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2014-05-06


João Fonte Santa - O Colapso da Civilização




2014-02-25


:::.PASCAL FERREIRA (sala 1) :::.JOÃO JACINTO (sala 2)




2013-11-05


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2013-09-10


André Banha ::: (re)visito(me)




2013-05-30


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EXPOSIÇÃO COLECTIVA




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2010-11-26


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2010-09-30


São Trindade ::: the tailor




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Joana Rosa ::: ROGER UTTAMA




 

 

O desenho em estado puro

por Miguel Matos

 

Se há uma coisa a reter antes de analisar qualquer obra de Joana Rosa, essa coisa será antes de mais, a ideia de doodle – um desenho feito de forma automática sem que a autora o tenha planeado e muitas vezes executado enquanto pensa noutras coisas. É uma maneira de fazer passar o tempo, uma distracção, por vezes um reflexo imediato da mente de alguém, possivelmente explicado através da psicanálise. Para Joana Rosa, o produto destes momentos é fascinante. A artista colecciona doodles, seus e dos seus amigos, catalogando-os e reunindo-os na sua colecção. Mas os desenhos que tem feito ao longo dos anos seguem também eles quase sempre o caminho de um doodle, embora provocado. Tal como a sua personalidade oscila entre momentos bons e maus, também a sua obra tem sido sempre “bipolar”. Assim, a par com uma produção de desenhos a que a autora designa por “pretos”, realizados com grafite sobre papel translúcido, Joana Rosa tem outro tipo de actividade. São desenhos “infantis”, onde a cor predomina em figuras de meninas princesas e homens-criança que pulam e brincam de forma aparentemente inocente. Até hoje, essa alternação entre estilos tem sido separada. Ora uma ora outra. E até agora, Joana Rosa tem dado primazia à produção de “pretos” (as suas exposições focam-se muito mais nestes). Os “pretos” eram desenhos obscuros, agressivos, repletos de maquinaria bélica, fios, botões, palavras de ordem, munições espalhadas e um caos organizado de carácter ameaçador. Por entre estes elementos, pernas de bailarina tornavam as composições mais paradoxais, parecendo serem reflexo de lutas internas da artista, com a vida e consigo própria. Intervalando estas explorações, Joana Rosa desenha sempre as suas “bonecas”. Mas a artista tem sentido um crescente mal-estar com a sua obra recente na fase dos “pretos” e tudo se tornou num ódio visceral contra as suas próprias criações dos últimos tempos. Assim, decidiu nunca mais desenhar “pretos”. São parte do seu passado e certamente obras de grande impacto visual, violentas e ameaçadoras. Mas isso acabou.

 

Nesta exposição, Joana Rosa decidiu investir na sua prática do desenho, como que num “ginásio de mãos”. Pegando nos desenhos das “bonecas”, ela fechou-se em casa e durante horas a fio de dias a fio. Desenhou as suas personagens de crianças-mulheres, desde as formas iniciais das  “bonecas” até às criaturas descontroladas que agora vemos, rodeadas de elementos vários como peças de roupas desmesuradas (estas meninas brincam com a roupa das mães), peixes bons e maus, até dragões, aranhas e outras criaturas fantásticas. Não busque aqui significados ocultos, simbologias ou mitos. São exercícios puros de desenho como disciplina. São personagens e criaturas que se desenvolveram nos seus traços e na maneira como as mãos de Joana Rosa aprenderam a representar melhor uma perna, um braço, um olho (seja de peixe ou de menina). Um soutien, um sapato desmesurado, umas meias caídas... são aperfeiçoamentos no desenho, que cresceram e ficaram salpicados no papel como caprichos extravagantes. A artista desenha como quem respira: sem dar por isso, sem teorizar cada inspiração ou cada traço, cada pinta, cada cor. As suas canetas traduzem uma fluidez que lhe interessa desde sempre e se relaciona com um lado oriental a lembrar Hokusai, como estampas japonesas de natureza erótica mas em que o que interessa é a forma e menos o conteúdo ou o significado. “Odeio conceptualismos”, diz Joana Rosa. A artista quer distanciar-se de programas e ideias filosóficas para se concentrar no aperfeiçoamento do desenho e no seu respirar num continuar que se traduz na sequência desta exposição, desde as meninas até às quase répteis criaturas mulheres.

 “O desejo de ter uma ideia é como isco. Quando se está a pescar, é preciso ter paciência. Coloca-se o isco no anzol e espera-se. O desejo é o isco que atrai aqueles peixes – aquelas ideias”, disse o realizador, artista plástico e músico David Lynch. Mas uma ideia pode ser não um raciocínio filosófico e sim uma forma que se desenvolve noutras formas. “O que é bonito é que, quando se apanha um peixe que se ama, mesmo que seja um peixe pequeno – um fragmento de uma ideia -, esse peixe vai atrair outros peixes e agarrar-se-ão a ele. Então, está-se lançado. Em breve começam a surgir cada vez mais fragmentos e a coisa inteira emerge. Mas começa com um desejo (1). E já agora, nesta exposição, também há muitos peixes...

 

(1) LYNCH, David, Em Busca do Grande Peixe – Meditação, Consciência e Criatividade. Ed. Estrela Polar, Cruz Quebrada, 2008.

 

 

Joana Rosa

Nasceu em 1959 em Lisboa, onde vive e trabalha. Frequentou a St. Martin's School Art & Design, Londres, em 1978. Entre 1979 e 1983 estudou na London University College, Slade School of Fine Art Experimental Sculpture Course, em Londres. Recebeu uma bolsa de estudo da Fundação calouste Gulbenkian. Organizou o curso de Verão de Design de Joalharia, na A:R:C:O:, em Lisboa, onde também leccionou. Foi também professora no Curso de desenho do IADE, Intituto de Artes Visuais, Design e marketing, em Lisboa e de desenho no curso de Arquitectura da Universidade Lusíada, em Lisboa.
Está representada nas colecções do MoMA, Fundação de Serralves, Fundação Calouste Gulbenkian e em colecções privadas. Recebeu o prémio Lis 79 (Prémio Ex-aequo), Bienal Internacional de Arte Moderna (Secretaria de Estado da Cultura, Lisboa, Portugal) e o prémio Arte Jovem 92 (Prémio Ex-aequo), Museu de Chaves, Portugal. 

 

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