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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Jose Caldeira


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ARQUIVO:


JORGE JACOMÉ & MARCO DA SILVA FERREIRA

SIRI




TEATRO MUNICIPAL DO PORTO



30 ABR - 30 ABR 2021


 

SIRI estreou no dia 30 de Abril no auditório Campo Alegre, no Porto, ao abrigo do Festival Dias da Dança. A direcção artística é de Jorge Jacomé, realizador, e Marco da Silva Ferreira, coreógrafo e bailarino. Os interpretes são Alina Folioni, Éric Santos, Marco da Silva Ferreira, Mélanie Ferreira, o desenho de luz é de Rui Monteiro, e a música de Rui Lima e Sérgio Martins. SIRI dá seguimento ao trabalho desenvolvido por esta dupla que, desde Íris, vem convergindo o cinema e o vídeo com as artes performativas.

A peça começa na penumbra. Uma escuridão quase avassaladora preenche o espaço da sala. No chão do palco estão uma série de projectores de luz organizados em esquadria: paralelos e perpendiculares uns com os outros. Ocupam toda a área onde se desenrola a acção. A atmosfera sonora acompanha a escuridão da sala através de sons sombrios, sintetizados, densos e demorados. Começam a ser projectadas imagens numa tela. Estas imagens aparecem e desaparecerem através de fade in’s e fade out’s muito rápidos, dando-nos a observar corpos que aparecem e desaparecem. Os corpos projectados são os corpos dos bailarinos e das bailarinas que, um depois do outro, começam a entrar em cena. Ainda durante a projecção, os corpos começam a distribuir-se no chão entre os projectores de luz. Permanecem imóveis até que a projecção termina. Os projectores de luz começam a tremer como corpos que tremem. Não é um tremer de frio, mas sim um tremer que se assemelha a uma vibração, a um movimento agitado minúsculo, como se fosse a mão de um alcoólico ou de um fumador. Estes projectores (doze) são parte fundamental na coreografia de SIRI, o cenário assume um papel central na composição de toda a peça.

A coreografia nasce e vai nascendo sempre no diálogo entre corpo-máquina, ou na conversa entre o corpo, o corpo do outro, e a máquina. O movimento dos projectores de luz durante toda a peça é desenhado minuciosamente, não sendo absurdo portanto aplicar a palavra coreografia também a eles. Trata-se de um exercício de composição, o tremer dá lugar a movimentos mais espaçados, mais sinuosos, mais lentos ou mais rápidos. Estes projectores foram descaracterizados da sua função, os projectores de luz não assumem o seu papel de iluminar a cena, em vez, são um elemento imprescindível na composição da coreografia do espectáculo. À medida que o tempo passa, os corpos vão adquirindo cada vez mais movimento e fluidez, elevando-se aos poucos do chão. Este movimento adquire várias qualidades: é largo, amplo, e percorre diferentes ritmos. Os corpos vão se movendo sugerindo a ideia de expansão, crescem e diminuem, e o ritmo com que o fazem vai se intensificando cada vez mais conforme a acção avança. A ideia da repetição está muito presente, os movimentos e as acções repetem-se constantemente, e são através destas repetições, que os bailarinos e as bailarinas começam a interagir uns com os outros. O seu olhar tem uma característica de vidro fosco, sugere um vazio, uma apatia. A expressão facial dos bailarinos e das bailarinas acompanha esta ideia. Estas características parecem entrar em relação com o cenário, nomeadamente com os projectores de luz. Há um diálogo claro por parte dos bailarinos e das bailarinas com estas máquinas, explorando binómios como: material e imaterial; estabilidade e rapidez; físico e psicológico; desafio e receio; humano e tecnológico. Os corpos que dançam vão progressivamente se relacionando cada vez mais uns com os outros, havendo momentos da coreografia onde é indispensável a presença do outro: jogos de pesos e contrapesos, de acção reacção. São criados momentos de intimidade e de sincronicidade absoluta. A música intensifica-se mas nunca perde o carácter denso e dramático, aproxima-se ao som do que seria uma rajada de vento metálica.

Existe pela parte dos criadores uma vontade de assemelhar o corpo humano ao corpo máquina, ou vice-versa. Nas palavras dos criadores, a coreografia de SIRI apresenta-se como uma investigação sobre a memória, investigação essa que caracterizam como arqueológica e viva: do corpo humano e das suas representações através da tecnologia. Este imaginário meio ciborgue/ficção científica vai colocando várias questões no pensamento do espectador: estará o corpo humano cada vez mais mecanizado? Fazemo-lo deliberadamente ou involuntariamente? Será uma coisa boa ou uma coisa má? O contexto destas questões é bastante político, uma vez que podemos aplicar estes conceitos de mecanicidade e do corpo-máquina ao modo como está estruturada a economia de mercado, o capitalismo, e mesmo a crença de que o avanço tecnológico irá resolver as desigualdades do mundo. No final do espectáculo as luzes voltam a baixar, transportando-nos para o ambiente do início do espectáculo. Os bailarinos e as bailarinas ficam imóveis no chão a assistir ao diálogo que começa agora a ser projectado. Este diálogo está num plano filosófico, por vezes até metafísico. Fala-se sobre aquilo que é matéria, e daquilo que não é matéria, chegando à conclusão que tudo é matéria: da tecnologia ao corpo, até à partícula mais elementar que compõe o universo.

 

Rodrigo Fonseca
Licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Viajou pela Europa central, pelos Balcãs, América do Sul, e viveu em Itália, Grécia e Brasil. O seu trabalho artístico desenvolve-se na música e no corpo. Organiza e programa os festivais culturais Dia Aberto às Artes (Mafra) e Sintra Con-Cê (Sintra) e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars e da editora CusCus Discus.



RODRIGO FONSECA