Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição “O Dia já Fecha as Portas”, Maria Capelo, maat, 2023. Fotografia de Bruno Lopes. Cortesia maat/ Fundação EDP


Vista da exposição “O Dia já Fecha as Portas”, Maria Capelo, maat, 2023. Fotografia de Bruno Lopes. Cortesia maat/ Fundação EDP


Vista da exposição “O Dia já Fecha as Portas”, Maria Capelo, maat, 2023. Fotografia de Bruno Lopes. Cortesia maat/ Fundação EDP


Maria Capelo, "O Dia já Fecha as Portas", 2022. Cortesia maat/ Fundação EDP


Vista da exposição “O Dia já Fecha as Portas”, Maria Capelo, maat, 2023. Fotografia de Bruno Lopes. Cortesia maat/ Fundação EDP


Vista da exposição “O Dia já Fecha as Portas”, Maria Capelo, maat, 2023. Fotografia de Bruno Lopes. Cortesia maat/ Fundação EDP


Vista da exposição “O Dia já Fecha as Portas”, Maria Capelo, maat, 2023. Fotografia de Bruno Lopes. Cortesia maat/ Fundação EDP

Outras exposições actuais:

BIENAL DE ARTE DE VENEZA DE 2026

IN MINOR KEYS


Vários locais / Veneza, Veneza
LEONOR VEIGA

TIAGO BAPTISTA

UMA VOZ NA PEDRA


Clube de Desenho, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ROSA BARBA

DESENHAR VOCABULÁRIOS


CAM - Centro de Arte Moderna, Lisboa
MARIANA VARELA

CATHERINE OPIE

TO BE SEEN


National Portrait Gallery, Londres
CONSTANÇA BABO

COLECTIVA

UM SILABÁRIO POR RECONSTRUIR IV


Culturgest (Porto), Porto
MAFALDA TEIXEIRA

CRISTINA ROBALO

ANTES DE SUBIR À TONA


Fundação Carmona e Costa, Lisboa
LIZ VAHIA

COLECTIVA

SOUND FIELD


3 + 1 Arte Contemporânea, Lisboa
CARLA CARBONE

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
ANA CAROLINA ESTEVES

TARRAH KRAJNAK

REPOSE EXPOSE COUNTERPOSE


Fondation A Stichting, Bruxelas
ISABEL STEIN

COLECTIVA

O PODER DE MINHAS MÃOS


Sesc Pompeia, São Paulo
CATARINA REAL

ARQUIVO:


MARIA CAPELO

O DIA JÁ FECHA AS PORTAS




MAAT
Av. de Brasília, Central Tejo
1300-598 Lisboa

18 JAN - 30 ABR 2023


 


Em O dia já fecha as portas, de Maria Capelo, vislumbramos lugares, onde a realidade se funde com a memória em gestos espontâneos e contemplativos de um viajante de paisagens. A mobilidade e mutabilidade do corpo de uma caminhante-artista marcam ritmos e compassos em vários momentos de um percurso. Nada permanece apenas o silêncio, que se sobrepõe à palavra.

Sente-se o espaço como uma memória flutuante do ser, que é regida pelo tempo da pincelada em tinta da China sobre o papel oriental. Maria Capelo elabora em sucessivas variações de paisagens, o momento de cada uma delas dada pela transformação, cuja ação se funde entre a contemplação e a memória de uma paisagem. Ao apreciarmos as palavras de João Pinharanda, viajamos para a obra plástica da artista:

 

Vales e colinas, renques de árvores bordejando cursos de água, espaços abertos, montes calvos, árvores isoladas ou pequenos bosques, florestas mais fechadas e secretas, raríssimos pormenores de construções humanas confundindo-se com afloramentos rochosos… (Pinharanda [2023] Paisagem, palavra e silêncio [Folha de Sala])

 

Através dos desenhos configurados por uma unidade monocromática, entre a sombra e a luz, contracena-se, de um modo subjacente, o entendimento da noção espácio-temporal. Maria Capelo sugere, desta forma, através da montagem dos vários elementos pictóricos, o sentido da vida sinalizado pelo silêncio.

De desenho a desenho, o gesto da mão e o olhar criam vocábulos repetitivos, mas diferentes entre si, como incidentes de uma composição cenográfica, onde tudo permanece mutável, numa constante fluidez e transitoriedade, que, inevitavelmente, suscitam um recomeço ao seu ponto de origem. Por outras palavras, cada obra reside na impossibilidade do encontro com o espaço. A imagem original dada por cada gesto da pincelada estende-se através de um processo experimental que comporta as matérias em si. Na efemeridade da coisa, o corpo perambula entre caminhos, cuja sensação dilacera as fronteiras do ser em si.

Da descontinuidade da narrativa visual, revela-se o fragmento, do olhar, o gesto e o desenho. Numa experiência estética, em particular, o impulso ininterrupto da mudança, o espectador avista a unidade dada pela conceção temporal de um percurso, que se manifesta na montagem das paisagens contempladas. A ordem desmorona-se na inviabilidade definida pela oscilação da narrativa dos vários momentos e dos fragmentos testemunhados, cujos elementos, por sua vez, se expandem numa experiência para além do aparente encadeamento cinematográfico. Essa experiência encontra-se na memória, reconhecendo a sua volubilidade e uma consciência ilusória de querer abarcar a natureza, enquanto coisa em si.

A narrativa da montagem adere a uma duração de um momento temporal de ação. O fluxo da memória, que ocorre no tempo psicológico, evidencia-se como sendo um processo de criação que determina a obra da artista.

Todavia, a memória é absorvida pelo estado de contemplação. Assim, sentimos a impermanência em cada momento, sendo exteriorizada pela vacilante narrativa, numa espécie de devaneios de um caminhante no espaço. A temporalidade do caminhar na paisagem transparece na mutabilidade do ser, enquanto estado de consciência, que converge e unifica os vários trilhos do passado, presente e futuro no não ser.

Na fluidez de um gesto, o caminho manifesta-se transitório, a memória ténue exposta como um frame de uma película cinematográfica, numa consciência aparente do próprio ser no espaço e no tempo.

Em O dia já fecha as portas, relembra-nos o sentimento de um contemplador solitário como afirmava Jean-Jacques Rousseau, que, em certa medida, a artista contemporânea desponta numa outra experiência estética, apelando à dicotomia entre o estado de meditação e a memória, onde o passado e presente, a paisagem real e o momento de ação do gesto são delineados pelo ato da memória. Ambos unem-se nos múltiplos fragmentos visuais, oferecendo-nos, desta forma, uma alusão da sensação de um ser meditativo.

O gesto despojado da artista intensifica a compreensão da essência das coisas em si da natureza. Um momento de união entre a memória e o estado meditativo do contemplador nasce da consciência do gesto dado pela mão através do pincel. A artista encontra na ação o movimento da essência dos elementos. Capta a transitoriedade da energia que tudo flui, como é entendida pela filosofia oriental, ou na prática da pintura chinesa, em que o gesto da mão, o traço e o pincel fluem como um todo, libertando o fluxo da vida.

Atendendo à experiência de um contemplador, que unifica a memória ao ato do gesto, um elemento enfático do movimento espácio-temporal, Maria Capelo encaminha o espectador para um estado da finitude do ser. Por assim dizer, quando olhamos uma paisagem, aspirando o estado de consciência do não ser, não é no tempo da paisagem que pensamos, mas sim na temporalidade do ser.

 

Joana Consiglieri
Vive e trabalha em Lisboa. Artista plástica, teórica de arte, investigadora, professora do ensino superior e Design (Cocriadora de AMAZ’D art studio). Doutoramento em Ciências da Arte. Mestrado em Teorias da Arte e licenciada em Artes Plásticas – Escultura.

 

 



JOANA CONSIGLIERI