Links

PERSPETIVA ATUAL


Fig.1 - Etienne-Jules Marey, Saut à la perche, cronofotografia, 1890, Collège de France, Paris


Fig.2 - Tiller Girls, um grupo de dança muito popular em Inglaterra, 1920’s.


Fig.3 – Charlie Chaplin, Modern Times, 1936.


Fig.4 – Marcel Duchamp, La mariée mise à nu par ses célibataires, même (Le Grand Verre), 1915–23, Philadelphia Museum of Art, Philadelphia


Fig.5 – Kraftwerk, The Man-Machine, 1978.


Fig.6 – Kawakami Kenji, Chindōgu, 1995


Fig.7 – Andrea Fraser, Untitled, 2003

Outros artigos:

2017-11-12


HELENA OSÓRIO


2017-10-09


PAULA PINTO


2017-09-05


PAULA PINTO


2017-07-26


NATÁLIA VILARINHO


2017-07-17


ANA RITO


2017-07-11


PEDRO POUSADA


2017-06-30


PEDRO POUSADA


2017-05-31


CONSTANÇA BABO


2017-04-26


MARC LENOT


2017-03-28


ALEXANDRA BALONA


2017-02-10


CONSTANÇA BABO


2017-01-06


CONSTANÇA BABO


2016-12-13


CONSTANÇA BABO


2016-11-08


ADRIANO MIXINGE


2016-10-20


ALBERTO MORENO


2016-10-07


ALBERTO MORENO


2016-08-29


NATÁLIA VILARINHO


2016-06-28


VICTOR PINTO DA FONSECA


2016-05-25


DIOGO DA CRUZ


2016-04-16


NAMALIMBA COELHO


2016-03-17


FILIPE AFONSO


2016-02-15


ANA BARROSO


2016-01-08


TAL R EM CONVERSA COM FABRICE HERGOTT


2015-11-28


MARTA RODRIGUES


2015-10-17


ANA BARROSO


2015-09-17


ALBERTO MORENO


2015-07-21


JOANA BRAGA, JOANA PESTANA E INÊS VEIGA


2015-06-20


PATRÍCIA PRIOR


2015-05-19


JOÃO CARLOS DE ALMEIDA E SILVA


2015-04-13


Natália Vilarinho


2015-03-17


Liz Vahia


2015-02-09


Lara Torres


2015-01-07


JOSÉ RAPOSO


2014-12-09


Sara Castelo Branco


2014-11-11


Natália Vilarinho


2014-10-07


Clara Gomes


2014-08-21


Paula Pinto


2014-07-15


Juliana de Moraes Monteiro


2014-06-13


Catarina Cabral


2014-05-14


Alexandra Balona


2014-04-17


Ana Barroso


2014-03-18


Filipa Coimbra


2014-01-30


JOSÉ MANUEL BÁRTOLO


2013-12-09


SOFIA NUNES


2013-10-18


ISADORA H. PITELLA


2013-09-24


SANDRA VIEIRA JÜRGENS


2013-08-12


ISADORA H. PITELLA


2013-06-27


SOFIA NUNES


2013-06-04


MARIA JOÃO GUERREIRO


2013-05-13


ROSANA SANCIN


2013-04-02


MILENA FÉRNANDEZ


2013-03-12


FERNANDO BRUNO


2013-02-09


ARTECAPITAL


2013-01-02


ZARA SOARES


2012-12-10


ISABEL NOGUEIRA


2012-11-05


ANA SENA


2012-10-08


ZARA SOARES


2012-09-21


ZARA SOARES


2012-09-10


JOÃO LAIA


2012-08-31


ARTECAPITAL


2012-08-24


ARTECAPITAL


2012-08-06


JOÃO LAIA


2012-07-16


ROSANA SANCIN


2012-06-25


VIRGINIA TORRENTE


2012-06-14


A ART BASEL


2012-06-05


dOCUMENTA (13)


2012-04-26


PATRÍCIA ROSAS


2012-03-18


SABRINA MOURA


2012-02-02


ROSANA SANCIN


2012-01-02


PATRÍCIA TRINDADE


2011-11-02


PATRÍCIA ROSAS


2011-10-18


MARIA BEATRIZ MARQUILHAS


2011-09-23


MARIA BEATRIZ MARQUILHAS


2011-07-28


PATRÍCIA ROSAS


2011-06-21


SÍLVIA GUERRA


2011-05-02


CARLOS ALCOBIA


2011-04-13


SÓNIA BORGES


2011-03-21


ARTECAPITAL


2011-03-16


ARTECAPITAL


2011-02-18


MANUEL BORJA-VILLEL


2011-02-01


ARTECAPITAL


2011-01-12


ATLAS - COMO LEVAR O MUNDO ÀS COSTAS?


2010-12-21


BRUNO LEITÃO


2010-11-29


SÍLVIA GUERRA


2010-10-26


SÍLVIA GUERRA


2010-09-30


ANDRÉ NOGUEIRA


2010-09-22


EL CULTURAL


2010-07-28


ROSANA SANCIN


2010-06-20


ART 41 BASEL


2010-05-11


ROSANA SANCIN


2010-04-15


FABIO CYPRIANO - Folha de S.Paulo


2010-03-19


ALEXANDRA BELEZA MOREIRA


2010-03-01


ANTÓNIO PINTO RIBEIRO


2010-02-17


ANTÓNIO PINTO RIBEIRO


2010-01-26


SUSANA MOUZINHO


2009-12-16


ROSANA SANCIN


2009-11-10


PEDRO NEVES MARQUES


2009-10-20


SÍLVIA GUERRA


2009-10-05


PEDRO NEVES MARQUES


2009-09-21


MARTA MESTRE


2009-09-13


LUÍSA SANTOS


2009-08-22


TERESA CASTRO


2009-07-24


PEDRO DOS REIS


2009-06-15


SÍLVIA GUERRA


2009-06-11


SANDRA LOURENÇO


2009-06-10


SÍLVIA GUERRA


2009-05-28


LUÍSA SANTOS


2009-05-04


SÍLVIA GUERRA


2009-04-13


JOSÉ MANUEL BÁRTOLO


2009-03-23


PEDRO DOS REIS


2009-03-03


EMANUEL CAMEIRA


2009-02-13


SÍLVIA GUERRA


2009-01-26


ANA CARDOSO


2009-01-13


ISABEL NOGUEIRA


2008-12-16


MARTA LANÇA


2008-11-25


SÍLVIA GUERRA


2008-11-08


PEDRO DOS REIS


2008-11-01


ANA CARDOSO


2008-10-27


SÍLVIA GUERRA


2008-10-18


SÍLVIA GUERRA


2008-09-30


ARTECAPITAL


2008-09-15


ARTECAPITAL


2008-08-31


ARTECAPITAL


2008-08-11


INÊS MOREIRA


2008-07-25


ANA CARDOSO


2008-07-07


SANDRA LOURENÇO


2008-06-25


IVO MESQUITA


2008-06-09


SÍLVIA GUERRA


2008-06-05


SÍLVIA GUERRA


2008-05-14


FILIPA RAMOS


2008-05-04


PEDRO DOS REIS


2008-04-09


ANA CARDOSO


2008-04-03


ANA CARDOSO


2008-03-12


NUNO LOURENÇO


2008-02-25


ANA CARDOSO


2008-02-12


MIGUEL CAISSOTTI


2008-02-04


DANIELA LABRA


2008-01-07


SÍLVIA GUERRA


2007-12-17


ANA CARDOSO


2007-12-02


NUNO LOURENÇO


2007-11-18


ANA CARDOSO


2007-11-17


SÍLVIA GUERRA


2007-11-14


LÍGIA AFONSO


2007-11-08


SÍLVIA GUERRA


2007-11-02


AIDA CASTRO


2007-10-25


SÍLVIA GUERRA


2007-10-20


SÍLVIA GUERRA


2007-10-01


TERESA CASTRO


2007-09-20


LÍGIA AFONSO


2007-08-30


JOANA BÉRTHOLO


2007-08-21


LÍGIA AFONSO


2007-08-06


CRISTINA CAMPOS


2007-07-15


JOANA LUCAS


2007-07-02


ANTÓNIO PRETO


2007-06-21


ANA CARDOSO


2007-06-12


TERESA CASTRO


2007-06-06


ALICE GEIRINHAS / ISABEL RIBEIRO


2007-05-22


ANA CARDOSO


2007-05-12


AIDA CASTRO


2007-04-24


SÍLVIA GUERRA


2007-04-13


ANA CARDOSO


2007-03-26


INÊS MOREIRA


2007-03-07


ANA CARDOSO


2007-03-01


FILIPA RAMOS


2007-02-21


SANDRA VIEIRA JURGENS


2007-01-28


TERESA CASTRO


2007-01-16


SÍLVIA GUERRA


2006-12-15


CRISTINA CAMPOS


2006-12-07


ANA CARDOSO


2006-12-04


SÍLVIA GUERRA


2006-11-28


SÍLVIA GUERRA


2006-11-13


ARTECAPITAL


2006-11-07


ANA CARDOSO


2006-10-30


SÍLVIA GUERRA


2006-10-29


SÍLVIA GUERRA


2006-10-27


SÍLVIA GUERRA


2006-10-11


ANA CARDOSO


2006-09-25


TERESA CASTRO


2006-09-03


ANTÓNIO PRETO


2006-08-17


JOSÉ BÁRTOLO


2006-07-24


ANTÓNIO PRETO


2006-07-06


MIGUEL CAISSOTTI


2006-06-14


ALICE GEIRINHAS


2006-06-07


JOSÉ ROSEIRA


2006-05-24


INÊS MOREIRA


2006-05-10


AIDA E. DE CASTRO


2006-04-20


JORGE DIAS


2006-04-05


SANDRA VIEIRA JURGENS


share |

ARTE A INCORPORAR O SISTEMA: O CORPO COMO MÁQUINA, GADGET E CAPITAL



DIOGO DA CRUZ

2016-05-25




 


Parte da população humana corre o risco de perder competências sensitivas perante o mundo material que a rodeia.[1] A falta de textura dos móveis de construção em massa, das paredes de muitos apartamentos e dos touchscreens que tanto acaricia está a privá-la de estímulos sensoriais essenciais para criar um vocabulário corpóreo rico. As estradas são suaves, as viagens fazem-se com pouca turbulência e as escadas rolam automaticamente. Neste contexto, a matéria e o corpo são ainda necessários, mas preferencialmente lisos e regulares para evitar qualquer inconveniência. Para a vantagem de muitos, estamos a ser privados de experiências físicas, e consequentemente a dar cada vez mais valor à nossa presença não material (quer online quer em capital). Para inconveniência de outra grande parte da população, este luxo ilusionista é alimentado pela exploração desmesurada de trabalho físico de muitos, que nunca terão o prazer de se iludirem num mundo virtual, estando presos ao ofício material. Perante esta situação parece-me pertinente trazer alguns exemplos de como artistas criaram propostas para um diálogo entre o corpo e os novos sistemas que o confrontam. Sinto que elas apontam a problemática da nossa relação com a máquina, muito evidente com a revolução industrial, mas infelizmente acalmada nos dias de hoje com as possibilidades virtuais da revolução tecnológica.


De facto, o nosso corpo é uma máquina, e nele está a origem de todas as máquinas criadas por humanos. Essa relação é explícita na obra de Etienne-Jules Marey (1830-1904), um cientista também considerado artista, que dedicou muitos anos ao estudo do nosso sistema locomotor para o ajudar na construção de máquinas. O inventor da cronofotografia, que proporcionou a descoberta do cinema, dedicou a sua vida a fotografar o corpo humano e o animal em acção, criando fotografias tão valiosas do ponto de vista científico como artístico. [2]


O seu trabalho criou uma revolução na percepção de tempo e movimento dos seus contemporâneos ao captar instantes de certas acções que seriam impossíveis de observar a olho nu. Com a representação fragmentada do movimento do corpo humano, Marey trouxe a possibilidade da representação da passagem do tempo numa imagem estática, mostrando também a complexidade da locomoção animal e como esses conhecimentos podem ser aplicados à engenharia mecânica. Tal como já acontecera no Renascimento, e com mais convicção no Iluminismo, o corpo animal, em especial o humano, era o exemplo da máquina perfeita e insubstituível.


Contudo, com a revolução industrial, em particular com a máquina a alterar, sistematizar e cronometrar as acções do homem, o ideal mecânico, que fora criado pelo próprio humano, vem impor-se à forma como o corpo é usado. Quando as Tiller Girls, um grupo de dançarinas muito popular no início do século XX, tentou assumir movimentos mecânicos nas suas danças e os futuristas trouxeram os engenhos e sons fabris para a sua arte, o humano acabou por ser condicionado pela sua própria criação. Esta problemática foi até retratada como comédia com Modern Times do Charlie Chaplin. O corpo do trabalhador fabril tem de se acomodar aos desejos da máquina, para além dos do seu chefe é claro, mostrando o ridículo da frustração do trabalhador ao tentar assumir um ritmo industrial.


A mecanização do corpo provocou uma mecanização da vida e das relações entre pessoas. O corpo da mulher foi nesta altura submetido a uma enorme objectivação e desconstrução. Numas das obras emblemáticas do Marcel Duchamp, La mariée mise à nu par ses célibataires, même (A noiva despida por seus celibatários, mesmo) o corpo feminino, e o sistema reprodutivo, é transformado em complexos e redutores engenhos sexuais, que produzem tanto prazer como vida de uma forma semelhante a uma fábrica. Esta obra, também referenciada como ‘O Grande Vidro’ (Le Grand Verre), projecta uma complexa e violenta máquina de amor, onde o corpo parece não existir.


Registos como o do Duchamp são ricos e válidos na medida que mostram a problemática da aplicação destes ideais industriais na nossa vida, quer no campo cultural, quer no sexual. Já nos anos 70 e 80 este corpo robótico foi acolhido e celebrado com uma leveza e espectacularidade diferente. Desde os Star Wars ao RoboCop, a ideia do corpo-máquina não está apenas presente, ela acaba por ser popular e atractiva para muitos. Os Kraftwerk tornaram o ser robot em algo cool e vanguardista. Com esta banda, e muitas outras claro, tornou-se evidente como a música electrónica tem efeitos no nosso corpo biológico, e de como facilmente nos moldamos a sonoridades inexistentes no mundo dito natural.


A partir dos anos 90 a tecnologia vai dando passos para mais próximo do nosso corpo. Os objectos criados para nos ajudar nas tarefas diárias, principalmente os ditos multi-usos, vão-se tornado essenciais e variados. Quase todas as nossas actividades corpóreas começaram a ter a ajuda de utensílios criados para tornar a nossa vida mais fácil. Neste tema, o trabalho desenvolvido por Kawakami Kenji surge como um fantástico e irónico retrato desta dependência. Kenji criou objectos a que chama Chindōgu, que são invenções para resposta a problemas diários, mas que, ou criam mais problemas ao utilizador para cumprir a sua função, ou tornam-se embaraçosos para quem os usa. [3] Estes objectos são tão absurdos como geniais, e constituem uma crítica honesta da dificuldade do nosso corpo em se adaptar às situações a que está exposto, criticando a criação de gadgets considerados ‘práticos’.


A impossibilidade da presença do corpo para representar alguns dos sistemas da contemporaneidade parece ser um sintoma da ausência de referentes corpóreos nestes mesmos. Ao nível da Arte Contemporânea, e o sistema que é o seu mercado, a mercadoria artística não deve conter o corpo, para evitar inconveniências. Andrea Fraser, uma artista conhecida pelo seu trabalho em critica institucional, explorou essa mesma inconveniência com a sua peça Untitled (2003). Este vídeo de 60 minutos, é a gravação do encontro sexual da artista com um coleccionador privado num quarto de hotel. Este pagara 20.000 dólares para fazer parte do trabalho da artista, que viera a ser produzido em cinco cópias, uma para o coleccionador, outra para a artista e três exemplares para exposição. Esta obra, extremamente polémica como se podia prever, originou uma discussão acesa na definição desta mesma como feminista, anti-feminista ou mesmo pós-feminista. Contudo, pretendo aqui mostrar de como Untitled (2003) trata de certa forma a posição (ou a impossibilidade) do corpo no mercado da arte. Fraser propôs elevar o seu próprio corpo, ao mais alto nível de intimidade, a produto da sua prática artística. Pela situação extrema criada nesta performance é obvio o constrangimento em imaginar algo literalmente corpóreo tornar-se num produto para ser comercializado e coleccionado. O corpo da artista, mesmo que presente, é anulado para dar lugar a um trabalho artístico, de um determinado valor estético e comercial.


Com este conjunto de exemplos, não tenciono obter nenhuma generalização ou conclusão, mas sim apontar casos em que a relação entre o corpo e o sistema em que este se insere foi problematizada de uma forma produtiva que proporciona uma discussão. Quero também mostrar como a prática artística pode ser uma resposta para criar consciência não só das possibilidades mas também das impossibilidades do mundo em que vivemos, neste caso da impossibilidade de um corpo representativo do sistema actual. Primeiro mecanizado, depois idealizado e finalmente apagado e comercializado, o corpo parece perder-se por entre uma colecção de dados e cosmética, sistema de saúde e moda, higiene e etiqueta, pelo menos para a parte da população que se pode dar ao luxo de tal renúncia.




Diogo da Cruz

Artista residente em Lisboa, que trabalha num campo de especulação interdisciplinar, através de uma pesquisa rigorosa e impertinente de conceitos familiares ao público geral, pondo em causa algumas certezas da nossa sociedade. www.diogocruz.net




:::


Notas


[1] P. Virilio, The Information Bomb. London: Verso, 2005.

[2] F. Dagognet, Etienne-Jules Marey: a passion for the trace. New York: Zone Books ; 1992.

[3] Mais informações disponíveis em www.chindogu.com