lo numa apreciação de conjunto, de totalidade (um ecrã), quando é apresentado na sala escura da entrada; ou na sua versão fragmentada e combinatória, onde cada uma das doze partes do filme é autonomizada ao ser apresentada em ercãs independentes, em série.
É para lá que seguimos agora: ao fundo e na transição para a sala seguinte, é-nos apresentado o primeiro ecrã do filme Vinte e Um Doze, O dia em que o mundo não acabou, de Marco Martins [Fig.2], que resulta numa proposta cinematográfica cuja origem procura evidenciar algumas das questões levantadas por Michelangelo Pistoletto no seu livro Il Trezo Paradiso, entendendo «terceiro paraíso» como evolução, como o lugar de fusão entre dois mundos: onde o mundo natural e o mundo artificial se conciliam, se equilibram. Nele, Pistoletto, propõe que o mundo artificial, responsável pelo progresso, abrande o seu ritmo, travando a entropia que inflinge sobre o planeta, e que se envolva responsavelmente com o mundo natural.

Após ter reunido com o artista e num exercício de grande liberdade, Marco Martins procurou captar o despertar deste um novo início. Optando pela simbiose entre o documentário e a narrativa ficcional, filma doze protagonistas em, e com, contextos bem distintos, no decorrer de uma mesma sucessão cronológica – o décimo segundo mês do ano de 2012, dia 21 – o dia que, segundo as profecias do Calendário Maia, seria o último, na Terra.
O fim de uma era e o início de outra, contrários aos pressupostos processuais do velho método historiográfico e à previsão do calendário Maia, não obedecem a uma demarcação cronológica precisa, essa transição vai, simplesmente, acontecendo, tal como a vida destes protagonistas se transforma gradualmente na continuidade das suas actividades, rotinas e rituais (individuais e colectivos), num processo semelhante à mudança das estações do ano – onde, paradoxalmente, a descontinuidade ocorre na continuidade, na orgânica evolutiva da rotina.

É, também aqui, a diversidade o grande catalisador que nos permite, através dessa noção de conjunto, apreender a coexistência de geografias, de temperaturas, de paisagens, de ritmos, de sons, de línguas, de símbolos, de actividades profissionais, e ainda, de práticas artísticas, de matérias-primas e de percursos criativos tão díspares. Marco Martins, amplia exponencialmente este efeito, através da simultaneidade e do potencial combinatório das doze partes do filme – com durações distintas e apresentadas continuamente, em loop – capazes de sugerir infindáveis associações e diálogos. Este movimento dinâmico é essencial para destacar a forma como a diversidade dilata os nossos sentidos e a nossa compreensão do mundo, acentuando a imagem do movimento da Terra e do universo e a forma como se desencadeia a sucessão dos ciclos. Esta simultaneidade, que inicialmente cria um ambiente onírico, disperso e cacofónico, à medida em que se vai mergulhando na intimidade de cada instância espaço-temporal, de cada possibilidade, torna-o, gradualmente, mais acolhedor e envolvente e, até certo ponto, familiar.

A possibilidade de vivermos simultâneamente realidades múltiplas, a noção desse movimento permanente, desse fluxo, potenciados pelos sons e pelos contrastes lumínicos – como no movimento da noite de Tóquio (parte IX) e na agitação das partículas de pó iluminadas pelo sol em Trás-os-Montes (parte X), apresentados lado a lado – confrontam-nos com o nosso verdadeiro lugar no mundo. Esse lugar não corresponde ao isolamento e angústia existencialistas mas, pelo contrário, a um certo sentido de semelhança e partilha com a humanidade. Esta desfragmentação da realidade e da representação resulta, mais do que uma autonomização, numa complementaridade sem hierarquias, para além das afinidades óbvias ao Il Trezo Paradiso de Pistoletto, e ao facto de iniciar em Biella e terminar em Lisboa, os locais de onde são originários os dois artistas. É nessa combinatória que se constrói uma representação comum de Humanidade. Esta realidade não linear, possibilita um efeito especulativo, de problematização, que expande o campo das interacções e consequentemente, das interpretações.

Numa época marcada pela inter-conectividade e pela visibilidade, pelo aumento dos contactos e de relações que mantemos com os nosso parceiros de sociedade, a desfragmentação do sujeito é apenas uma das suas consequências: aprendemos hoje a encenar e a representar o papel do outro, a desmultiplicar-nos por forma a estabelecer entendimento. [5]

Marco Martins, tal como Pistoletto, não se limita a convocar o nosso olhar e reflexão, não somos meros espectadores. Sem artifícios e manipulações de luz e som, mergulhamos profundamente naqueles lugares, sobretudo nos espaços interiores, onde a crueza, a veracidade das luzes, das sombras e os sons dos movimentos criam um ambiente de intimidade e de partilha, onde os protagonistas nos revelam a sua individualidade, a sua vulnerabilidade e a sua humanidade, na qual revemos a nossa, como num espelho, através deste efeito de retroacção da imagem.

As diferenças dissipam-se, pouco a pouco, quando percebemos que, todos, obedecemos a uma certa rotina ditada pela presença e ausência da luz solar, pelas nossas necessidade biológicas básicas e pela nossa adaptação e interacção com a sociedade. Este sentimento de semelhança, este vermo-nos nos outros, é ainda reforçado por outros denominadores comuns, como a casa, o lar, que corresponde à imagem-arquétipo do abrigo, dessa necessidade humana básica a segurança, a procura de protecção e de aconchego.[6] Desta dicotomia comunidade-indivíduo, uniformização-diferenciação, agrupam-se-lhes outras tantas: dia-noite; exterior-interior; actividade-descanso; agitação-sossego; barulho-silêncio. E, contrariamente ao que poderíamos pensar, mais do que antagónicas, elas são dialécticas.
A diferença repercute-se, transversalmente, ao longo de todo o percurso, terminando com uma das questões que marcou profundamente a diplomacia internacional da primeira década do novo milénio: uma boa parte dos conflitos mundiais resultaram, e resultam ainda, do fundamentalismo religioso, como tal, Multiconfessionário e Lugar Secular de Meditação, apresenta-se como um lugar neutro, de paz, partilhado pelas diferentes religiões, bem evidenciado pela opção do branco. Multiconfessional é sinonimo de multi-religioso, do reconhecimento da liberdade religiosa e da tolerância de credo, como tal, símbolos de várias religiões estão dispostos em torno de Metro Cubo do Infinito – elemento explorado por Pistoletto desde meados da década de 1960 – cujo equilíbrio e racionalismo das formas se confronta com a multiplicação e prolongamento da sua imagem até ao infinito, através dos espelhos das arestas que possibilitam, dessa forma, uma pluralidade de reflexos, perspectivas e combinações capazes de, a partir daí, promover a tolerância e a reflexão, mas também uma espécie de acto de contrição relativamente ao passado.

Uma vez mais temos o espelho, neste caso, um complexo de espelhos, que reflectem outros tantos espelhos. Há portanto, permanentemente, uma fecundidade de discursos. [7] A fixidez da verdade , dá lugar ao movimento das várias verdades; o definido ao indefinido; a identidade dá lugar à mistura de identidades, à transnacionalidade.

A partir dos territórios disciplinares e suportes artísticos distintos destes dois artistas, é-nos permitida a ampla exploração multicultural dos modos de vida, marcados pela diferença das suas especificidades, mas sobretudo – pela proximidade (que criamos ao sentarmo-nos ao redor de uma mesa) e pela revelação da intimidade/humanidade dos outros (ao acompanharmos alguém no seu dia-a-dia) – é-nos proposto o redimensionamos do nosso eu, não apenas porque somos confrontados com a multiplicidade e simultaneidade de tantos outros tu, mas ainda pela participação num processo activo de envolvimento, ao colocarmo-nos no papel do outro. Como refere Rifkin, “[as verdades] não são nem objectivas nem subjectivas, são interpretações situadas no intervalo onde o «meu» e o «teu» se encontram para criar um espaço de experiência comum. É lá que se «fabrica» a realidade”.[8]

Se a diferença é, de facto, o fio condutor de toda a exposição, a verdade é que percorrido todo o caminho, terminamos com uma sensação de pertença e de intimidade. Amar as diferenças, aqui e na vida, é termos consciência que somos apenas uma entre milhões de possibilidades e realidades e, participar activamente nesse encontro.



Filipa Coimbra é licenciada em História da Arte pela Facildade de Letras da Universidade de Coimbra e mestre em Crítica de Arte e Arquitectura pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.



Amar as Diferenças
de Michelangelo Pistoletto e Marco Martins
Curadoria: Centro de Criação de Teatro e Artes de Rua

BES Arte & Finança
30 de Janeiro a 15 de Abril



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Notas

[1] RIFKIN Jeremy, Une Nouvelle Conscience pour un Monde en Crise. Vers une civilisation de l’empathie, título original, The empathic civilization: the race to global consciousness in a world in crisis, trad. Françoise e Paul Chemla Les Liens qui Libèrent, Paris, 2011, p. 18.
[2] RIFKIN Jeremy, pp. 146-147.
[3] O espelho pode ser utilizado de maneiras antagónicas, potenciando o narcisismo e auto-contemplação, ou desencadeando múltiplas realidades, aliás, esta ultima dimensão foi amplamente desenvolvida por Tzvetan Todorov relativamente à Literatura Fantástica e na pintura não faltam também exemplos, desde Jan van Eyck, a Diego Velásquez, a Édouard Manet, a René Magritte, só para nomear alguns exemplos.
[4] RIFKIN Jeremy, p. 82.
[5] A propósito da visibilidade e dos fenómenos para-sociais, ver também HEINICH, Nathalie, De la visibilité. Excellence et singularité en régime médiatique, Éditions Gallimard, 2012.
[6] Ver BACHELARD Gaston, A Poética do Espaço (1957), (trad.) Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal, Livraria Eldorad, Rio de Janeiro, s.d.
[7] Ver TODOROV Tzvetan, Introdução à Literatura Fantástica, Perspectiva, São Paulo, 1992, p.65.
[8] RIFKIN Jeremy, p. 149.