Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vasco Araújo, "O que eu fui"

Outras exposições actuais:

BIENAL DE ARTE DE VENEZA DE 2026

IN MINOR KEYS


Vários locais / Veneza, Veneza
LEONOR VEIGA

TIAGO BAPTISTA

UMA VOZ NA PEDRA


Clube de Desenho, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ROSA BARBA

DESENHAR VOCABULÁRIOS


CAM - Centro de Arte Moderna, Lisboa
MARIANA VARELA

CATHERINE OPIE

TO BE SEEN


National Portrait Gallery, Londres
CONSTANÇA BABO

COLECTIVA

UM SILABÁRIO POR RECONSTRUIR IV


Culturgest (Porto), Porto
MAFALDA TEIXEIRA

CRISTINA ROBALO

ANTES DE SUBIR À TONA


Fundação Carmona e Costa, Lisboa
LIZ VAHIA

COLECTIVA

SOUND FIELD


3 + 1 Arte Contemporânea, Lisboa
CARLA CARBONE

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
ANA CAROLINA ESTEVES

TARRAH KRAJNAK

REPOSE EXPOSE COUNTERPOSE


Fondation A Stichting, Bruxelas
ISABEL STEIN

COLECTIVA

O PODER DE MINHAS MÃOS


Sesc Pompeia, São Paulo
CATARINA REAL

ARQUIVO:


VASCO ARAÚJO

O Que Eu Fui




GALERIA FILOMENA SOARES
Rua da Manutenção, 80
1900-321 Lisboa

09 MAR - 28 ABR 2006

A Voz e a Individualidade

A voz é um dos elementos mais misteriosos das forças humanas expressivas: um sopro que se transforma em palavra, em sentido, em melodia e que é sempre a apresentação de um determinado limite compreensivo. Por mais que nos esforcemos nunca se conseguirá compreender inteiramente a natureza – expressiva, plástica e linguística – daquilo que é uma voz. A exposição que Vasco Araújo agora apresenta na Galeria Filomena Soares assume a voz como um problema ou, melhor, como perplexidade.

As duas obras apresentadas – o vídeo “Far de donna” e a instalação de fotografias e voz “O que eu fui” que dá nome à exposição –, ainda que formal e materialmente muito distantes, encontram-se na mudez que pressupõem. No vídeo, uma mãe narra, gestualmente, a sua perda de voz no momento em que o seu filho começa a cantar, assumindo a plenitude da sua voz. Nas fotografias, as diferentes imagens de esculturas em pedra, naturalmente sem voz, falam dos momentos que antecedem a morte, do momento em que, em vida, se está a ver a própria morte e a tentar criar um sentido para o passado, e a projectar a possibilidade de habitar o território desconhecido em que se está prestes a entrar. A estas imagens junta-se um dispositivo sonoro através do qual uma voz feminina diz: “Estou cansada, há algo que não me deixa respirar, cansada de tantos impedimentos, cansada de não me deixarem fazer o que quero, a vida não me deixou fazer tudo o que quis, trazer as cadeiras, dizer o que queria, não sei… sei, sim, que estou cansada e que preciso de descansar…”
A categoria onde integrar qualquer uma destas peças é dispensável. Quer as histórias contadas sejam realidade ou ficção, o pertinente é o núcleo de experiências humanas para que apontam. E aquelas que aqui estão em causa dizem respeito à perda dos elementos que, claramente, marcam e constroem a individualidade e a consciência da vida que, nos dois casos, são vistas como impedimento e perda. As duas peças estabelecem um paralelismo entre a perda da voz e a perda de si próprio, o desvanescimento do corpo e da identidade, e parecem apresentar a voz como critério de individuação. Diz o personagem do vídeo: “num ritual de amor alucinado, / arranco de mim para lhe dar, / na mais generosa / forma de o amar, / mais do que a alma, / a voz, / o sentido que em nós, / fala mais perto, / e liberto, / enfim, / vazia de mim / e de tudo, / um profundo grito, / MUDO / AHHHHHHHHHHHHHHH.” Parece que a voz é caracterizada como o veículo privilegiado da alma e da intimidade. Também para os hindus antigos, a alma era concebida como uma espécie de sopro – atman – e a morte era a perda desse mesmo sopro. O coração desta nova exposição de Vasco Araújo é a percepção da qualidade informe e imaterial, inominável e originária daquilo que constitui a singularidade de cada um de nós.


Nuno Crespo