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GONÇALO PENA

LIZ VAHIA


 

 

Gonçalo Pena é pintor em “viagem filosófica” por terras da Escandinávia. A paisagem, enquadrada entre o natural e o humano, é razão para as suas investigações actuais, pictóricas, mas não só. Prestes a inaugurar uma exposição em Lisboa, a Artecapital rumou ao norte para um vislumbre sobre a produção mais recente do artista e uma conversa sobre o momento actual, projectos passados e caminhos em aberto.

 

 

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LV: Neste momento repartes o teu tempo entre Lisboa e Bergen, na Noruega. Como é que surgiu a ideia de ires viver/trabalhar para lá?


GP: Foi uma espécie de lançamento de dados. A paisagem é a razão fundamental desta incursão. Prefiro utilizar este termo “incursão” visto que não me considero assim tão radicado em Bergen. A oportunidade surgiu quando uma amiga mudou de apartamento e desviou o meu plano inicial de ir para Hamburgo. Bergen, que já conhecia, é uma cidade pequena mas muito bem colocada em relação aos percursos paisagísticos na Noruega. Neste exacto momento estou a fazer um périplo de estudo pelo norte da Escandinávia começado a partir dali com o objecto de reflectir a actualidade e os problemas da nossa relação com a natureza contaminados pelo sublime, pela persistência do romantismo mas bastante para além disto. Mais precisamente refiro-me à ideia de natureza como facto cultural artificialmente justaposto ao conceito também em crise do humano. Isto é um esquema inicial mas que está aberto ao que vou descobrindo pelo caminho.

 

 

LV: Foi difícil deixar o teu atelier em Lisboa e constituir um novo espaço de trabalho em Bergen?


GP: Não deixei a produção que tinha em Lisboa. Aproveitei um espaço geográfico diferente para diversificar experiências, reflectir, trabalhar noutro registo para além do pictórico. Abri o raio de acção.

 

 

LV: Vais inaugurar agora uma exposição em Lisboa. Queres contextualizar-nos o trabalho que irás mostrar?


GP: É uma série de cartões em acrílico vagamente construída em volta das reflexões que já enunciei e ancoradas num pequeno texto de Agamben. L’Aperto denuncia um discurso que suporta a máquina antropológica que separa como acto bio-político arbitrário dois campos de outro modo profundamente interligados e de fronteiras indiscerníveis: o animal e o humano. Os cartões, uma série inicial de 63, permitindo edições e aberturas de sentido a partir de sub-grupos, têm uma natureza híbrida entre a pintura formal e o registo conceptual do desenho.

 

 

LV: Aparte da tua pintura, tiveste um importante trabalho de ilustrador em muitos jornais e revistas de referência, sobretudo nos anos 1990. A ilustração foi um período na tua carreira ao qual não pensas voltar?


GP: É um trabalho muito específico e que depende de contextos que transcendem o ritmo relativamente autónomo da pintura ou do trabalho normal de um artista plástico. À situação muito feliz para a ilustração portuguesa nos anos 90 têm de ser indexados alguns nomes: Revista K, O Independente, O Combate, Mil Folhas e Jorge Silva. Se existisse um contexto análogo, naturalmente dependente de uma imprensa disposta e capaz de investir em ilustração, voltaria. Aliás acho mesmo importante pensar a imagem como espaço de crítica alternativa sobre o texto do qual a ilustração ocupa o lugar central.

 

 

LV: Em 2012 tiveste na Galeria Graça Brandão a exposição Monkey Trip, onde se mostrava uma prolífera produção de cerca de 200 desenhos, espalhados pelo espaço de forma bastante informal. Era quase uma visita a uma torrente de pensamentos não mediados, onde diversos assuntos se misturavam, quase desenquadrados (sem moldura, sem forma estável). Sentiste necessidade de expor esse trabalho mais imediato, visceral, diferente da tua pintura?


GP: A iniciativa, bastante feliz por sinal, não foi minha. Era uma ideia perseguida à algum tempo pelo João Maria Gusmão e pelo Pedro Paiva. No mesmo ano da exposição massiva da ZDB, Atol, fez todo o sentido não mostrar mais pintura na Graça Brandão e aproveitar o momento para mostrar desenhos, até porque permitiu lançar uma outra claridade sobre o pensamento subjacente à produção pictórica e frequentemente soterrado no processo material desta.

 

 

LV: O livro que foi lançado este ano pela Mousse Publishing parece-me a forma ideal de apreciar esses desenhos. Concordas?


GP: Não diria ideal, mas perfeitamente adequada a uma edição linear. A disposição aparentemente caótica (a colocação dos desenhos foi muito trabalhada) nas paredes permite uma espessura de leituras possíveis que um livro dificulta. Mas claro, um livro reproduzindo quase em fac-simile cada um dos mais de duzentos desenhos permite uma divulgação para além do espaço-tempo de uma exposição, muitíssimo adequada ao universo conceptual e modo de produção destes.

 

 

LV: Antes de te dedicares à pintura em exclusividade, leccionaste pintura e desenho na ESAD das Caldas da Rainha durante 10 anos, tendo sido professor de alguns dos artistas que agora se começam a afirmar. Manténs ainda hoje alguma relação com eles? Acompanhas os seus projectos?


GP: Não me dedico em exclusivo à pintura. Mas respondendo à questão; - claro, embora esse processo também se defina pelas afinidades que se manifestam entre mim e esses percursos. E há a amizade que se formou em alguns casos, independentemente da maior ou menor visibilidade.


 

LV: Abandonaste o ensino em 2005. Houve sacrifícios/sacrificados nessa decisão?


GP: Acho que sim. Há sempre um mundo virtual de possibilidades que se perde nas decisões importantes.