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VIRGÍLIO FERREIRA

LIZ VAHIA


 


Vírgílio Ferreira é fotógrafo. Nascido no Porto, é nessa cidade que ainda mantém o seu estúdio, apesar de passar grandes períodos em residência fora do país. Está desde o ano passado ligado à Ci.clo Plataforma de Fotografia, que promove acções de formação e experimentação à volta do meio fotográfico. Em mãos neste momento com mais uma edição em livro, Virgílio Ferreira conversou com a Artecapital sobre alguns dos projectos que o ocupam neste momento.


Por Liz Vahia

 

 

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LV: Há já vários anos que manténs um atelier no centro do Porto. Como é que estás a vivenciar as mudanças que a cidade sofreu nos últimos tempos, nomeadamente com o turismo e o interesse internacional crescente?

VF: É ambivalente o sentimento, numa primeira análise até parecem positivas as mudanças, especialmente a recuperação do património no centro do Porto, que grande parte estava devoluto e em degradação, bem como o desenvolvimento económico que estas dinâmicas tem trazido à cidade. Por outro é lamentável que estas restruturações estejam maioritariamente ao serviço do turismo e da especulação imobiliária. Esta realidade parece ser irreversível e está a criar problemas graves de gentrificação, este fenómeno que é bem conhecido em Lisboa e nas grandes capitais europeias e mais recentemente no Porto, está a dificultar cada vez mais a permanência da população e da cultura local no centro urbano. É muito preocupante e triste nos últimos três anos assistir semanalmente a casas, lojas e cafés de bairro a serem convidados a fechar portas para serem substituídos por lojas mais ou menos “trendy”, restaurantes e mercearias gourmet e a recuperação das casas ter como objectivo o alojamento local.

 


LV: Ao longo da tua carreira foram vários os períodos que passaste fora do teu espaço habitual de trabalho, tendo realizado várias residências e formações em diversos locais um pouco pelo mundo fora. Consideras esses momentos importantes para a vitalidade da tua criação artística? Basicamente, como é que surge normalmente a ideia para um projecto?

VF: De 2006 a 2014 praticamente desvinculei-me do estúdio porque senti a necessidade de um alargamento de perspectivas a nível pessoal e artístico, sem existir um plano fixo, as viagens e oportunidades de residências e formação foram surgindo. Hoje reconheço e agradeço as oportunidades que essas dinâmicas trouxeram ao meu trabalho em termos experimentais e de refinamento do processo artístico. As ideias para os projectos em geral surgem de uma forma muito orgânica, um diálogo entre o “stock” da minha experiência e uma vontade interna em resposta ao contexto espaço / tempo que estou inserido, a partir dai o trabalho é desenvolvido.

 


LV: Em 2015 foste um dos fundadores da Ci.clo Plataforma de Fotografia, que se dedica à pesquisa, formação e experimentação na área da fotografia. Podes falar um pouco sobre a génese deste projecto e qual o balanço que fazes neste momento das suas actividades?

VF: O objectivo foi criar um espaço que tivesse como génese a experimentação em termos de propostas do processo de formação e de criação artística. Oferecendo um programa regular de seminários, residências artísticas, exposição, intercâmbio, difusão e debate na área da fotografia e a sua interação com outras disciplinas artísticas ambientais e sociais. O balanço tem sido extremamente positivo em termos de aprendizagem e de criação de novas oportunidades. Nestes dois anos de existência foram programadas várias atividades, nomeadamente o Laboratório de Criação no qual os resultados dos trabalhos realizados pelos participantes foram apresentados em exposições em Portugal, Polónia e no próximo mês na School of Visual Arts em Nova Iorque. Em paralelo foi programada uma leitura de Portfólio em colaboração com a PhotoEspaña, um ciclo de debates e oficinas no âmbito da exposição “Eyes Wide Open – 100 anos da fotografia Leica” organizado em conjunto com a Câmara Municipal do Porto e mais recentemente o programa Escape uma co-produção com a Trienal de Fotografia de Hamburgo.

 


LV: Neste momento acabaram de fechar as candidaturas a esse programa, [ESCAPE] Environmental Changes Ecological Emergency, que pretende chamar a atenção para a sustentabilidade urbana. Estas preocupações com o ambiente social e económico estão igualmente muito presentes no teu trabalho. Como é que pretendem, neste programa, fazer esta ligação entre as artes e o ambiente?

VF: Este programa tem como concepção fomentar a participação entre a criação artística e cívica, explorando pontos de vistas interdisciplinares, tendo como eixo temático os factores ambientais e económicos que estão a moldar o mundo, desencadeando desequilíbrios ecológicos e sociais. Torna-se indispensável analisar questões sobre a relação da humanidade com o planeta, tais como, a postura ética, espiritual e política, desenvolver intervenções artísticas de sensibilização dos vários públicos através da exploração das causas e efeitos dessas transformações, com intenção de provocar e inspirar o público a pensar e ver a cidade/mundo de forma mais sustentável. Reflectindo também sobre tarefas e responsabilidades coletivas e individuais de quem cria imagens, mas também sobre quem as observa.

 


LV: O teu projecto “Ser e Devir” trata também um tema premente neste momento, sobretudo em Portugal, o da emigração. As imagens que criaste mostram-nos muitas vezes figuras desfocadas ou parcialmente tapadas à frente de ambientes muito crus, reforçados pelo preto e branco. Jogas, parece-me, com o carácter visível/invisível que essas pessoas passaram a ter, na medida em que desapareceram do nosso espaço territorial, mas a sua ausência gerou efeitos complexos na sociedade portuguesa. Era isso também que pretendias, uma reflexão potenciada pelo meio fotográfico?

VF: Sim, é uma das intenções que procurei representar metaforicamente, essa dicotomia de uma identidade híbrida de ser emigrante, esta ideia do Ser e Devir, que considera a mudança em si mesmo como processo e passagem de um estado para outro, aqui representado como o velho e um novo estado emocional mas também geográfico, um antes, o agora e o depois. Daí recorrer ao uso de inversões, dípticos, múltiplas exposições, a ideia de um duplo fragmentado está muito presente, mas também unidades opostas que se complementam.

 


LV: “Ser e Devir” e muitos dos teus outros trabalhos estão publicados em livro. Esse é um formato que te agrada como forma de “fechar” o projecto?

VF: Sim sem dúvida, porque é um suporte mais democrático e perene ao contrário da efemeridade das exposições. É uma forma de “cristalizar” o projecto em parte e no todo, para o bem e para o mal, isto porque quando revejo publicações antigas reconheço os erros de edição e de opções gráficas. Curiosamente, neste momento estou a finalizar a edição de um livro sobre o projecto Uncanny Places, onde tem estado muito presente uma certa ambivalência, quer no sentido de voltar a olhar para um trabalho que foi realizado há mais de seis anos, assim como o desafio de fazer uma releitura desse projecto e lidar com as opções tomadas durante o período de 2007 a 2011. Mas para mim o processo criativo também é isso, um caminho onde nos vamos fazendo, transparecendo as nossas fragilidades e observando as metamorfoses.