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PERSPETIVA ATUAL


Vista da exposição: Marco Godinho. Fotografia: Cortesia MNAC.


Vista da exposição: Marco Balesteros & Sara Vaz, com Diogo Alvim. Fotografia: Cortesia MNAC.


Vista da exposição: Barulio Amado, Francisco Vidal e Sara&Andre. Fotografia: Cortesia MNAC


Vista da exposição: José Maçãs de Carvalho. Fotografia: Cortesia MNAC


Vista da exposição: Dinis Santos. Fotografia: Cortesia MNAC


Vista da exposição: João Fonte Santa. Fotografia: Cortesia MNAC


Vista da exposição: Pires Vieira. Fotografia: Cortesia MNAC


Vista da exposição: R2. Fotografia: Cortesia MNAC


Vista da instalação Escrever Como Caminhar, Isabel Baraona. Fotografia: I. M. Ferreira-Norman.


Vista da instalação Escrever Como Caminhar, Isabel Baraona. Fotografia: Cortesia MNAC


Vista da instalação Escrever Como Caminhar, Isabel Baraona. Fotografia: I. M. Ferreira-Norman.

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O MNAC abriu as portas ao livro de artista. Intitulada "A incontornável intangibilidade do livro ou o Anti-Livro", a exposição abrange concisamente uma mostra muito completa e competente das diversas modalidades que esta forma de arte toma, com uma tradição que se afirmou nos anos 60. A curadoria de Luís Alegre e Adelaide Ginga ilustrou cuidadosamente esta prática artística, agora mais emancipada em Portugal com feiras de livro de autor e algumas exposições a tornarem-se mais frequentes. O que o ‘Anti-Livro’ conquistou foi um feito único no panorama nacional, ao expor livros de artistas exclusivamente nacionais num museu, numa exposição relevante e estimulante.

Com meio mestrado em Livros de Artista, várias publicações, exposições, residências, feiras e colaborações, na minha experiência, o livro de artista é, em muitas ocasiões, uma meta disciplina, ou seja, é uma disciplina que se retrata a si própria; retrata as suas aplicações histórico-culturais, as suas funções concetuais e a arte individual de cada artista à volta do tema e materialidade do livro. Fazem-se muitos livros acerca do que é ser livro e muita arte acerca da arte de se ser livro. É também por definição associado à democratização da tecnologia disponível para impressão em massa, como por exemplo a fotocopiadora, como celebra o Sem Título, 1968 – conhecido como Xerox Book – por Seth Siegelaub. O "Anti-Livro" é uma exposição paradoxal, mas aplaudível, pelo facto de o museu abrir portas a um médium que começou exatamente como forma de insurgência ao elitismo e custo da arte dos museus e galerias. Um título trocadilho adequadíssimo, portanto.

Desde o livre d’artiste, ecoado por Pedro Cabrita Reis, o livro-objeto, representado por António Faria, o livro alterado por Marco Godinho, à performabilidade do conceito livro no trabalho de Marco Balesteros e de Sara Vaz, às instalações escultóricas de cariz mais político de Miguel Palma, às técnicas endémicas desta forma de arte como a serigrafia de Braulio Amado, ou o livro de fotografia de José Maçãs de Carvalho, todas estas modalidades do livro de artista revelam uma forma de arte completa e aberta, disposta a mais.

Em particular, a instalação Escrever Como Caminhar, 2019 de Isabel Baraona, espelha o aspeto de meta-disciplina que mencionei, mas na especificidade de se ser livro de um artista: o livro de artista é mesmo isso, um livro feito por um artista e a excelência do seu trabalho reside numa reflexão cultural do seu próprio interior, dos seus pensamentos literários. À imagem da experiência de ler um livro, intimista, a generosidade desta partilha sente-se quando se entra na sala e se é envolto, abraçado mornamente, por palavras desenhadas.

Escrever Como Caminhar é uma instalação que me transporta para um espaço não-físico, um daydreaming deambulante que nos deixa mensagens muito subtis através dos suportes de montagem. Palavras desenhadas, uma parede inteira delas, num papel quente, que ao contrastado com a luz branca da galeria aquece o olhar. Seis porta-jornais esculturados com jornais, um em posição de bandeira, um plinto com a publicação principal e três desenhos. O múltiplo também se multiplica em termos de formato, e Isabel confirma nitidamente: "interessa-me explorar formatos" diz, quando me apresenta o mapa que fez na sua residência em Columbia College em 2013, com o Journal of Artists Books, que foi a primeira instância em que usou as palavras desenhadas.

De volta ao MNAC, num contraste cândido com a luz da sala, os traços dos desenhos marcam as pegadas dos movimentos do caminhar. O flainar, conceito aprofundado pelos Situacionistas, é evidente no espírito deste trabalho, mas numa geografia interna, em oposto à fisicalidade da cidade, ou do vento. Assim como é evidente o prazer de desenhar e o amor à poesia. Se o fio condutor da prática de Isabel é o desenho, as palavras estão a tomar conta do seu vocabulário. E as duas coisas (as palavras e os desenhos) combinadas são também "cartas de amor ao próprio trabalho", Isabel explica, e que são uma forma de "exorcismo, [pois eu] desenho em torno [da palavra], é construir uma mancha para que aquilo emerja à superfície". Este exorcismo é claro no uso de um dos artefactos que escolheu, o jornal. Mais acentuado ainda por estar num porta-jornais, aquele que torna público as ideias escritas e gritam as gordas, libertando a palavra. The medium is the message, já dizia Marshall McLuhan (1911-1980) [1].

E é na superfície do material que um artista trabalha, que se encontram laivos de íntimas profundezas automáticas. A literatura de José Luis Borges, o desenho de William Kentridge, o atrevimento amoroso de Sophie Calle são tópicos dos quais falámos, pois são referências que revelam um dos lados culturais exteriores ao qual a artista reage. Essas culturas podem ser por sua vez de introspeção, como é o caso em muitos dos trabalhos destes artistas. Aqui a questão é que esta introspeção vem à tona. O que Isabel faz com a sua prática é criar espaço para esse discurso interior, metafórica e visualmente. Eu acho que cá dentro, somos mais livres do que em lado nenhum, e o trabalho da Isabel relembra-me esse espaço, aberto, onde as palavras têm espaço para se transformarem em ecos infinitos.

Há musicalidade nas palavras, vê-se no traço dinâmico e na escolha dos suportes que clamam manchetes. Os instrumentos da orquestra são feitos de hastes e papel! Venha a procissão tomar forma e libertar a palavra introspetiva, refletida! Um mantra está a tomar posse! Num mundo cercado de "vómito" digital, a consciência dos materiais e do tempo passado em estúdio são rituais ermitas que incitam essa musicalidade no trabalho de Baraona. Oliver Sacks (1933-2015) cunhou o termo earworm para descrever aquela parte de uma música que nos fica a chatear o dia inteiro, a Isabel confessa que tem wordworm agora cunhado por mim, pois quando ouve ou lê uma palavra, ou combinações de palavras, estas ficam-lhe na cabeça como obsessões felizes! E quero concordar com ela quando me descreve que um livro é "simple and beloved", um dos seus wordworms.

O trabalho de Baraona tem um interesse claro em criar um diálogo entre o múltiplo e o único, e ela transporta a sua metodologia dos múltiplos únicos – em que acrescenta detalhes a cópias, ou imprime livros com paginações livres e/ou diferentes – para o espaço da galeria e acrescenta 3 desenhos originais a tinta-da-china, muito pertinho uns dos outros como se assim estivessem mais quentinhos, à semelhança do detalhe manual acrescentado à cópia industrial.

O encontro entre o manual e o industrial é outro aspeto essencial da sua prática artística, e o livro de artista constitui essa união no seu âmago, o que gera uma multiplicidade exponencial de oportunidades abertas. Primeiramente, o livro não era produzido ou acedido facilmente, sendo inicialmente manuscritos. Poucos exemplares eram produzidos, e ligados às diferentes religiões. Carimbos na China e a invenção da imprensa em 1439 por Gutenberg iniciaram o longo processo de democratização (especialmente por causa da implementação da impressão tipográfica) do acesso ao livro. Este método mecânico mais tarde industrializado revolucionou a nossa sociedade, pois a circulação de informação e literacia aumentou drasticamente. Mais ainda, desde a segunda metade do século XX, o pós-guerra efetivou uma cultura literária muito mais difusa no geral; e com movimentos especializados como os Letristas, os Situacionistas e a Fluxus a concretizarem muita poesia visual, estas alianças entre o manual e industrial, palavra e imagem, livro e artista fortificaram-se para projetar o livro de artista na forma como o conhecemos hoje, num objeto feito por medida analógico, quase atemporal. Por enquanto. Curioso seria ver uma exposição de livros de artista daqui a 500 anos. Atualmente, posso-me dar ao luxo de dizer atemporal, pois este é um género de tenra idade que me prove de uma experiência quase religiosa.

No caso da instalação Escrever Como Caminhar, o silêncio e o barulho também se manifestam simultaneamente e esta sensação discordante é transformadora, pois expande a qualidade visual para uma auditiva. É também consequente à transformação, uma sensação de novidade, do cheiro à infância, e isso está latente na não-inocência do trabalho de Baraona. Enquanto público estamos conscientes da inocência que é daydreaming, de que é o conto infantil por exemplo, mas o trabalho artístico de Isabel é bem versado em diálogos que empurram e puxam, mas encaminham os espectadores ao longo de "uma floresta negra" como esta lhe chama. Para mim, no seu trabalho, o escolher das palavras revela a força que estas provocam, documentam e expressam no contexto de um processo transformativo e artístico. Uma generosidade de expressão da artista, por partilhar tão íntimos pensamentos e de introspeção, por se investir na devoção ao trabalho artístico.

O livro (de artista ou não) é um meio de transformação, e os curadores do "Anti-Livro" e o MNAC aumentaram a circulação e a literacia do seu público acerca do livro de artista provocando e proporcionando a oportunidade de transformação. Para mim é um género artístico tão completo, e Escrever Como Caminhar transformou o meu espaço interior. A superfície das palavras que a Isabel moldou desenhando proporcionaram-me uma entrada para o meu próprio deambular. Uma entrada aberta como só o Livro de Artista consegue significar.

[Todas as citações são discurso direto de Isabel Baraona, 1/5/2019, entrevistada em Caldas da Rainha]

 


Inês M. Ferreira-Norman
Trabalha em gestão artística desde 2007, então, no Reino Unido. Mudou-se para Portugal em 2019 e actualmente continua a ser editora do JAWS (Journal of Arts Writing by Students publicado pela Intellect) e é diretora da Matéria Cíclica. A linguagem sempre fez parte da sua prática artística, a qual encontrou um renovado fervor crítico desde que terminou o mestrado em Livros de Artista e Belas Artes em 2017. Trabalhar com artistas só lhe dá mais vontade de trabalhar com artistas e de falar sobre artistas. E pensar arte. 

 

 

 

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Notas

[1] Tradução livre ‘o médium é a mensagem’ em ‘Compreender os meios de comunicação, extensões do homem’, Marshal McLuhan, publicada por MacGraw-Hill, 1964.
 

 

 

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Curadoria: Luis Alegre e Adelaide Ginga

Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado